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Em 1941, o filósofo e escritor austríaco Stefan Zweig, então residente no Brasil, escreveu um livro intitulado Brasil, País do Futuro, dando origem a uma expressão que se tornou popular nos meios políticos, empresariais e intelectuais, para dizer que este país tinha as condições necessárias para o desenvolvimento econômico, cultural e social. O autor, de origem judaica, veio para o Brasil e aqui se estabeleceu para fugir da Europa e da perseguição aos judeus. Considerado um intelectual e escritor de alto nível que acompanhava os acontecimentos da Segunda Guerra Mundial, sua convivência em solo brasileiro o levou a se entusiasmar com características locais que, segundo ele, levariam o Brasil a um futuro de prosperidade material e bem-estar social.
Com o passar dos anos, a pobreza, o nível educacional sofrível, a exagerada violência urbana, o alto índice de corrupção nas estruturas de poder, o mau funcionamento do sistema judicial, o corpo de leis ruins e a baixa qualidade das instituições passaram a decepcionar os que acreditavam no “país do futuro”, fazendo parecer que o Brasil estava destinado a não ter solução e seguir vivendo na pobreza e na instabilidade. Quatro décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, começava o governo de José Sarney, o primeiro presidente civil após 21 anos de regime militar. Sarney assumiu a Presidência da República em 21 de abril de 1985, em função da morte de Tancredo Neves, de quem era vice-presidente.
Instabilidade política, crise de governabilidade, inflação disparando, planos econômicos frustrados – assim seguiu o país até que, em outubro de 1988, foi aprovada uma nova Constituição e em 1989, após 28 anos sem eleições presidenciais diretas, foi eleito um presidente civil, Fernando Collor de Mello, sob a esperança de que chegara o tempo da redemocratização e da prosperidade econômica. A tese do “país do futuro” ganhava novo fôlego.
O Brasil se tornou o país das eternas promessas, incapaz de usar suas imensas riquezas naturais para sair do atraso e se transformar em nação desenvolvida
Mas, ao contrário, o que se viu foi o estouro da inflação, o aumento da corrupção, a instabilidade política e a ingovernabilidade do presidente, culminando com sua deposição em 1992, após tumultuado processo de impeachment. Assim, o então jovem Fernando Collor foi destituído de seu cargo, ato que revelou a extrema fragilidade institucional e a prova de que os velhos maus hábitos da política continuavam intactos; o “país do futuro” retrocedia mais uma vez.
O Brasil seguiu seu destino de país subdesenvolvido, até que em 1994 a esperança voltou, em função da implantação do Plano Real e do êxito no combate à hiperinflação que havia resistido a quatro planos econômicos aplicados nos anos anteriores. Ali, o processo de redemocratização começava a se consolidar e a esperança renascia na sequência de um período de recuperação, principalmente porque o governo liderado por Fernando Henrique Cardoso conseguira êxito em manter a inflação sob controle e fez importantes reformas, como o programa de recuperação bancária e a privatização de mais de 100 empresas estatais, incluindo 16 bancos públicos estaduais e federais e suas instituições financeiras coligadas. Com isso, Fernando Henrique entregou o governo a Lula, que assumiu o governo em 2003, com o país preparado para crescer.
Lula iniciou seu governo tentando fugir da imagem de sindicalista esquerdista radical e conseguiu relativa tranquilidade na economia devido, principalmente, à atuação de seu ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que manteve as bases da política econômica sustentada pelo tripé formado por superávit fiscal primário, metas de inflação e câmbio flutuante. Isso transmitiu certa tranquilidade ao mercado e, nos oito anos do governo Lula, o Brasil foi premiado com a boa situação internacional e elevação dos preços das commodities brasileiras exportadas, resultando em significativa melhora nas contas externas do país.
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A conjunção desses fatores levou o Brasil a obter melhorias internas na economia e no desenvolvimento social, além de conseguir melhorar sua imagem internacional, a ponto de ser louvado como um dos promissores países dos Brics, ao lado de Rússia, Índia e China. Batizado como “emergente”, o país passou a atrair investidores internacionais e a receber demonstrações de confiança do mundo em suas regras e suas instituições. Parecia ter chegado a hora de um crescimento contínuo e sustentável capaz de alçar o país ao clube dos desenvolvidos.
Todavia, em apenas três anos do governo Dilma Rousseff, iniciado em 2011, o que parecia ser um destino glorioso começou a apresentar sérios furos, sobretudo na estrutura econômica, culminando com as manifestações de 2013. O mundo começou a perguntar o que, afinal, estava acontecendo com o país e a desconfiar que o Brasil voltava a seu destino de subdesenvolvimento. Analistas estrangeiros voltaram a dizer que o Brasil era o país das eternas promessas, incapaz de usar suas imensas riquezas naturais para sair do atraso e se transformar em nação desenvolvida.
Nos anos 1970 e anos 1980, apesar de sofrer os prejuízos ao crescimento provocados pela crise do petróleo, inflação e aumento da dívida externa, o Brasil apresentava alguns fatores estruturais que, quando viesse a recuperação, dariam força ao crescimento econômico e elevação da renda por habitante, condições essas necessárias à manutenção do sonho de chegar ao grupo dos países desenvolvidos. O Brasil chegou a ter uma forte indústria de equipamentos de defesa e fábricas de bens de capital (elevadores, máquinas e equipamentos); porém, a decadência da indústria nacional foi rápida e assustadora: a indústria de transformação terminou os anos 1990 tendo caído de 27% para pífios 14% do Produto Interno Bruto (PIB) em apenas 15 anos.
O atraso não é destino; é obra de longas décadas de maus governos, inchaço da máquina pública, gastos excessivos, corrupção, e leis ruins e instáveis
A queda da indústria como fatia do PIB poderia ser normal se tivesse ocorrido por expansão do setor terciário, principalmente nos subsetores de serviços intensivos de tecnologia moderna. Entretanto, não foi isso que ocorreu, e o Brasil percorreu trajetória contrária, ou seja, deixou a indústria morrer antes de ter onde colocar seus trabalhadores. Dados da época indicavam que, nos dez anos entre 2011 e 2020, o setor industrial perdeu 9,6 mil empresas e 1 milhão de postos de trabalho, numa desindustrialização precoce. Os trabalhadores dispensados pelo setor industrial não ocuparam vagas de trabalho em setores de serviços sofisticados e intensivos de tecnologia moderna, mas buscaram ocupação em serviços que não oferecem ganhos de escala.
O atraso não é destino; é obra de longas décadas de maus governos, inchaço da máquina pública, gastos excessivos com as classes privilegiadas do funcionalismo público, corrupção crônica no governo, incapacidade de fazer reformas, leis ruins e instáveis, lento crescimento da produtividade econômica e um sistema político caro e disfuncional. Mas ainda é possível derrotá-lo, desde que presidenciáveis, demais políticos, o setor produtivo e a sociedade civil organizada se unam em torno de um projeto de desenvolvimento que aposte em trabalho duro e contínuo, de décadas, sem as fórmulas milagrosas que se tornaram parte do cenário político nacional. Só assim será possível desmontar a arapuca antidesenvolvimento que se tornou marca do Brasil.



