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O Brasil comemora os 204 anos da sua independência. As bandas passam e o nome de José Bonifácio de Andrada e Silva aparecerá nas placas e nos discursos oficiais como "Patriarca da Independência".
O epíteto, que ele próprio construiu por meio do jornal O Tamoyo em 1823, é o que sobrou dele na memória escolar brasileira, e sobrou pouco. Antes de ser ministro do jovem Dom Pedro, Bonifácio já era, na Europa, um dos mineralogistas mais respeitados do seu tempo. Depois de fazer o Brasil, tentaria abolir a escravidão e criminalizar o desmatamento, e sairia derrotado das duas frentes.
O mineralogista de Freiberg
Nascido em Santos em 1763, Bonifácio embarcou para Coimbra aos vinte anos. Formou-se em Filosofia Natural em 1787 e em Direito no ano seguinte, na universidade recém-reformada por Pombal. Em 1789 entrou para a Academia Real de Ciências de Lisboa, e no ano seguinte partiu, com bolsa da rainha, para uma jornada de dez anos pelos grandes centros científicos da Europa.
Em Paris, entre 1790 e 1791, foi discípulo de René Just Haüy, fundador da cristalografia, e ingressou na Sociedade de História Natural. No ano seguinte mudou-se para Freiberg, na Saxônia, para estudar Mineralogia Prática e Geognosia sob Abraham Werner, considerado o pai da geologia moderna. Ao longo dessas viagens, descobriu e descreveu quatro novos minerais: escapolita, criolita, espodumênio e petalita. Foi a partir da petalita que químicos suecos isolariam, anos depois, um elemento novo, o lítio.
O reconhecimento internacional persistiu para além da sua morte. Em 1868, o mineralogista americano James Dwight Dana batizou uma granada de ferro e cálcio em sua homenagem, e a chamou de andradita. É o nome pelo qual Bonifácio ainda hoje figura, nos catálogos mineralógicos do mundo inteiro, ao lado de Haüy e Werner.
Retornado a Portugal em 1801, foi nomeado Intendente-Geral das Minas e Metais do Reino, ocupou a primeira cadeira de metalurgia da Universidade de Coimbra e comandou a polícia do Porto depois da expulsão das tropas napoleônicas. Viveu no total 36 anos na Europa. Falava seis línguas e lia em onze.
O ministro que fez a Independência
Bonifácio voltou ao Brasil em 1819, com quase sessenta anos. Instalou-se em Santos, embrenhou-se nas matas de São Paulo com o irmão Martim Francisco para estudos naturalistas e, em pouco tempo, tornou-se presidente da Junta Governativa da província paulista.
Foi de São Paulo que, em janeiro de 1822, saíram as cartas decisivas ao príncipe regente. As Cortes portuguesas exigiam o retorno de Dom Pedro a Lisboa. Bonifácio escreveu-lhe: "Vossa Alteza Real deve ficar no Brasil, quaisquer que sejam os projetos das Cortes Constituintes, não só para nosso bem geral, mas até para a independência e prosperidade futura do mesmo Portugal." No dia 9 daquele mês, o príncipe pronunciou o "Fico". Dez dias depois, Bonifácio foi nomeado Ministro do Reino e Negócios Estrangeiros, e passou a articular a máquina da separação.
Nos meses seguintes, organizou a criação de uma marinha para o caso de reação portuguesa, coordenou a resistência militar aos focos legalistas na Bahia e conduziu politicamente o processo que desembocou às margens do Ipiranga em 7 de setembro. O grito foi do príncipe; toda a preparação política e institucional era obra do ministro.
Contra o machado e contra a escravidão
O programa de Bonifácio para a nova nação era mais radical do que a Independência sugeriu. Em 1823, ele apresentou à Assembleia Constituinte uma Representação sobre a Escravatura, com um projeto de trinta e dois artigos para o fim gradual do tráfico e a emancipação progressiva dos cativos. Escreveu que os negros eram "homens como os brancos, pois possuem sentimentos" e apontou que o Brasil era o último país de descendência europeia a manter o tráfico negreiro, citando o exemplo do parlamentar inglês William Wilberforce. "O mal está feito, senhores, mas não o aumentemos cada vez mais; ainda é tempo de emendar a mão", dizia o texto. Nenhum artigo chegou a ser votado. A Assembleia foi dissolvida por Dom Pedro I em novembro do mesmo ano.
