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Administração pública

“Se precisar de ajustes, estou à disposição”: os rastros da IA em documentos oficiais

Comandos e respostas esquecidos em documentos públicos mostram como o uso descuidado de IA já virou um problema institucional no Brasil
Comandos e respostas esquecidos em documentos públicos mostram como o uso descuidado de IA já virou um problema institucional no Brasil (Foto: Imagem criada com ChatGPT/Gazeta do Povo)

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Não é o uso da inteligência artificial que preocupa — é o descuido. Quando comandos e respostas de sistemas de IA aparecem esquecidos dentro de documentos oficiais, o problema deixa de ser tecnológico e se torna institucional: revela falhas de revisão, de zelo e, sobretudo, de responsabilidade sobre aquilo que se assina em nome do Estado.

Numa busca simples pela internet, encontramos uma série desses “deslizes” em documentos e sites da administração pública brasileira. Os exemplos a seguir não são uma condenação ao uso de IA — ferramentas úteis e cada vez mais inevitáveis num serviço público famoso pela lentidão burocrática. São, isso sim, amostras de casos em que faltou um olhar humano atento.

“Melhore este parágrafo”

Recentemente, chamou a atenção o caso do desembargador Magid Nauef Láuar, que votou pela absolvição de um homem de 35 anos acusado de estuprar uma menina de 12. A decisão foi posteriormente revogada pela Justiça e o desembargador, afastado das atividades pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

No acórdão (resumo do julgamento) publicado, o desembargador esqueceu um prompt — comando dado para a inteligência artificial — no meio do documento. Na página 45, aparece o seguinte trecho: “Agora melhore a exposição e fundamentação deste parágrafo”.

Isso, claro, pegou mal. Entre os que se manifestaram sobre o assunto está o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que disse em suas redes sociais: “É inacreditável como as pessoas lidam com tão pouco zelo com uma decisão que vai incidir sobre a vida de uma criança de 12 anos”.

O redator invisível

Em Itapemirim, no Espírito Santo, um ofício do presidente da Câmara dos Vereadores, Tiago Faria Leal, ao prefeito Genesis Alves Bechara é que veio com um “deslize”.

O legislador encaminhou ao chefe do Executivo o autógrafo de uma lei (isto é, o documento oficial que contém o texto final de um projeto de lei após este ter sido aprovado pelo Legislativo). Mas, ao final do breve texto, pode-se ler: “Se precisar de ajustes adicionais, estou à disposição!”.

É uma frase típica de agentes de IA em conversas e que acabou não sendo retirada do documento final.

A servidora sem crachá

Outro vacilo pode ser encontrado no relatório oficial de participação de servidoras da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo no 9º Congresso Brasileiro de Licitações e Contratos.

No trecho em que o documento trata da Lei nº 14.133/2021, de Santo André (SP), as autoras acabaram deixando escapar: “Se desejar, posso auxiliar na elaboração de um modelo de justificativa ou na identificação de ARPs [atas de registros de preços] disponíveis que atendam às suas necessidades”.

A IA que cobre eventos

Em dezembro de 2025, a Academia Getulense de Letras (AGL) deu início a suas atividades com a diplomação dos membros fundadores. A cerimônia especial teve destaque no site da Prefeitura Municipal de Getúlio Vargas (RS).

O texto noticioso descreve bem o evento e conta com declarações elogiosas de autoridades do município gaúcho. Ao final, porém, um “Se desejar, posso produzir também versões para redes sociais, para imprensa impressa ou para revista institucional” revela que ferramentas de IA ajudaram na construção do texto — e que faltou um pouco de revisão.

“Indicação complementar”

Na Câmara Municipal de Santana de Parnaíba, uma indicação parlamentar também foi vítima do descuido do redator. O documento solicita ao Executivo municipal a instalação de um ponto de ônibus na Rua Oirá, nº 608.

