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Evita abraça o presidente Juan Domingo Perón, na sacada da Casa Rosada | Wikimedia Commons
Evita abraça o presidente Juan Domingo Perón, na sacada da Casa Rosada| Foto: Wikimedia Commons

Sua história, dos trapos à riqueza, está ligada diretamente à política. Ela amava estar perto do poder. E quanto mais tinha, mais sentia ter direito a outra dose. Ansiava tanto pela atenção e adoração que uma vez admitiu: "Meu maior medo na vida é ser esquecida". 

Ela usou a demagogia para construir o caminho em direção a um culto entre aqueles que dependiam de seus favores. Ela pisou em quem ficou no seu caminho. Uma lei que obstruía suas ambições era, em sua opinião, para ser dobrada ou quebrada. Qualquer avaliação justa dela deve levar em conta que pronunciou muitos discursos vazios e distribuiu muito dinheiro de outras pessoas, mas nunca inventou, criou ou construiu nada. 

Não, não estou falando de Hillary Clinton. A mulher que tenho em mente, no entanto, era uma espécie de Hillary Clinton da Argentina. O nome dela era Eva Perón, conhecida afetuosamente pelos admiradores como “Evita”. Ela ainda não foi esquecida, um fato triste que requer uma atualização sobre quem era e o que representava. 

Evita, a popular produção teatral de 1978 com a música de Andrew Lloyd Webber, seguida 18 anos depois pela adaptação cinematográfica estrelada por Madonna, glamourizou Eva para as novas gerações em todo o mundo. Quem não ouviu o single muito tocado,“Don't Cry for Me, Argentina” uma dúzia de vezes? 

Evita: da pobreza ao casamento com Perón

Ela nasceu em maio de 1919 como Eva Duarte, a filha fora do casamento de uma mãe pobre trabalhadora e e de um rancheiro mulherengo que as abandonou cedo. Sofrendo a pobreza e o estigma da ilegitimidade na zona rural da Argentina, Eva fugiu aos 15 anos para Buenos Aires, com o sonho de se tornar atriz. 

Na década seguinte, ganhou a vida como uma modesta atriz  em alguns filmes de série B e na rádio. A vida mudou de rumo em 1944, quando, aos 25 anos, conheceu o secretário do Trabalho da Argentina e futuro presidente, o coronel do Exército Juan Domingo Perón. Um ano antes, ele fora uma figura chave em um golpe militar que depôs o presidente Ramón Castillo. Eva tornou-se a segunda esposa do coronel em outubro de 1945. 

Ela viveria apenas mais sete anos, mas é difícil imaginar um período mais agitado. Três meses depois do casamento, Perón foi eleito presidente da Argentina e sua nova esposa, quase 25 anos mais nova do que ele, tornou-se primeira-dama. Juntos, eles destruíram uma economia e corroeram as liberdades de um país

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O regime de Perón expandiu o poder dos sindicatos de trabalhadores, gastou generosamente em esquemas de bem-estar social e travou uma guerra de classes contra os ricos. