
Ouça este conteúdo
Em 1999, o filme Matrix tomou o mundo de assalto ao mostrar uma distopia na qual os humanos são escravizados por máquinas. Na obra, só conseguiria enxergar esse “mundo real” quem tomasse uma pílula vermelha. A outra opção, uma pílula azul, manteria o indivíduo imerso no “mundo das ilusões”.
Não demorou até que o conceito apresentado no filme extrapolasse para a vida real. E uma das conexões mais conhecidas atende justamente pelo nome de “movimento redpill”, no qual grupos masculinos afirmam existir uma suposta dominação feminina que prejudica os homens nas relações afetivas e sociais. É o que se convencionou chamar de “machosfera”.
A resposta feminina veio de forma similar, mas mudando a cor da “pílula” que permite enxergar essa realidade. Na “femosfera”, é a pílula rosa, ou pinkpill, o meio pelo qual as mulheres são convidadas a abandonarem uma vida de ilusões em favor de enfrentarem o mundo real como ele é.
Na teoria, a proposta é repleta de boas intenções, como fazer as mulheres enxergarem seu real valor, aprender mais sobre o empoderamento feminino e ajudar na luta por direitos. Ativistas sobre o assunto costumam dizer que essa seria a principal diferença entre os movimentos masculino e feminino.
“Não existe um equivalente feminino da machosfera. Não temos mulheres ensinando outras mulheres a abusar ou a serem violentas com os homens”, afirmou Onyinyechi Ezeanowi, militante dos direitos das mulheres e especialista em ambientes digitais, em uma entrevista à BBC África.
Só que na prática a realidade é bem diferente. Uma pesquisa rápida nas redes sociais feita pela Gazeta do Povo levou a páginas onde mulheres, sob a justificativa pinkpill, ensinam mulheres, de forma velada, a agredirem os homens “difíceis de lidar”.
Essas agressões são sugeridas sob a metáfora de “lavar a louça”, e vão de ataques com objetos cortantes até mesmo à ocultação de cadáver.
O que é a “femosfera”, origem do movimento pinkpill
O termo “femosfera” foi criado pela pesquisadora Jilly Kay, da Universidade Loughborough, no Reino Unido. Ao estudar sobre o assunto, ela identificou o pinkpill como a filosofia de base do movimento, que guarda poucas semelhanças com o feminismo clássico.
Segundo Kay, essa nova tendência aceita que homens e mulheres são diferentes, e que essas diferenças são verdades biológicas imutáveis. Mas ao contrário das feministas, que queriam transformar a sociedade para atingirem uma igualdade forçada, a femosfera adota um fatalismo profundo, acreditando que a desigualdade não pode ser abolida, apenas negociada individualmente.
Essa negociação, por exemplo, ganha força à medida que, segundo essa tendência de pensamento, as relações entre homens e mulheres são vistas como parte de um jogo estratégico. Caberia às mulheres, então, manipular esse jogo para garantir uma vantagem individual, sem se preocupar tanto com esse espaço coletivo de igualdade.
O ideal, segundo o movimento pinkpill, seria reagir de forma bruta a essa realidade. A chave é o distanciamento emocional e o autocontrole. Uma Mulher de Alto Valor (MAV, na gíria pinkpill), não deve se mostrar apaixonada, nem mesmo quando se encontra com um homem ideal: emocionalmente maduro, respeitoso, leal, protetor e principalmente provedor e financeiramente estável.
O valor financeiro é tão importante que algumas influenciadoras do movimento tratam aconselham as mulheres a priorizarem o dinheiro do parceiro em lugar da atração física. Para essas influenciadoras, homens pobres são comumente descritos como “dusties”, algo como “desprezíveis”.
Outras defendem que homens e mulheres são programados biologicamente para agir de certas formas. Eles, então, são sempre os provedores e elas precisam ser mimadas. Ainda assim, as mulheres precisam ter seus sentimentos reprimidos para evitarem o apego emocional aos seus pretendentes, que passam a ser vistos não como seres humanos, mas sim como “um conjunto de características”, como define a pesquisadora Jilly Kay.
Sob essa ótica pinkpill, as relações tornam-se então um exercício de autointeresse radical dentro de um sistema patriarcal que a femosfera aceita como fixo e inalterável.
