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Em uma época em que telas, vídeos curtos e estímulos imediatos disputam a atenção, aproximar adolescentes da literatura requer mais do que indicar uma obra e solicitar sua leitura. Embora muitos contos infantojuvenis façam parte do imaginário dos estudantes desde a infância, suas origens e trajetórias permanecem desconhecidas. Antes das versões publicadas em livros e popularizadas no cinema, muitas dessas narrativas circularam oralmente durante gerações, receberam diferentes formas e não puderam ser atribuídas a um único autor.
Retomar esses contos no Ensino Médio pode, portanto, transformar o contato com histórias aparentemente conhecidas em uma experiência de descoberta, permitindo aos jovens investigar suas origens, comparar versões e compreender as mudanças ao longo do tempo.
Foi com esse propósito que nasceu a Oficina de Aprendizagem “O Avesso dos Contos”, desenvolvida com estudantes do 2º ano do Ensino Médio do Colégio Sesi da Indústria de Loanda no segundo trimestre de 2026. A proposta partiu de uma experiência vivida por duas professoras do colégio, que atuam na área de Linguagens, durante a graduação em Letras, e foi retomada anos depois, sob outro olhar: aquilo que contribuiu para a formação das docentes poderia ganhar novos sentidos nas mãos de uma turma marcada pela criatividade, pela expressividade e pelo interesse pelas áreas de Humanas e artes cênicas.
Desafios e soluções a partir de grandes clássicos
O desafio apresentado aos estudantes foi transformar um conto de origem oral, marcado por diferentes versões, em uma contação adequada a crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Cada uma das sete equipes recebeu, por sorteio, uma narrativa — como Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, João e Maria e A Pequena Sereia — e uma modalidade
de apresentação: fantoches, contação sensorial, dramatização, painéis ilustrados, figuras móveis, música ou participação do público.
Antes de contar, porém, foi necessário investigar. As equipes pesquisaram a origem das narrativas, sua relação com a oralidade e as versões que circularam ao longo do tempo, incluindo aquelas mais antigas e sombrias. Na pré-finalização, apresentaram aos professores o que havia sido suavizado, retirado ou transformado para a circulação entre crianças, refletindo sobre os motivos dessas mudanças. A exibição do filme Coração de Tinta: O Livro Mágico levou os jovens a explorar voz, entonação, corpo, emoção e presença cênica ao encenarem cenas escolhidas pelas equipes.
Na etapa seguinte, o conhecimento pesquisado converteu-se em escolhas concretas. Os estudantes adaptaram a linguagem, elaboraram roteiros, distribuíram funções, ensaiaram e construíram cenários e recursos narrativos. Muitos materiais foram feitos com papelão e elementos reaproveitados, unindo criatividade e cuidado estético. A escolha dialogou com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 12 — Consumo e Produção Responsáveis — ao incentivar o reaproveitamento e a redução de resíduos.
Para além do “felizes para sempre”...
Em 28 de agosto, o trabalho ultrapassou os limites da sala de aula. As equipes apresentaram suas histórias para 46 crianças do 3º e do 4º ano de uma escola municipal de Loanda. A existência de um público real modificou o sentido do percurso: roteiros, ensaios e cenários não seriam preparados apenas para avaliação, mas para crianças que escutariam, reagiriam e participariam das histórias. Os adolescentes perceberam que sua produção tinha destinatários e que comunicar exigia responsabilidade com o outro.
Os efeitos da experiência apareceram nos feedbacks dos estudantes. Ao retomarem narrativas conhecidas, vestirem personagens e se colocarem diante das crianças, vários disseram ter sentido como se voltassem a ser crianças. O contato com a literatura infantojuvenil fez emergir lembranças, afetos e experiências que pareciam adormecidos. O movimento da oficina tornou-se, assim, duplo: os jovens voltaram aos contos de sua
infância e, depois, devolveram essas histórias a uma nova geração, transformadas pela pesquisa, pela adaptação e pela performance.
O Avesso dos Contos mostrou que o aparente distanciamento entre adolescentes e literatura pode ser reduzido quando a escola reconhece as afinidades de uma turma e oferece espaço para autoria, criação e interlocução verdadeira. No avesso de cada narrativa, os estudantes encontraram versões esquecidas, escolhas históricas e modos distintos de contar. No avesso de si mesmos, reencontraram o eu-criança que ainda sabia se encantar.
Janaína Gimenes Garcia e Mônica Pardim Fernandes da Silva | Professoras do Colégio SESI da Indústria de Loanda (PR)



