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Pedra, papel e smartphone
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Sou professora desde que me conheço por gente. Trabalho na EEEM Santa Rita, aqui “no fim do fundo da América do Sul” como canta um nobre conterrâneo da Cidade do Doce, a Princesa do Sul. Pelotas é mesmo cheia de apelidos e predicados. Aprendi tudo isso nos livros e talvez por isso me tornei professora. Atuo na rede Estadual do Rio Grande do Sul.

Adoro o que faço! Claro, há “ossos no ofício”, mas as novas tecnologias não são um desses “ossos”.

Quando era pequena brincava de “pedra, papel e tesoura”, um versinho que se dizia ao fazer um movimento e indicar com gestos cada um desses objetos. Mas também usava as tecnologias disponíveis na época. Eu era PX3456/2 em uma estação de rádio amador que meu pai tinha em casa. Cresci em meio a antenas, transistores e diodos numa bagunça de fios que ocupavam a metade da sala de estar da minha mãe. Era um imenso aparato usado para se falar com o mundo todo. Era a bisavó da internet. Meu pai era PY, ligado a LABRE, liga de rádio amadores do Brasil. Eu achava tudo isso o máximo.

O tempo passou e os imensos rádios amadores foram substituídos por computadores pessoais que se instalaram, claro, na mesma sala de casa. Desta vez, ocupava também a única TV da casa!

Meu pai comprou um TK85 e também um TELEJOGO com a incrível quantidade de TRÊS jogos em sua memória. Esses dois recursos tecnológicos de última geração disputavam, com a minha mãe, a única TV da casa. Adivinha quem vencia?! Não preciso dizer que a minha mãe passou a não gostar muito de tecnologias. Ela fazia parte da geração que cresceu ouvindo “não mexe que estraga”. Ouvi isso também, mas fingia que não escutava. Eu queria aprender, dominar os “novos” recursos.

Acho que, por tudo isso, posso dizer que fui programada para lidar bem com as tecnologias. Assim como fui programada geneticamente para ser professora. Sim, meus pais são ambos professores, aposentados agora. Eles me ensinaram o amor aos livros, o respeito ao conhecimento e a admiração por todos os saberes, o acadêmico e o empírico: aquele que se adquire com a prática, abraçando as oportunidades que surgem.

De ambos os lados da família, meus pais eram os únicos com faculdade. Meu avô, por exemplo, estudou apenas até a 5º série ginasial, mas era exímio matemático e contador de histórias. Eu adorava ouvir sobre como ele havia conhecido minha avó, sobre como iam os dois para escola, cada um levando sua bolsa feita de saco de estopa com uma barrinha de giz e um pequeno quadro negro, que chamavam de pedra, usada como caderno, porque o papel era muito caro. A tal bolsa era o item mais adorado, pois servia de desculpa para não ter feito o dever de casa. Como era feita de um saco de estopa e ia roçando na “pedra”, apagando o cálculo durante todo o caminho, era a desculpa perfeita: “Eu fiz, mas apagou no caminho, professora.” Os tempos mudam, e hoje se diria para professora “fiquei sem internet, não deu pra enviar o trabalho!” Lá se vão três gerações de tecnologias e de desculpas esfarrapadas!

Das anotações na “pedra” à estação de rádio amador foi um salto; do computador ao smartphone foi um voo. Estamos novamente em tempos de renovação e de reconexões com o passado para reinventarmos o presente e ressignificarmos o futuro. A nova sala de aula será híbrida, sem dúvida. A competência primordial a ser desenvolvida será a autonomia. O letramento digital se faz necessário. Os ambientes virtuais de aprendizagem exigem uma nova postura autônoma, confiante e resiliente com toques de autodisciplina.

Esses ambientes chegaram para ficar, assim como o papel depois da pedra do meu avô, o computador pessoal depois do rádio amador do mau pai, e o smartphone depois da minha consciência de que tenho que formar alunos mais autônomos.

O mundo digital não vai substituir nada, nem tem esse objetivo; apenas chegou para ocupar um espaço que estava vago, um espaço de aprendizado contínuo e autônomo, mas que valoriza a mediação a curadoria do professor.

*Texto escrito por Ariadne Oertel Azevedo, professora da Rede Estadual do Rio Grande do Sul, na EEEM Santa Rita, no município de Pelotas. A professora participa do Projeto Ler e Pensar e enviou seu texto voluntariamente.

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