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Apoiadores do presidente interino Juan Guaidó participam de manifestação em Caracas, 11 de maio
Situação política na Venezuela, que vive uma ditadura, preocupa países de todo o mundo| Foto: Yuri Cortez/AFP

Com a notícia da vitória da chapa de Alberto Fernández e Cristina Kirchner nas primárias para as eleições presidenciais na Argentina no domingo passado, surgiu a preocupação de que um novo governo populista transformasse o país vizinho em uma "nova Venezuela", ou seja, que a Argentina mergulhe em caos político e econômico semelhante ao do país de Chávez e Maduro. O presidente Jair Bolsonaro, que declarou seu apoio à reeleição do presidente Mauricio Macri, disse após a vitória da chapa de oposição que "a Argentina começa a trilhar o caminho da Venezuela".

No entanto, especialistas consideram essa possibilidade improvável, embora alertem para problemas que podem ser causados por políticas populistas na economia.

Para Carlos Eduardo Vidigal, doutor em Relações Internacionais e professor do curso de História da Universidade de Brasília (UnB), existe um grande desconhecimento no Brasil sobre o que se passa na nossa vizinhança, não apenas na Venezuela e na Argentina, mas também nos demais países da América do Sul. “O caso argentino é bastante diferente do caso da Venezuela”, disse Vidigal à Gazeta do Povo. “Mesmo porque Néstor Kirchner e Cristina Kirchner já estiveram no governo, e as taxas de crescimento foram muito positivas em média, e o comércio entre Brasil e Argentina cresceu no período”.

Vidigal, cujas pesquisas têm enfoque nas relações Brasil-Argentina, diz ainda que a relação da Argentina com o Brasil e os outros países da região não mudaria, já que a maior parte dos negócios argentinos, à exceção do Mercosul, que é muito relevante, se dá com países da Europa, Estados Unidos e China. “Não é uma mudança de governo que muda as formações socioeconômicas ou o comércio que já está em desenvolvimento. Agora, a crise, sem dúvida alguma é bastante grave em termos econômicos”.

Virgílio Caixeta, professor de História na UnB, explica que a Venezuela não tem perfil de maior integração regional como a Argentina, que tem estrutura mais sólida na economia. “A Argentina, com toda a crise, tem respeitado os processos eleitorais. Tanto que houve alternância com o Macri, e agora parece haver outra alternância. A situação da Venezuela é muito distinta, porque a Venezuela já está em processo de autoritarismo há um bom tempo; as estruturas políticas existem com dificuldade, e é um país cuja economia se baseia basicamente no petróleo”, disse Caixeta à Gazeta do Povo.

Como a Venezuela se tornou uma Venezuela

A Venezuela, país rico em petróleo, não chegou ao colapso da noite para o dia. Em seu livro “Hugo Chávez, o espectro: Como o presidente venezuelano alimentou o narcotráfico, financiou o terrorismo e promoveu a desordem global”, o jornalista Leonardo Coutinho narra o processo que levou a Venezuela a uma crise política, econômica e humanitária que já fez com que 4 milhões de pessoas deixassem o país.

Coutinho conta que Hugo Chávez assume o poder em 1999 em meio a uma grave crise, causada pelo baixo preço do petróleo. Nos anos seguintes, em reuniões na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), Chávez consegue um aumento do preço da commodity. “Em muito pouco tempo, a Venezuela passa a ter receitas enormes e Chávez começa a impor um governo com uma agenda muito populista e muito assistencialista”, disse o autor à Gazeta do Povo.

Após uma tentativa de golpe contra Chávez em 2002, o líder venezuelano entendeu que precisava “aniquilar” os seus inimigos, e ele entendeu que “a oposição dos setores empresariais eram o inimigo”. Assim, ele começa um processo de nacionalização e desapropriação de estruturas produtivas, como áreas de produção de arroz e outros grãos, que são transferidas para o Estado.

“Começa um processo intenso de nacionalização, e ele vai entregando isso nas mãos de pessoas que não eram competentes. Ele vai aparelhando o Estado com toda essa estrutura e tira o profissionalismo da produção de insumos que o país tinha”, relembra Coutinho. A lógica era a de que o dinheiro do petróleo era tamanho que ele passou a importar esses produtos. Dessa forma, a Venezuela ficou cada vez mais dependente de importações, possibilitadas pelas receitas do petróleo. “Ao mesmo tempo, silenciosamente, Chávez tornou vulnerável a estrutura do país inteiro”.

