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muitos vídeos que contradizem as medidas oficiais são cheios de charlatanices médicas e outras mentiras. Mas a censura é a pior forma de combater isso.
muitos vídeos que contradizem as medidas oficiais são cheios de charlatanices médicas e outras mentiras. Mas a censura é a pior forma de combater isso.| Foto: Pixabay

Em breve, os Youtubers serão silenciados se não concordarem com a ONU em questões de saúde pública. Como informa a revista The Verdict:

O YouTube vetará todo conselho médico que contradiga as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o coronavírus, de acordo com a CEO Susan Wojcicki.

Wojcicki anunciou a medida na CNN no domingo (26). A OMS é a agência da ONU encarregada da saúde pública mundial. A reportagem continua:

Wojcicki disse que a plataforma de vídeos de propriedade do Google “vai remover informações que considera problemáticas”.

Ela disse ao entrevistador Brian Stelter que isso inclui “tudo o que não tem base médica”.

“Se as pessoas disserem ‘Tome vitamina C, tome cúrcuma, isso vai curá-lo”, esses são exemplos de coisas que estarão violando nossas políticas”, disse ela.

“Qualquer coisa que vá contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde estará violando nossas diretrizes”.

Embora a decisão tenha sido vista com bons olhos por muita gente, há quem acuse a empresa de censura.

Sendo bem claro, para os Youtubers norte-americanos esse tipo de censura não viola o direito constitucional deles à liberdade de expressão. A Primeira Emenda protege o cidadão apenas da censura governamental, e o YouTube é uma plataforma privada. Se o governo norte-americano obrigasse os donos do YouTube a transmitirem certos vídeos contra a vontade deles, isso é que violaria a Primeira Emenda.

Embora a decisão do YouTube não seja inconstitucional, ela é estúpida, porque presta deferência à autoridade central em geral e sobretudo à OMS.

O histórico da OMS no assunto

A Organização Mundial da Saúde está longe de ser infalível. A forma como ela lidou com a emergência do coronavírus é uma sucessão de falhas. Como disse o analista Ross Marchand na FEE, a OMS foi incapaz de tomar medidas enquanto o coronavírus se espalhava rapidamente pela China durante aquele período crucial do problema em janeiro de 2020. Depois, como escreveu Marchand:

A burocracia mundial, sem nenhum senso crítico, relatou que as autoridades chinesas “não viam sinais de transmissão humana do coronavírus” no dia 14 de janeiro, apenas um dia depois de reconhecer o primeiro caso fora da China (na Tailândia). O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, elogiou o presidente chinês Xi Jinping por seu “comprometimento” e “liderança política” a despeito das repetidas e reprováveis tentativas de esconder o coronavírus do mundo.

O presidente Donald Trump anunciou recentemente que os Estados Unidos deixaram de financiar a OMS por causa dessas muitas falhas envolvendo o coronavíris.

E não são apenas os conservadores norte-americanos que têm expressado críticas. Como escreveu Jon Miltimore há um mês:

A Our World in Data, publicação online com base na Universidade de Oxford, anunciou que deixou de usar os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) para seus modelos matemáticos, citando erros e outros fatores.

Isso levanta uma questão interessante: o YouTube censuraria Oxford se eles publicassem um vídeo sobre o coronavírus com recomendações com base em dados que contradizem os da OMS?

Como escreveu Miltimore, “relatórios recentes sugerem que as agências de inteligência dos Estados Unidos confiaram demais nos dados da OMS para avaliar a ameaça da Covid-19”.

Isso é muito preocupante porque informações ruins levam a medidas ruins. Isso serve não apenas para medidas do governo (como prefeitos, governadores e chefes-de-Estado tomando a decisão de paralisar a economia em suas jurisdições), mas também para medidas tomadas por agentes da iniciativa privada, como médicos, empresários e indivíduos que tomam decisões quanto à sua saúde e a vida de seus familiares.

Na verdade, as informações erradas da OMS no começo da crise tiraram de boa parte do mundo tempo para que os países se preparassem, o que provavelmente prejudicou a reação pública e pode ter custado muitas vidas.

O YouTube corre o risco de aumentar a tragédia insistindo para que a reação dos espectadores ao coronavírus se adequem ainda mais aos pronunciamentos duvidosos da OMS. Wojcicki quer proteger as recomendações da OMS do contraditório. Mas as recomendações da OMS são dadas a partir de informações da própria OMS, informações que provaram ser bastante suspeitas. A proteção a recomendações infundadas aumenta o risco de amplificar a influência delas.

Por que a censura é contraprodutiva

Então é uma ironia que o YouTube justifique essa medida dizendo que está protegendo o público, mas usando informações equivocadas e perigosas.

