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O que (não) aprendemos com a Primeira Guerra Mundial
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Toda guerra deixa marcas profundas. Naqueles que combateram, nas populações afetadas, nos governos envolvidos, na economia, na cultura, enfim, em tudo aquilo que foi atingido, direta ou indiretamente, pela violência do conflito. Um século é bastante tempo na história. Mas equivale a quanto nesse processo de cauterização das feridas deixadas por uma guerra? Difícil responder, ainda mais quando se fala de um conflito que envolveu alguns dos países mais poderosos do planeta, mudou a geografia e deixou pontas soltas, que, anos mais tarde, amarraram uma guerra ainda mais sangrenta e traumática.

Em 11 de novembro de 1918, um acordo de paz era assinado entre nações após quatro anos de conflitos, que deixaram cerca de 10 milhões de mortos e mais um sem-número de feridos. Naquele que ficou conhecido como o Dia do Armistício, era oficialmente declarado o fim da Primeira Guerra Mundial. Cem anos depois, muita coisa mudou em termos de geopolítica, tecnologia e relações humanas. Ao mesmo tempo, não é difícil enxergar semelhanças com os tempos atuais em ideias, divisões políticas e disputas mercadológicas.

Antes de olhar para os efeitos, é preciso rever as causas daquela que, como intitulada, foi a primeira grande guerra envolvendo várias nações de diferentes continentes. A história oficial estabeleceu como estopim o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, da Áustria-Hungria, por um nacionalista sérvio, em Sarajevo (Bósnia) em 28 de junho de 1914. Exatamente um mês depois, o império austro-húngaro revidava invadindo a Sérvia e detonando o embate entre duas forças, os Aliados (França, Reino Unido e Rússia) e a Tríplice Aliança (Áustria-Hungria, Alemanha e Itália).

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Mas há quem diga que isso foi apenas o pretexto para iniciar uma guerra que se desenhava há muito tempo, fruto de disputas territoriais e comerciais entre os países que formaram as duas frentes. Para Margaret MacMillan, autora do livro ‘A Primeira Guerra Mundial’ (Globo Livros), não há um consenso sobre por que o conflito aconteceu. “Teria sido causada pelas ambições desmedidas de alguns dos homens no poder? O kaiser Wilhelm II e seus ministros, por exemplo, queriam uma Alemanha maior, com um alcance global, capaz de desafiar a supremacia naval britânica. Ou a explicação está nas ideologias conflitantes? Nas rivalidades nacionais? Ou no absoluto e, aparentemente, irreversível, momentum do militarismo? Ou será que o conflito jamais teria acontecido se um evento aleatório em paragens austro-húngaras não tivesse acendido o pavio? Essa é a mais desalentadora de todas as explicações: que a guerra foi simplesmente um erro estúpido que poderia ter sido evitado”, escreveu a historiadora em artigo no New York Times.

Impulsionados pela industrialização, potências europeias acirravam a rivalidade entre o fim do século 19 e início do século 20. França e Alemanha alimentavam a tensão resultante de uma guerra que, na década de 1870, fez os franceses perderem o importante território da Lorena e Alsácia, enquanto os alemães incrementavam seu potencial bélico. Em outro ponto, Rússia e Império Austro-Húngaro disputavam o domínio sobre a região das Balcãs. Usando um jargão popular, a Europa era um barril de pólvora.

O historiador Christopher Clark, autor de ‘Os Sonâmbulos: Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial’ (Companhia das Letras), é convicto ao falar que as condições já estavam postas para um conflito de grandes proporções. “No final, estamos olhando para uma Europa desprovida de grandes poderes, em que cada um estava, de uma maneira bem egoísta, perseguindo seus próprios interesses e dispostos a assumir o risco de um conflito maior”, afirmou em entrevista à Rádio Free Europe. O assassinato de Francisco Ferdinando acabou sendo o pretexto que faltava para dar a ordem de ataque.