Apesar de bem-redigido, o texto deixa a voz da IA completamente evidente no trecho final: “Se desejar, posso elaborar também uma indicação complementar solicitando cobertura, banco ou acessibilidade no ponto de ônibus”.

Tomara que a sugestão da IA tenha sido acatada.

Serviço completo

Outro documento do Legislativo municipal ao Executivo. Desta vez, um requerimento. Nele, um vereador de Sertãozinho (SP) pede ao prefeito a realização de estudos para que o Serviço Autônomo de Água, Esgoto e Meio Ambiente da cidade mude a forma de cobrar o consumo de água. Em vez de uma taxa mínima para quem consumir menos de 15 m³, é solicitada uma cobrança proporcional ao consumo.

Mais uma vez, é o final do documento que revela o verdadeiro autor do texto: “Se desejar, posso montar o requerimento completo com título, texto, justificativa e espaço para assinatura”.

Vanguarda da inovação

O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações também está na “vanguarda”. Prova disso é que o Relatório Anual referente ao ano de 2024 do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) traz não uma, mas duas ocorrências de “falas” de ferramentas de IA que acabaram saindo no documento oficial.

Relatórios anuais como esse fazem parte das obrigações de transparência e prestação de contas de instituições públicas federais. Eles reúnem dados sobre desempenho institucional, metas, atividades realizadas, indicadores, orçamento e outras informações relativas ao ano de atuação.

Contudo, na página 35, ao ressaltar os impactos de cientistas brasileiros no exterior, o texto solta: “Se desejar, posso ajudar a aprofundar em suas contribuições científicas”. Na página 40, ao comentar os eventos promovidos pelo CBPF, o texto revela as boas intenções da IA ao deixar escapar um “se precisar, posso te ajudar com mais informações relacionadas.”

Voto da relatora

O Projeto de Lei nº 1.069, de 2021, que tramita na Câmara dos Deputados em conjunto com o PL nº 2.257/2021, trata da garantia do fornecimento de oxigênio medicinal no sistema de saúde brasileiro, focando em dois pilares principais: instalação de usinas de oxigênio e um plano nacional de gestão do oxigênio, buscando assegurar a estabilidade no fornecimento tanto para a rede pública quanto para a privada.

Em 2024, a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados fez um parecer sobre o PL. Na seção “Voto da relatora”, a deputada Ana Pimentel (PT-MG), que assina o documento, acabou deixando no texto uma interação da IA: “Aqui está o texto melhorado com a inclusão de comentários sobre o direito fundamental à saúde, conforme previsto na Constituição brasileira”.

A escola que aprendeu com a IA

O Programa Escolas Criativas, desenvolvido pela Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul, promove uma metodologia de aprendizagem ativa baseada em projetos, colaboração e experimentação. A iniciativa é centrada na capacitação de professores para integrar robótica e programação ao currículo escolar, transformando o ambiente de ensino em um espaço de inovação.

A página oficial do programa no site da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul contém uma apresentação em texto que segue de perto o estilo de organização textual de ferramentas de IA, com assuntos divididos em seções, bullets (tópicos) e uma declaração deslocada: “Aqui está o texto revisado e organizado de forma mais institucional, corrigindo erros de concordância, coesão e coerência”.

Duas Estradas, dois problemas

Mais de 3,6 mil pessoas residem em Duas Estradas, município do interior da Paraíba. No site da Prefeitura, ao fazer uma pesquisa nas leis da cidade, você chegará à página da Lei 284/2022, cuja ementa (do site) está registrada assim: “Claro, aqui está o texto sem letras maiúsculas: ‘Institui o Fundo Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente no âmbito de Duas Estradas/PB.”.

De fato, retirar letras maiúsculas de um texto cheio delas é um trabalho que inspira pouca motivação, e a inteligência artificial pode ajudar com isso. Mas o problema aqui é duplo: além de publicar sem revisar, o servidor não percebeu que a própria IA não cumpriu a tarefa — o texto final ainda está cheio de maiúsculas.

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