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Pôster de “Liga da Justiça de Zack Snyder”: bússola moral
Pôster de “Liga da Justiça de Zack Snyder”: bússola moral| Foto: Divulgação

O filme ‘Liga da Justiça de Zack Snyder’ (este é o título completo) difere significativamente do filme ‘Liga da Justiça’, de 2017, um projeto que Snyder começou e foi mutilado quando a Warner Brothers designou Joss Whedon para retrabalhá-lo. Por meio da confluência de interferência corporativa venal, um raro caso de protesto do público (a hashtag #ReleaseTheSnyderCut) e a oportunidade de dar início ao novo serviço de streaming HBO Max (que ainda não estreou no Brasil) , Snyder recebeu carta branca para realizar sua visão e consertar as coisas.

Snyder usa a ideia de Batman (Ben Affleck) e Mulher Maravilha (Gal Gadot) unindo-se com mais três super-heróis, Aquaman (Jason Momoa), Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Victor Stone), após a morte de Superman no final de ‘Batman vs Superman: A Origem da Justiça’ (2016), como uma metáfora para o esforço espiritual. Na mítica do combate moral de Snyder, esta liga de super-heróis luta contra uma ameaça do mal de outra dimensão, o vilão Steppenwolf e seu ainda mais rude mestre Darkside (eles prometem, "Abaixo o mundo moderno. De volta à Idade das Trevas")

A versão de Snyder mostra as ansiedades dinâmicas e fisicalizadas dos super-heróis que, de forma mais ampla, às vezes são confusamente políticas, mas remontam às condições primordiais e aos mitos fundamentais. As cenas de abertura ligando diferentes épocas e personagens em situações paralelas são fantasticamente realizadas e com as expressões faciais mais emocionalmente intensas desde Joseph von Sternberg (cineasta alemão que trabalhou na era de ouro de Hollywood). Este é um épico moderno sobre preocupação e desejo.

A paixão por trás da hashtag #ReleaseTheSnyderCut foi inspirada pelos fãs de Snyder (uma minoria na cultura cinematográfica estúpida de hoje), que favorecem sua narrativa esteticamente rica de quadrinhos D.C. em vez dos mecanismos juvenis dos filmes dos Vingadores da Marvel. Os personagens de Snyder não piscam para o público, mas pedem reconhecimento pessoal. Esses super-heróis — como deuses na terra — personificam o esforço humano. Eles representam mitos para uma era de descrença, e seus traços idealizados derivam de mais do que a realização de desejos adolescentes. No final da introdução de Aquaman, uma mulher islandesa inala o cheiro de seu suéter descartado (como a esposa ilicitamente relembrando o aroma da jaqueta de um soldado em “Rastros de Ódio”, clássico do faroeste de 1956). Esse retorno à história do cinema também pode ser assustadoramente sensual, especialmente para uma era erotofóbica em que a mídia tradicional busca a dissolução das diferenças sexuais.

Nossa realidade social se tornou tão absurda — a discussão política inverteu o certo e o errado, rebaixou a verdade e a fé — que a confiança de Snyder nas verdades, convocando a unidade social por meio do mito, vai contra a corrente. E, no entanto, este novo Liga da Justiça mostra o cinema mais irrefutável e certamente extravagante em anos. O filme dá ao mito dos quadrinhos um visual clássico que faltava nos filmes da Marvel e em 'O Senhor dos Anéis'. Snyder leva a extravagância tipicamente inconsistente do videogame em direção à profundidade romântica de Homero e Thomas Malory (escritor inglês, 1415-1471). Cada uma das cenas de batalha se move engenhosamente com detalhes impressionantes: um relâmpago em zigue-zague; uma mão cortada ainda brilhando com força vital; a visão de Flash com um urso russo atacando um touro de Wall Street; além de Flash e Mulher Maravilha convergindo na ponta da espada.

Snyder traz tanta convicção para seu ofício que dá substância a uma tradição incomum de quadrinhos, como em suas obras-primas ‘Watchmen’ e ‘O Homem de Aço’. Sua grande visão aqui deixa cair alguns fios narrativos: a consciência problemática de Batman e a ressurreição de Superman e a reunião com Lois Lane (Amy Adams) são negligenciadas em troca de um exame mais detalhado da origem de Aquaman e da luta pessoal de Cyborg. (Há mais a dizer sobre o último.) Ao contrário da maioria dos cineastas de Hollywood, Snyder tem muito a dizer — especialmente sobre como recuperar nossa bússola moral. Ele responde a uma era sem fé com um filme sobre a fé. “Pela primeira vez, estou operando com base na fé, não na razão”, lembra o comovente Bruce Wayne de Affleck à equipe. O ponto essencial de Snyder se recuperando de uma catástrofe (sua filha morreu enquanto fazia o filme) e acertando é demonstrado no dilema pessoal de cada super-herói. A visão restaurada de Snyder nos lembra do valor da arte pop.

*ARMOND WHITE é crítico cultural e escreve sobre filmes para a National Review.

©2021 National Review. Publicado com permissão. Original em inglês.
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