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Por que certos professores têm dificuldades para mudar suas práticas de ensino?
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Já estamos cansados de falar que as aulas expositivas do ensino tradicional – com os alunos assistindo monólogos dos professores passivamente, seja em modo presencial ou remoto – já não funcionam mais, pois dão pouco resultado em se tratando de aprendizagem. Também estamos cansados de falar em novas metodologias, tais como sala de aula invertida, gamificação, aprendizagem baseada em problemas, pedagogia de projetos e outras. Então, por que ainda estamos distantes de uma implantação mais efetiva dessas novas metodologias?

Antes de avançarmos sobre o tema, é importante explicar para o(a) leitor(a) a diferença básica entre o método tradicional de ensino e as novas metodologias, com abordagens chamadas de ativas, que estão em amplo debate nos programas de formação de professores e nas próprias escolas.

O método tradicional de ensino, muito criticado nos dias atuais, mantém o aluno numa postura passiva, um mero receptor das informações transmitidas pelo professor, que é considerado a figura central, geralmente o único detentor do saber repassado aos alunos por meio de aulas expositivas. Os alunos têm um papel bastante reduzido neste método: o de simples expectadores das aulas e memorizadores de saberes, que precisam demonstrar, nos testes e provas padronizadas, o que decoraram. Nesse modelo de ensino – denominado educação bancária, por Paulo Freire, e paradigma instrucionista, pelo educador Pedro Demo – não há preocupação com as diferenças individuais dos alunos, o que está na contramão do modelo das experiências de aprendizagem que estimulam o estudante a buscar autonomia e protagonismo na construção do conhecimento. 

Em contraponto à metodologia tradicional de ensino, temos as metodologias ativas. Embora elas pareçam novidade, já estão em discussão desde a década de 80, como alternativa à aprendizagem passiva do método tradicional. Em oposição ao ensino tradicional, as metodologias ativas incentivam um ambiente de aprendizagem em que o aluno seja estimulado a assumir uma postura ativa, responsabilizando-se por seu processo de aprendizagem, e instigam a autonomia e a autorregulação, buscando a aprendizagem significativa.

As metodologias ativas são baseadas no estímulo ao processo de aprendizagem e buscam o envolvimento por parte dos educandos na construção do conhecimento. Trata-se de uma concepção de educação crítica e reflexiva, em que o aluno passa a ser o protagonista do seu processo de aprendizagem, visto que as suas necessidades estão no centro do processo da formação. Assim, os docentes mudam de posição:  de transmissores de informações, que é o papel predominante do professor no ensino tradicional, passam a atuar como mediadores no processo de aprendizagem e de facilitadores e apoiadores do desenvolvimento de capacidade dos discentes.

Com maior clareza sobre os dois modelos de ensino e aprendizagem, voltamos ao questionamento inicial: por que é tão difícil a implantação dessas novas metodologias, tanto na Educação Básica como na Educação Superior? Por que os professores ainda resistem à implantação dessas metodologias? Falta de informação? Falta de formação? Falta de materiais para consulta? Falta de apoio por parte dos gestores? Falta de evidências sobre o sucesso de tais abordagens?

Recentemente, fiz essa pergunta para vários professores, com o objetivo de reforçar uma hipótese que tem me acompanhado desde os remotos tempos em que eu lecionava cerca de 60 horas semanais. E as respostas que recebi foram ao encontro dos estudos e suposições.

Todos os fatores mencionados para tentar justificar a baixa adesão do professor na mudança metodológica nas suas aulas (falta de informação e formação, de materiais para consulta e apoio por parte dos gestores, assim como de evidências sobre o sucesso de tais abordagens) são reais e, em parte, justificam a dificuldade dos professores para adotarem essas novas metodologias. No entanto, o que realmente faz com que um professor resista a elas, está em um nível mais profundo.

A aula tradicional expositiva ainda continua a ser a que menos exige preparo dos professores e a que eles mais dominam. Por outro lado, toda metodologia que foge da aula expositiva exige um preparo muito maior, tanto do aprofundamento nos conteúdos quanto da organização das aulas, das atividades e do cumprimento os objetivos pedagógicos.

Para que as metodologias ativas deem resultado, os professores precisam conviver com exigências, relacionadas com uma grande quantidade de recursos, que vão desde o preparo intelectual, as atividades interdisciplinares, os materiais de apoio ou os recursos tecnológicos até, além de outros fatores, o investimento de muito tempo para o preparo das aulas. Na maioria das vezes, os professores sequer têm esses recursos disponíveis para uso, principalmente mais tempo.

Muitas vezes, percebemos as novas metodologias sendo utilizadas sem o devido preparo, o que pode ser um grande desastre. Quem não se lembra de um professor que propunha que os alunos desenvolvessem projetos e apresentassem seminários, cujos resultados foram aprendizagem quase nula? Sim, os alunos dividiam o trabalho em partes e cada um memorizava somente a sua pequena participação; então, ensaiavam uma apresentação, que acabava sendo mais um jogral do que um seminário. Os professores e alunos assistiam aquela chatice, eram feitos alguns comentários e os professores seguiam em frente com o conteúdo ou, se preciso, voltavam a dar mais uma aula expositiva para que aquele conteúdo fosse aprendido.

Não tenho dúvidas de que o uso de metodologias ativas, quando bem trabalhadas pelos professores, melhoram a aprendizagem dos alunos de forma significativa. Mas, para que os professores possam, de fato, implantar essas novas abordagens de ensino e aprendizagem, precisam ter condições para tal, começando pelo tempo de preparação de aula e contando também com suporte, que os ajude na curadoria de conteúdos, nas edições de vídeos e na organização de materiais, entre tantos outros aspectos. No entanto, a grande maioria dos professores da Educação Básica, para não dizermos todos eles, trabalham sozinhos, com seus próprios recursos e sem apoio administrativo e tecnológico para organizarem suas aulas.

No mundo ideal, professores têm 20% da sua carga horária reservada para prepararem as suas aulas; no cenário real, nenhum percentual ou algo que chegue a 10-12%. Em razão das condições de trabalho na maioria das escolas brasileiras e dos salários dos professores, é claro que o docente precisa trabalhar em duas ou três escolas ou em duas redes, a pública e a privada, e dividir seu tempo com diferentes turmas do Ensino Fundamental ao Médio.

Outro fator preponderante para o sucesso das metodologias ativas, principalmente na Educação Básica, é o envolvimento da família no processo de aprendizagem. A maioria das abordagens exige a ajuda dos pais na mobilização dos recursos, mesmo que os de baixo custo, e no auxilio e na gestão das atividades realizadas fora do ambiente escolar.

Concluo enfatizando que: se realmente desejarmos mudar os métodos da escola, quisermos avançar para a aprendizagem mais efetiva e a escola mais adequada aos novos tempos e a essa nova geração de alunos, precisamos dar condições para que os professores mudem suas aulas, o que começa pela formação. Não menos importante, é necessário fornecer recursos e amparo tecnológico, assim como humano, para que as aulas sejam transformadas e que o professor possa dignamente migrar de transmissor de conteúdos para facilitador e mobilizador de saberes. Sem isso, vamos continuar o velho discurso, muitas vezes vazio e distante da dura realidade vivida por nossos heróis, os professores brasileiros.

Este texto foi escrito por Renato Casagrande, presidente do Instituto Casagrande e vice-presidente da Associação Nacional da Educação Híbrida do Brasil - Anebhi.  O autor colabora voluntariamente para o Blog Educação&Mídia.

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