Claro que muitos vídeos que contradizem as medidas oficiais são cheios de charlatanices médicas e outras mentiras. Mas a censura é a pior forma de combater isso.

Primeiro porque a censura pode, na verdade, dar credibilidade a uma mentira. As pessoas acreditam na censura como uma forma de validação, como um sinal de que elas encontraram uma verdade da qual os poderosos têm medo. E elas usam essa interpretação como argumento na sua pregação subterrânea.

A censura também impede que mentiras sejam refutadas, o que permite que elas circulem sem contestação nos cantos mais remotos do debate público.

Isso torna a censura contraprodutiva porque a exposição é uma das formas mais eficientes de refutar informações erradas e ideias ruins. Como disse o ministro da Suprema Corte Louis Brandeis, a solução ideal para uma ideia ruim é “mais ideias, não o silêncio obrigatório”.

Mais uma vez, o YouTube tem o direito de estabelecer os termos de uso de seu site. Mas o princípio geral também se aplica aqui: a verdade tem mais chance de prevalecer com a proliferação de vozes dissonantes do que com esforços inquisitoriais de conter o discurso dentro de uma nova e estreita ortodoxia.

Um problema sistêmico

Além disso, o histórico da OMS de informações erradas não é uma exceção entre organizações governamentais, assim como não são exceções a gravidade do erro e seu impacto desastroso. O governo e os especialistas não só erram como frequentemente se mostram equivocadamente teimosos em grandes questões.

Para usar outro exemplo no reino da saúde pública, sabe cada vez mais que as recomendações de uma dieta à base de muitos carboidratos e poucas gorduras, como descrita na “Pirâmide Alimentar” do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, e defendida há décadas pelo governo e pelas autoridades mais respeitadas em nutrição e epidemiologia, estão basicamente erradas. O jornalista especializado em ciência Gary Taubes conta a história de ciência ruim, corrupção e ortodoxia obtusa em seu livro Good Calories, Bad Calories [Boas calorias, más calorias].

Mais uma vez, informações ruins geram maus conselhos que geram más escolhas. Quantas doenças e até mortes foram causadas por gerações de norte-americanos consumindo, sem pensar criticamente, dietas “oficiais” e por norte-americanos com apenas uma opção no “cardápio” dessa dieta?

Quanto mais centralizamos as tomadas de decisão e a administração das informações, maior o dano causado por qualquer erro. Mas se permitimos que milhares de erros prosperem ao lado de milhares de verdades, todo erro pode ser apontado e é mais provável que ele seja corrigido por meio da experiência e da contra-argumentação.

Problemas de conhecimento

Os defensores de medidas como a do YouTube gostam de analisar a questão em termos simplistas: como uma disputa maniqueísta entre especialistas respeitáveis e loucos de olhos esbugalhados. Mas a questão é mais complexa do que isso.

Geralmente é uma questão de tecnocratas exagerados se pronunciando sobre assuntos que vão muito além do que eles são capazes de compreender, que envolvem fatores que estão fora de sua área de especialização e que impactam drasticamente a vida de milhões ou até bilhões de pessoas. Por exemplo, algumas dezenas de epidemiologistas com pouco conhecimento de economia ou outras disciplinas importantes mantêm controle sobre toda a economia.

Também é uma questão de especialistas dissidentes sendo silenciados juntamente com os loucos de verdade.

E talvez mais importante: é uma questão de despertar a capacidade do indivíduo de discernir entre a verdade e a mentira, o bom e o mau conselho, negando-lhe a responsabilidade e a prática. É uma questão de transformar homens independentes e livres em hordas irresponsáveis guiados pelo nariz como o gado respeitoso e tolo pastoreado por “especialistas”.

Não estamos nessa situação, mas é nessa direção que tendem as ortodoxias centralizadoras.

Um desafio

Vamos optar por uma direção diferente. YouTube, faça mais do que isso. Confie mais nos seus usuários. Trate-os como seres humanos com capacidade de aprender, crescer, discutir e cooperar, características que são a glória do ser humano.

Afinal, foi isso o que tornou o YouTube o que ele é. O próprio nome da empresa deriva da fé dela no indivíduo. O VocêTube (uma plataforma plural, motivada pelo indivíduo e aberta) tornou o PalermaTube (a televisão centralizada, institucionalidade e homogênea) em algo obsoleto. Como tal, o YouTube teve um papel fundamental na democratização da informação e do aprendizado na Internet.

Não traia esse legado. Não agora. Não quando mais precisamos de plataformas abertas para o fluxo livre de informações e opiniões.

*Dan Sanchez é diretor de conteúdo da Foundation for Economic Education (FEE) e editor do site FEE.org.

©2020 FEE. Publicado com permissão. Original em inglês
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