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Família de ursos polares no Ártico
Família de ursos polares no Ártico| Foto: BigStock

Com ursos polares retratados na capa de seu mais novo livro “Apocalypse Never: Why Environmental Alarmism Hurts Us All” (“Apocalipse Nunca: por que o alarmismo ambiental fere a todos nós”, em tradução livre), Michael Shellenberger nos alerta para o fato de que os ursos polares estão vivos e estão bem. Ele anuncia ao mundo que as coisas não estão tão ruins quanto nos dizem.

Do começo ao fim do livro, o autor fornece uma verdadeira ladainha (no bom sentido) de informações positivas sobre o meio-ambiente, uma mensagem que contrasta diametralmente com o que ele chama de uma profunda e ampla campanha de desinformação propagada por defensores ambientais. O tema central do livro é a forma como os ambientalistas exageram deliberadamente na divulgação de notícias sobre desastres climáticos iminentes ou mesmo sobre o colapso da biodiversidade. Embora existam ameaças, nós temos muitas razões para acreditar que a sociedade humana vai se adaptar às mudanças ambientais por meio da combinação entre tecnologia, gerenciamento e boa governança.

O livro fala de comunicação, mais especificamente a comunicação política feita ao púbico sobre o meio-ambiente. Shellenberger usa muitas de suas páginas descrevendo como a imprensa exagera quando traz notícias sobre as ameaças ambientais. As projeções de computador e seus piores cenários possíveis são sempre tratados como inevitáveis. O leitor é levado em uma viagem até os anos 1960, onde encontrará os personagens principais que moldaram as estratégias de comunicação dos ambientalistas. Desde lá atrás, percebeu Shellenberger, os ativistas escolhiam as mensagens não pela sua veracidade, mas pela capacidade de chocar. Quanto mais devastadora a visão de futuro, mais efetiva era a mensagem. Promovendo essa desinformação, eles encontraram uma forma eficaz de conseguir apoio.

O fato de que os reatores nucleares tinham pouco a ver com as bombas atômicas nunca foi um fator para deixar de assustar o público, dizendo que ambos eram parecidos. Usar um único caso de perda de habitat e extrapolar esse caso até o limite da extinção planetária de espécies era justificado porque assim se chamava a atenção para ameaças à biodiversidade. Quando o assunto chega aos perigos da mudança climática, propagar o medo se tornou a principal estratégia de comunicação. Shellenberger denuncia essa cultura do desespero criada pelo medo e fala sobre os danos reais que isso causa quando uma geração inteira de adolescentes é assombrada por um futuro nefasto. E essa assombração é feita de forma deliberada. Nas palavras de Greta Thunberg, a adolescente queridinha dos alarmistas climáticos, “eu quero que vocês entrem em pânico.”

Escrito de forma inteligente e, mais ainda, convincente, o livro visa um público mais educado, não as multidões que ficam o dia todo em frente à TV. Shellenberger se afasta do elitismo e da falsidade tidas por ele como típicas entre a comunidade de defensores ambientais. Ele atinge diretamente o New York Times e o New Yorker, revelando suas fortes simpatias populistas, embora nunca as expresse explicitamente. Citações a fontes científicas de boa reputação, como o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) – embora ele também critique o IPCC por ser muito político – estão lá junto a mais de 100 páginas de notas-pés sustentando os argumentos de Shellenberger. A ambição do livro é grande: tentar abordar a ciência por trás das questões ambientais e das estratégias de comunicação utilizadas para disseminá-las. Shellenberger traz ponderações sobre grandes questões científicas, filosóficas e até psicológicas, o que talvez traga mais a sensação de prudência do que certezas.

O livro é recheado de histórias de interesse pessoal, contadas quase como se fossem uma conversa. Nós acabamos conhecendo uma fazendeira na África que reclama dos gorilas selvagens que comem da sua plantação de batata-doce sem que ela tenha nenhum tipo de reparação; uma jovem da Indonésia que se muda do campo para a cidade; e uma integrante de uma ONG que detalha quais tecnologias devem e quais não devem estar disponíveis para as pessoas.