Influenciadoras pinkpill disfarçam dicas de agressões a homens com “lavar louça”
Saindo das conversas acadêmicas e voltando ao mundo real, essa reação de algumas mulheres ao movimento masculino redpill mostra que dois erros não formam um acerto. A femosfera, assim como sua antagonista machosfera, é repleta de ódio, e esse sentimento deveria ser combatido, e não abraçado.
E é com ódio, muito mal disfarçado, que as criadoras de conteúdo Cah Fernandes e Hyla Natiely ensinam como o pinkpill pode ajudar as mulheres em relacionamentos com homens “difíceis de lidar”. As irmãs usam uma metáfora sobre “lavar a louça” para ensinar agressões. Os comentários do post também ajudam com outras sugestões.
Logo no começo do vídeo, as jovens aparecem lavando uma faca e uma machadinha. Na sequência, uma delas sugere que é sempre bom ter água fervente por perto para “eliminar os resíduos do prato”. A outra alerta para que não se deixe cair açúcar na água fervente.
“Senão carameliza, e se adere na pele por muito mais tempo. Além de transferir um calor extremo. Um perigo”, diz, com um sorriso.
Ao sugerir a importância de ter amigas para “lavar a louça”, as irmãs aparecem manuseando as mesmas facas do início do vídeo. A próxima sugestão é ter sempre à mão objetos perfurantes como tesouras, alicate de cutícula e agulhas de tricô – que segundo as criadoras de conteúdo são “muito resistentes”.
Após recomendar um gesto de esfaqueamento com um desses objetos e de alertar sobre os riscos de se aplicar aerossol nos olhos, o vídeo termina com a sugestão de se livrar da “louça” com a ajuda “uma caixa bem grande”, que deverá ser carregada para bem longe por 4 ou 6 amigos.
“O importante é que você não pode chegar perto dessa caixa. Quem usa de maneira moderada os meios necessários para repelir sujeira injusta mantém a ficha, ops, a pia limpa”, concluiu o vídeo, pedindo mais dicas de “limpeza” nos comentários.
Seguidores usam caso de Elize Matsunaga como exemplo
Os seguidores responderam com várias dessas dicas. Uma das sugestões foi andar com uma fruta e uma faca, para quando “der vontade de comer aquela vitamina”. Outra apontou que os lugares do corpo que “mais coçam” após uma “picada de mosquito” são aqueles onde há mais vasos sanguíneos, como pescoço, virilha e na parte de trás do joelho.
Uma seguidora que se identifica como advogada quebrou o padrão das metáforas ao citar explicitamente o caso de Elize Matsunaga, condenada por matar e esquartejar o marido Marcos Matsunaga. Segundo ela, as táticas ensinadas no vídeo precisar ser usadas “com moderação”.
“Se a louça se quebrar ou for danificada de forma permanente, não faça como Elize Matsunaga que tentou descartar a louça suja por conta própria. Chame os profissionais responsáveis por recolher todo lixo da sociedade. Assim fica mais fácil que pessoas como eu possa ajudá-las a encerrar o assunto sem muitos transtornos”, comentou.
Pinkpill não é alvo de projetos de lei no Congresso
A alegada falta de violência do movimento pinkpill pode explicar o fato de que o termo ainda não é tão facilmente reconhecido quanto seu antagonista masculino. No Congresso Nacional, por exemplo, um projeto de lei de autoria da deputada Maria do Rosário (PT-RS) cria como um novo tipo de crime a “promoção, divulgação ou incentivo de ideologias misóginas que incitem violência, discriminação ou inferiorização das mulheres, inclusive quando difundidas em ambientes digitais”.
É uma descrição bastante elaborada do movimento redpill.
Segundo a proposta, tais condutas devem levar um homem a cumprir uma pena de 1 a 3 anos de cadeia. Se o ato for cometido na internet, a pena deve aumentar em 1/3. Para a autora, “ainda existe lacuna normativa quanto à promoção sistemática de misoginia e incitação à violência de gênero, especialmente no contexto digital”. Não há nenhuma citação ao movimento da femosfera.
É assim também no PL da Misoginia, que não traz em seu conteúdo nenhuma referência à violência propagada por mulheres nas redes sociais. Ainda assim, a relatora do texto no Senado, a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) defendeu expressamente o uso do novo tipo penal para reprimir criminalmente os adeptos do movimento redpill.