Quando o preço do petróleo cai novamente, a Venezuela passa a se endividar e surgem problemas de abastecimento, e a dificuldade de comprar alimentos e arcar com as suas contas. O processo de quebra da Venezuela começa nesse momento em que o país não tinha mais dinheiro e nem capacidade de produção.

Associada a tudo isso estava a destruição institucional. “Chávez aparelhava o Estado, destruindo instituições. Ele contaminou as forças armadas e as associou à estrutura de corrupção, crime e narcotráfico, de forma intencional”.

Em seu livro, Coutinho detalha como Chávez chegou à decisão de ajudar as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) a escoar a cocaína produzida no país vizinho, após um pedido de Fidel Castro para ajudar a expansão da esquerda no continente.

“Chávez corrompeu a estrutura do Estado. Com a destruição da economia e das instituições, a Venezuela caminhou para esse abismo econômico, social e caótico. E hoje Nicolás Maduro está lá. Algumas pessoas tentam separar Maduro de Chávez, mas na verdade eles são parte de uma mesma história. A Venezuela de hoje é resultado de uma crise construída em muitos anos; é um produto de erros políticos”, diz o autor.

A venezuelização da Argentina

Os especialistas ressaltam que a Argentina não tem o elemento da dependência do petróleo em sua economia. Porém, em sua história, a Argentina teve líderes que privilegiaram políticas populistas, que têm a capacidade de desestabilizar a economia do país.

“Embora não tenha a dependência de um produto só, há o aspecto de que o Estado [argentino] se comporta como um Estado provedor, demasiadamente permissivo no aspecto de suas concessões, superpaternalista”, destaca Coutinho, lembrando que, fora de Buenos Aires, grande parte da Argentina não tem bons índices de instrução e econômicos e serve de instrumento para o populismo argentino.

Os governos de Néstor Kirchner [2003-2007] e depois de Cristina Kirchner [2007-2015] colocaram em prática as características mais fortes do populismo argentino. “Eles não colapsaram naquele momento porque estiveram em um momento de crescimento mundial que puxou todo mundo”, diz Coutinho.

O governo de Cristina Kirchner teve apoio da Venezuela de Chávez, que passava por um momento de abundância de receitas de petróleo, com acordos comerciais, investimentos e empréstimos a juros baixos.

Coutinho não acredita que a Argentina, com a provável vitória da chapa Fernández/Kirchner, possa passar por uma crise semelhante à da Venezuela. “A Argentina não vai virar uma Venezuela porque é outra natureza”, diz. Ele acredita, no entanto, que alguns problemas venezuelanos possam ocorrer na Argentina. “Se a notícia do resultado das prévias já foi capaz de colocar o mercado em colapso, uma chegada deles ao poder, uma incapacidade de criarem políticas para a retomada do crescimento, uma reação nervosa do mercado a eles, se eles não conseguirem atuar, eles podem viver uma crise tão profunda quanto a da Venezuela, sob o aspecto econômico. E se for metade da venezuelana, já é um problema muito sério, que pode resultar, sim, em problemas migratórios como disse o presidente Bolsonaro”.

Porém, em um cenário hipotético de crise migratória da Argentina, os países mais impactados devem ser Chile e Uruguai, por causa do idioma comum entre os países. O Brasil seria uma segunda opção, até mesmo porque o Brasil não está oferecendo boas condições econômicas.

A maior parte dos migrantes que deixaram a Venezuela foram para Colômbia, Peru e Panamá. Muitas pessoas das classes mais altas foram para Espanha, Estados Unidos e Panamá. O Brasil recebe uma pequena fração desses venezuelanos, que geralmente vêm das regiões agrícolas no sul do país.

Com a provável vitória de Alberto Fernández, o ditador Nicolás Maduro ganha um novo aliado na região. O governo Macri havia assumido a liderança do Grupo de Lima, uma associação de países da região que procuram uma solução para a restauração da democracia na Venezuela, e que pode ter que passar por uma reestruturação com a possível saída da Argentina. "O grupo é enfraquecido, perde um aliado importante e acho que a tendência deverá ser uma readequação das responsabilidades, dos papéis de cada um", observa Coutinho. "O Brasil talvez tenha que assumir novas posições, mais responsabilidades em relação a reflexão sobre a questão da Venezuela".

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