“Apocalypse Never” é autobiográfico, e marca a conversão do autor de um jovem ativista que abraça o viés dominante de um ambientalismo avesso às tecnologias para um analista maduro que enxerga como as formas modernas de energia e agricultura podem melhorar o meio-ambiente e a vida de bilhões de pessoas. Por outro lado, Shellenberger se tornou mais consciente do grande dano causado quando se impede os mais pobres de terem acesso a certos mimos da modernidade.

As ameaças reais aos mais pobres, argumenta Shellenberger, são a ausência de desenvolvimento econômico, uma pobre governança local, uma agricultura primitiva e a manutenção do uso da madeira como combustível. Apesar disso, a mensagem que chega ao público é que a mudança climática é o principal problema que os mais pobres vão enfrentar. As mudanças climáticas são culpadas por toda tempestade, todo incêndio florestal, toda seca. Não há nenhuma menção a medidas proativas como o desenvolvimento de sistemas de gerenciamento da água para irrigação e proteção contra enchentes, sistemas de esgoto que previnem a disseminação de doenças, variedades de sementes resistentes à falta d’água e a um sistema de geração e distribuição de energia elétrica que melhore o dia a dia das comunidades rurais. Todos os países ricos no mundo usam essas tecnologias para avançar, e ainda assim essas tecnologias não chegam aos mais pobres. Isto porque tais soluções interferem na manutenção dessa imagem de que sempre há desastres iminentes, e de que as mudanças climáticas precisam sempre ser acompanhadas de um clima geral de pânico.

Shellenberger aponta questões tanto sobre a preservação ambiental no hemisfério sul quanto sobre as políticas ambientais dos países industrializados do hemisfério norte. Ele percebe, curiosamente, que os defensores ambientais tornam mais difícil a implementação de soluções pragmáticas. Nos países mais pobres, o uso de novas tecnologias de energia que deveriam tornar as populações indígenas mais resilientes aos efeitos das mudanças climáticas é desestimulado, assim como algumas práticas inovadoras na agricultura são consideradas insustentáveis. Nos países ricos, soluções de energia com zero emissão de carbono como a energia nuclear são totalmente desconsideradas porque elas acabam com a ideia de escassez – um suposto fardo da civilização.

De acordo com Shellenberger, um motivo ainda mais sinistro leva à oposição ao uso de tecnologias que beneficiariam o meio-ambiente e as comunidades mais pobres: a pura e simples ganância. Ele documenta de forma bem extensa os generosos benefícios ofertados às organizações ambientais mais radicais, como a 350.org, pelas companhias de gás e combustíveis que essas mesmas organizações juram querer destruir. Executivos de empresas de petróleo estão sentados lado a lado com empreendedores do ramo de energias renováveis nas mesas de diretores das maiores ONGs de defesa ambiental, graças a uma confluência de interesses. Por exemplo, os sistemas de energia renovável precisam inevitavelmente de geradores reserva para os dias em que o sol não brilha ou que o vento não está tão forte. As companhias que fornecem esses geradores de reserva acabam favorecendo as renováveis. Ambas estas indústrias têm na energia nuclear um concorrente em comum, e parecem bem felizes em promover uma agenda ambiental de oposição à energia nuclear para assim garantir uma demanda quase eterna por seus produtos e serviços. Os interesses, quando alinhados, garantem que as duas continuem crescendo juntas.

E por que os sistemas de energia renovável continuam tão atrativos a despeito de todas as deficiências? Shellenberger argumenta que toda essa popularidade é derivada de uma noção romântica que temos de que tudo que é natural é superior àquilo que foi feito por mãos humanas. Por ser “natural” a energia derivada do sol e do vento representa esse ideal, mesmo que toneladas de materiais e equipamentos industriais acabem cobrindo paisagens inteiras, e que estes mesmos materiais sigam expostos na natureza ameaçando diretamente a vida selvagem, de mamíferos do deserto a espécies raras de pássaros. Para Shellenberger a sociedade precisa encontrar um meio de enxergar além do marketing e perceber que os produtos artificiais são frequentemente melhores do que os naturais. A melhor estratégia para salvar a natureza é usar a genialidade humana para desenvolver alternativas que nos permitam deixar que a natureza floresça sozinha, por conta própria. Nós não deveríamos usar a natureza para preservar a natureza.