Transformações globais 

À invasão da Sérvia seguiram-se quatro anos de batalhas sangrentas, marcadas pelo uso de novas tecnologias bélicas, como aviões e tanques, capazes de provocar mortes de soldados aos milhares. Em 1917 aconteceu aquele que foi um fator decisivo não somente para aquela guerra, mas para a futura ordem mundial: a entrada dos Estados Unidos. Combatendo uma Alemanha enfraquecida, americanos e aliados conseguiram no ano seguinte a rendição dos adversários e o consequente encerramento do conflito. A partir dali, não é exagero dizer que o mundo nunca mais foi o mesmo.

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Punida, a Alemanha sofreu no pós-guerra com a perda de territórios e uma das piores crises econômicas de sua história. O cenário propício para o fortalecimento dos ideais nazistas, que se consolidaram com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, anos mais tarde. O conflito também fez surgir a Liga das Nações, que fracassou a princípio, mas foi a semente para a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) a posteriori. Já os Estados Unidos se consolidaram como a grande potência mundial que são até hoje. E, claro, das tensões não dissipadas decorrentes do embate formou-se o espiral que deu origem à Segunda Guerra Mundial, em 1939.

Para Margaret MacMillan, entender todas essas transformações é fundamental para pensar a realidade atual. “A História, numa frase atribuída a Mark Twain, nunca se repete, mas rima. Temos um bom motivo para voltar nosso olhar para trás, mesmo mirando adiante. Se não conseguimos determinar como um dos mais importantes conflitos aconteceu, como poderemos evitar uma catástrofe semelhante no futuro?”, questiona. “Mais perigosos ainda podem ser nossos erros de interpretação sobre as mudanças na guerra. Há cem anos, a maior parte dos planejadores militares e dos governos civis entendeu a natureza do conflito que estava por começar de forma catastroficamente errada.”

Cenário atual 

Olhemos agora para o mundo atual. Temos dois grandes blocos de superpotências medindo forças econômicas e de poder. De um lado, Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha; do outro, China e Rússia. Os conflitos territoriais não cessaram, longe disso. A diferença é que se deslocaram da Europa, onde começou a Primeira Guerra, para outros continentes, como a Ásia, castigada há décadas por guerras no Iraque, Afeganistão, Líbano, Síria e Palestina. Sem contar a tensão que vem da Coreia do Norte, onde o regime de Kim Jong-un por algumas vezes suscitou o temor de um ataque nuclear.

Entre os países mais ricos, a ameaça territorial deste século não vem na forma de exércitos armados, mas de hordas de populações pobres migrantes. Na Europa, nos Estados Unidos e até mesmo no Brasil, autoridades se dividem entre amparar e reprimir milhares de pessoas que tentam atravessar as fronteiras fugidas de guerras e regimes ditatoriais. O extremismo, que foi o motivador do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, hoje é manifestado das mais diversas maneiras e se alastra facilmente por meio da internet e das redes sociais. Em meio a esse clima beligerante e com a retórica agressiva de líderes como o presidente americano Donald Trump, o russo Vladimir Putin e o norte-coreano Kim Jong-un, quão real é o risco de um novo conflito de grandes proporções?

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Para os historiadores, o risco pode não parecer tão grande como àquela época, mas episódios recentes, como a crise entre Ucrânia e Rússia, em 2014, servem de alerta para a velocidade com que os fatos podem se desenrolar. “Pense quão rapidamente as relações entre Rússia, União Europeia e Estados Unidos foram transformadas [durante a crise ucraniana]. Foram poucos meses. A situação pode se deteriorar drasticamente muito, muito rapidamente”, diz Christopher Clark.

Tanto ele quanto Margaret MacMillan acreditam que os líderes mundiais podem tirar importantes lições se estudarem com mais afinco o que ocorreu antes, durante e depois da Primeira Guerra. “Uma das lições é que coisas ruins podem acontecer muito rapidamente e precisamos ser extremamente vigilantes. Precisamos focar nem tanto em reconhecer que uma guerra está prestes a acontecer, mas antes dos sinais aparecerem, construir estruturas que evitem o conflito armado”, observa Christopher.

“Pode ser necessário um momento de real perigo para forçar as grandes potências a se unirem em coalizões capazes e dispostas a agir. Em vez de ficar pulando de crise em crise, talvez seja a hora de repensar as terríveis lições de um século atrás — na esperança de que nossos líderes, com o nosso apoio, repensem como podem trabalhar juntos para construir uma ordem internacional estável”, conclui Margaret.

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