A mesma formação naturalista que estudara minerais em Freiberg via, no desmatamento brasileiro, uma catástrofe já em curso. Em 1821, um ano antes da Independência, escreveu que "destruir matas virgens, como até agora se tem praticado no Brasil, é crime horrendo e grande insulto feito à mesma natureza" e perguntou "que defesa produziremos no tribunal da Razão, quando os nossos netos nos acusarem de fatos tão culposos?". Sete anos depois, insistiu: "Nossas preciosas matas desaparecem, vítimas do fogo e do machado, da ignorância e do egoísmo. Sem vegetação, nosso belo Brasil ficará reduzido aos desertos áridos da Líbia."
Bonifácio propôs medidas concretas. Que se revertessem à Coroa as terras não cultivadas, e que se criasse uma Direção Geral de Economia Política com atribuições sobre florestas e minas, o embrião do que só viria a ser um Ministério do Meio Ambiente em 1989. O historiador ambiental José Augusto Pádua, da UFRJ, autor do estudo Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista, o chama de "o primeiro político a integrar a ecologia em um projeto nacional". Foi também, segundo Pádua, o primeiro brasileiro a estabelecer uma relação causal entre escravidão e destruição da terra: o sistema escravista, dizia Bonifácio, tornava impossível o manejo cuidadoso do solo, porque não havia interesse do senhor em preservar o que era trabalhado por mãos alheias.
Nenhuma das propostas passou. Em julho de 1823, Bonifácio já era o principal opositor de Dom Pedro I na Constituinte. Em novembro, foi deportado.
O exílio e Paquetá
Passou seis anos na França, em Bordéus, com uma pensão do governo brasileiro e a companhia dos irmãos. Escreveu poesia. Acompanhou de longe o desgaste do imperador que ajudara a coroar. Em 1829 foi autorizado a voltar, trouxe no navio o corpo da mulher, Narcisa, morta na travessia, e se recolheu à ilha de Paquetá, na Baía de Guanabara.
Em abril de 1831, Dom Pedro I abdicou e embarcou para Portugal. Antes de partir, escreveu ao antigo conselheiro chamando-o de "verdadeiro amigo" e o indicou como tutor do herdeiro, um menino de cinco anos. Bonifácio aceitou. Foi ele o primeiro tutor do futuro Dom Pedro II, o menino que se tornaria o imperador que traduziria a Odisseia diretamente do grego.
A tutoria durou dois anos. Em dezembro de 1833, a Regência o destituiu por decreto, sob acusação de conspirar pelo retorno de Dom Pedro I. Bonifácio se recusou a reconhecer a validade dos documentos e só se rendeu quando tropas cercaram o paço. Voltou para Paquetá, em prisão domiciliar. Foi julgado por conspiração em fevereiro de 1835 e absolvido, à revelia, por unanimidade.
Passou os últimos três anos de vida em reclusão na ilha. Mudou-se para Niterói pouco antes de morrer, em 6 de abril de 1838, de tuberculose, com quase 75 anos, empobrecido. O testamento arrolou "pouco mais ou menos seis mil livros, além dos manuscritos e a considerável coleção mineralógica", que os herdeiros entregariam à Biblioteca Nacional no mesmo ano.
A imagem pública de Bonifácio só voltaria a ser trabalhada no centenário da Independência, em 1922, quando a historiografia oficial o cristalizou como Patriarca. Na segunda-feira, o país completa 204 anos daquele Sete de Setembro. O nome do ministro voltará às cerimônias. O mineralogista de Freiberg, e o homem que em 1821 já chamava o desmatamento de crime, continuarão de fora.