Historicamente, foram os produtos “artificiais” como o carvão mineral que salvaram o que restava das florestas da Inglaterra no final do Século XVIII. Foram os derivados do petróleo que substituíram as baleias como fonte de combustíveis no Século XIX. Da mesma forma, no Século XX, o plástico substituiu os cascos de tartaruga e as barbatanas de baleia que vinham sendo usadas em produtos que precisavam ser ao mesmo resistentes e maleáveis. Hoje nós focamos em como a poluição por plástico ameaça a vida nos oceanos, e ignoramos como a produção de plástico fez com que caísse substancialmente a demanda por criaturas marinhas de tanto valor. Assim como em outras questões ambientais, o problema com o lixo plástico nos oceanos seria mais facilmente resolvido com ações humanas, neste caso com um melhor gerenciamento de resíduos sólidos nos países do sudeste asiático.

Shellenberger também defende uma produção mais extensiva de energia e alimentos, para desta forma liberar mais terras para a natureza. Fazendas modernas que conseguem uma maior produção de alimentos ocupando menos espaços acabam beneficiando a natureza como um todo quando deixam de usar toda a terra para o plantio. De forma similar, o cultivo de peixes e frutos do mar em cativeiros espalhados pela costa é melhor do que vasculhar os oceanos atrás de peixes selvagens. Substituir o gado que vive em pastos abertos pela pecuária mais domesticada protege a vida selvagem. Usar combustíveis modernos no lugar da madeira no aquecimento e no preparo das refeições ajuda a preservar as florestas.

Shellenberger é um apaixonado pela energia nuclear e pelo seu potencial como redutor nas emissões de dióxido de carbono. Um de seus argumentos mais fortes é a forma como a energia nuclear cria pouco impacto na paisagem, em contraste aos sistemas de energia renovável que precisam necessariamente coletar energia de fontes difusas por áreas extensas. Além disso, ele também mostra que salvar a natureza requer o apoio à agricultura moderna, ao gerenciamento de florestas e à energia nuclear para reduzir o impacto da humanidade na Terra.

Deixando de lado a nostalgia associada aos países mais ricos, idealizados como o Jardim do Éden por alguns no passado, as pessoas mais pobres sabem que a vida fica melhor com acesso a modernidades como água encanada e energia gerada sem fumaça nem cinzas. Para aqueles que vivem em áreas rurais, especialmente as mulheres de lugares como a Índia e a Indonésia, ter uma máquina de lavar roupas e acesso à energia para usá-la sem restrições pode fazer toda a diferença. Usar energias renováveis para acender umas poucas luzes dentro das casas de uma comunidade rural não é sinônimo de atender às necessidades daquela comunidade. Assim como os norte-americanos e os europeus, os mais pobres espalhados por todo o mundo também querem acesso à água potável corrente nas torneiras, geladeiras e aparelhos de ar condicionado. As ONGs defendem o uso de sistemas de baixa energia para os pobres, e assim manter aquela ideia de sustentabilidade. Mas os pobres querem energia de verdade, não essa “energia fake.”

De forma idêntica, proteger os habitats de vida selvagem é um objetivo válido. Mas todos aqueles que querem preservar esta visão primitiva da natureza – uma visão geralmente cultivada em Oslo, Boston ou Tóquio – não deveriam ignorar aqueles pobres que têm suas plantações na África destruídas por espécies protegidas. Assim como em outros pontos do livro, Shellenberger repreende os ativistas por sua condescendência e falta de empatia. De novo e de novo, ele enfatiza que devemos reconhecer a necessidade de um desenvolvimento econômico entre os povos nativos para que eles também possam atingir um padrão de vida que os povos do hemisfério norte têm como natural.

Todo país rico no mundo aumentou seus padrões de vida por meio da industrialização. Nas últimas décadas do Século XX esses países reduziram a poluição quando mudaram o foco da produção industrial pesada para a prestação de serviços, mas isso só aconteceu porque eles modernizaram a agricultura e criaram uma manufatura bastante agressiva. A mudança da agricultura para a manufatura estimulou uma onda massiva de agricultores em direção às cidades. Hoje a África sub-Saariana é muito pobre para ser desindustrializada. Precisa antes passar por uma modernização na agricultura e na infraestrutura civil.

