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Invisíveis
| Foto: Wavebreak Media LTD | Freepik

Para nós, do Ler e Pensar, 2020 é o ano do R. 
R de repensar, R de renovar, R de reconectar, R de reinventar e também R de RECONHECER! Portanto, neste ano tão diferente, o Ler e Pensar decidiu preparar algo novo para reconhecer os profissionais da Educação na semana do Dia do Professor. Selecionamos textos enviados pelos professores do LEP, em que eles podem expressar como têm se reinventado no ano de 2020. 

O primeiro texto selecionado é da professora Cristina Pereira Tognini Batista, de Guarujá-SP. 

Invisíveis  
O roteiro remetia a um filme de ficção científica. Uma notícia aqui, outra ali. Informações desencontradas. Tão distante, a epidemia, do nosso casulo verde-amarelo. A neblina inebriante do Carnaval parecia dar conta de conter o mal que assolava terras mais distantes. Ledo engano. Olhando hoje, de forma mais objetiva, parece que estávamos prestes a conhecer a teoria anunciada no início da série Touch: “todas as ações do planeta estão ligadas por um fio invisível”

Na sala de leitura da escola, já sem alunos, o clima era surreal. Não havia ainda o entendimento, mínimo que fosse, sobre a extensão do problema. Menos ainda da possibilidade de ficarmos tanto tempo longe da escola. Pairava uma sombra sobre nossos pensamentos. Entre um diário e outro sendo colocado em dia, o silêncio invadia o ambiente. Fato pouco comum quando se trata de professores reunidos. Um peso enorme havia tomado o lugar antes preenchido por alunos estridentes. Alguém ligou o computador e colocou uma música. Começamos a cantar e improvisamos uma coreografia. Tentávamos driblar o incômodo da dúvida. Combinamos que poderíamos surpreender os alunos com uma apresentação de dança na volta às aulas. E aqui caberia Suassuna, o Ariano: “O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”. Éramos, naquele momento, o retrato da citação do poeta.

Depois, bom, depois fomos para casa! Simples assim! A instalação imediata do caos dificilmente será esquecida pelos professores. Mesmo os mais antenados, adeptos à tecnologia mediando o conhecimento, sentiram o impacto do remoto. Cada recurso desconhecido, um monstro a ser dominado. A troca entre os colegas sinalizava o desespero. Google Forms? Classroom? Zoom? Teams? Tutoriais? Sim! A cada excursão bem sucedida pelo mundo das ferramentas virtuais, comemorávamos a vitória pedagógica para garantir a interação. Em tempo recorde fomos convencidos de que éramos heróis e daríamos conta de tudo. O dia amanhecia e seduzidos pela urgência de sermos incessantemente produtivos perdíamos a noção da hora. A conta não demorou a chegar. Entre embalar a criança, cuidar do idoso de risco, fazer supermercado e queimar o arroz, nos perdemos pelo excesso. Precisávamos urgentemente reconhecer as falhas e repensar as ações!

Perplexa e cansada percebi que Edgar Morin nunca foi tão atual: “Tentamos nos cercar com o máximo de certezas, mas viver é navegar em um mar de incertezas, através de ilhotas e arquipélagos de certezas nos quais nos reabastecemos”. Precisávamos nos reconectar com o novo normal. Renovar. Era o verbo acenando com a possibilidade de sair melhor do processo. Não havia tempo para pensar. Era pegar ou largar. Impossível largar aquilo em que se acredita. Fui conjugar a reinvenção.

Reinventar-se. Saída estratégica para minimizar os estragos causados pelo medo que levou a agir por impulso. A balança havia pendido para o lado errado. Ao buscar equilíbrio, fomos nos reabastecendo. Nunca se privilegiou tanto o emocional. Empatia. Autogestão. Foco. Alteridade. Olhar mais atento às necessidades do todo. Menos ego. Tudo mais plural.

Somos outros. Irreversivelmente transformados. Uns pelo amor, outros pela dor. Professores.

*Texto escrito por Cristina Pereira Tognini Batista, professora da Rede Estadual de São Paulo, que leciona na EE Presidente Tancredo Neves, na cidade de Guarujá, para o Ensino Fundamental II. A professora participa do Projeto Ler e Pensar e enviou seu texto voluntariamente.

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