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Funk, fé e IA

O ranking dos jingles presidenciais de 2026

Quatro candidatos, quatro músicas e uma só pergunta: qual delas mais emociona e gruda na cabeça?
Quatro candidatos, quatro músicas e uma só pergunta: qual delas mais emociona e gruda na cabeça? (Foto: Imagem gerada pelo Gemini)

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Na primeira eleição presidencial da era da inteligência artificial, fazer um jingle ficou barato demais. As músicas são geradas, testadas e ajustadas em horas. E novas versões dos mesmos temas podem ser lançadas a qualquer momento.

Mas a tecnologia resolveu alguns problemas, não todos. Porque os algoritmos (ainda) não descobriram a fórmula infalível para criar jingles que emocionem e grudem na cabeça ao mesmo tempo. Aliás, já tem candidato fazendo questão de dizer que não usou IA (a campanha de Ronaldo Caiado, por exemplo, adotou essa postura “artesanal” quase como um selo de pureza).

A seguir você acompanha um ranking elaborado pela equipe da editoria de Ideias a partir de um recorte simples: até a conclusão deste texto, apenas quatro candidatos à Presidência haviam divulgado temas oficiais — Lula, Flávio Bolsonaro, Renan Santos e Ronaldo Caiado. São eles, portanto, os únicos que entraram na disputa.

E um aviso antes de começar: ninguém está sendo avaliado por seu plano de governo, currículo ou polo ideológico. A única coisa em jogo é a música.

4. Flávio Bolsonaro — “Vem com Fé”

A faixa abre em clima de louvor de culto evangélico e desemboca no sertanejo universitário. O vocabulário inclui esperança, coragem e sonho — porém sem prometer nada muito concreto.

É uma música pensada para passar uma sensação e, principalmente, reverter a desconfiança de parte dos eleitores com relação ao sobrenome Bolsonaro (palavras da própria equipe). Mas é aí que mora o problema. Ao apostar num clima de “Flavinho paz e amor”, os autores acabaram entregando um tema meio neutro, que qualquer candidato, de qualquer espectro político, poderia usar sem trocar uma vírgula.

No fim das contas, o que falta mesmo à música de Flávio é um ingrediente básico: aquela cola que faz o refrão ficar preso na cabeça do eleitor contra a própria vontade. Talvez um bom jingle precise incomodar um pouco pra ser lembrado.

3. Ronaldo Caiado — “Esse Cara é Caiado”

Um jingle no estilo clássico, porém com cara de relatório de reunião de marketing. Precisa atingir o país inteiro? Deixa meio pop. Precisa parecer jovem? Põe um tiquinho de rap no meio. Precisa marcar o nome candidato? Coloca uma referência manjada de um hit do Roberto Carlos (“Esse Cara Sou Eu”).

    Mas quem tenta ser um pouco de tudo corre o risco de não ser coisa nenhuma. Além disso, tudo aqui soa muito certinho, pasteurizado — como o leite que sai das fazendas do ex-governador de Goiás. E olha que a música até tenta parecer durona em alguns momentos.

    “Caiado briga para acabar com a bandidagem / Caiado briga para fazer mais hospitais / Caiado briga pra educação crescer”, diz a letra. Tudo em vão. Aquele Caiado rústico, que conhecemos nos anos 80 e queremos ver nos debates, não entrou no estúdio. Foi trocado por um sósia de terno alinhado e sorrisão calculado.

    2. Lula — “Rap do Silva”

    Não dá para negar que o jingle de Lula tem começo, meio e fim. Em poucos minutos, o ouvinte recebe uma biografia resumida do petista (com direito a sertão, São Paulo, sindicato, multidão, perseguição, blá-blá-blá).

      Em vez de simplesmente dizer que o presidente é bom, a letra tenta fazer o ouvinte lembrar como Luíz Inácio chegou a ser quem é. Uma solução eficiente? Sim. Mas sem nenhum gosto de novidade.

      Versão morna de um clássico do funk carioca dos anos 90, o tema é praticamente uma síntese sonora de uma campanha que aposta no passado e na continuidade. Resumindo: um jingle requentado para um candidato, no mínimo, “retrô”.

      1. Renan Santos — “A Vingança do Povo”

      É a música mais ambiciosa da temporada eleitoral — e a única que parece pensada para ser mais do que um jingle avulso. Não à toa, o tema foi composto e interpretado pelo próprio Renan, que nas horas vagas é vocalista e guitarrista de uma banda de rock alternativo (mas aqui ele apresenta o que define como “rocknejo”).

      A letra constrói uma narrativa quase cinematográfica: um menino sozinho, uma estrela vermelha, sangue, um despertar religioso e a promessa de um “futuro glorioso”. No entanto, o que fisga mesmo é a estrutura da canção. Grandiloquente, épica, sem medo de exagerar e que cresce até um refrão feito para uma multidão cantar junta (“Eu vou votar no Renan / Eu, amanhã, eu vou voltar no 14”).

      Mas convenhamos: “vingança” não é exatamente uma palavra que combina com a “festa da democracia”. Sem contar que o tom de marcha de combate da letra é um pretexto pronto para a turma da esquerda sacar seu adjetivo favorito para descrever qualquer coisa à direita do centro: “fascista”.

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