Enquanto os economistas são levados pela noção de que os países em desenvolvimento podem essencialmente evitar as tecnologias de uso intensivo de carbono enquanto se desenvolvem, um conceito conhecido como “salto de energia”, as pessoas no mundo real precisam de geladeiras e vasos sanitários para só assim poder construir uma economia com aplicações digitais ou se tornarem engenheiros de software. A visão imparcial de sustentabilidade de que o hemisfério sul vive de acordo com os planos bem elaborados pelos ricos e está feliz com este destino tem sido criticada como um “colonialismo conservacionista”, e representa uma atitude ridicularizada constantemente por Shellenberger em todo o livro.

A postura de Shellenberger a respeito das mudanças climáticas é sintetizada em uma frase do cientista do MIT Kerry Emanuel: “Tirar as pessoas da pobreza e manter a temperatura a mais baixa possível.” Indo além, ele também cita Francis Bacon, que em sua visão de ciência moderna demonstra que a caridade corrige “o tempero da ciência”. Em outras palavras, como um ardente ambientalista, ex-vegetariano e cidadão de Berkeley, Shellenberger escolheu a compaixão e a esperança em vez da indignação e desespero.

Em todo seu arco, o livro expõe um sentimento crescente de ressentimento de acordo com as correntes políticas de nosso tempo. Ele se identifica com a frustração e a hostilidade sentida pelos assalariados londrinos impedidos de trabalhar pelos alarmistas climáticos que fecharam estações de metrô em Londres. Ele ataca a cultura de celebridade que envolve os defensores ambientais e sua hipocrisia, vaidade e ganância. Primeira e segunda geração de especialistas em meio-ambiente são ambas culpadas por iludir o público sob o disfarce de publicações científicas. Por soar o alarme da superpopulação nos anos 1960, por prever a fome desenfreada nos anos 1980, por confundir armas nucleares com energia nuclear, por aterrorizar os mais jovens com uma previsão de mudanças climáticas calamitosas, estes especialistas em meio-ambiente manipularam o público para impor sua própria visão aos outros. Eles não apenas mostraram pouca consideração com os custos humanos destas campanhas, mas também abraçam consistentemente uma visão misantrópica de castas humanas – particularmente as massas sujas do hemisfério sul – como o problema principal do planeta.

Embora nunca diga isso, Shellenberger se baseia em muitos dos mesmos ressentimentos que levaram Donald Trump à Casa Branca. Ele vê os progressistas como manipuladores, e mostra simpatia por muitas das causas apoiadas pela direita, até mesmo citando o recentemente falecido Roger Scruton nas políticas de ressentimento. Ele compartilha visões populistas que chegam até sua nostalgia por ícones da América do Século XX, como o slogan da Feira Mundial de Chicago de 1933-34, “Século do Progresso”, e a iniciativa “Átomos pela Paz”, da administração Eisenhower nos anos 1950. Este ambientalista vindo do meio oeste americano mostra afinidade até com pontos de vista religiosos.

Shellenberger não é republicano, mas a lista de pessoas e organizações que ele celebra e as que ele critica se sobrepõe substancialmente aos heróis e vilões da direita libertária. Como Michael Moore em seu recente filme Planeta dos Humanos, Shellenberger descortina o lado escuro do mundo da “tecnologia verde”, mostrando que não é tão verde assim.

Ao mostrar seu desdém por muitos notáveis, instituições e celebridades progressistas, ele bravamente abre as portas a um novo público, que inclui tanto os millenials quanto os integrantes da Geração-X, que cresceu com os produtos do Vale do Silício. Ele oferece um vislumbre do que pode vir a ser um movimento formidável para o ambientalismo centrista nos Estados Unidos nos anos 2020. O livro oferece um roteiro que apela às sensibilidades políticas dos americanos que querem um meio-ambiente limpo, mas não querem comprar as ideias do atual movimento ambiental progressista.

©2020 National Review. Publicado com permissão. Original em inglês
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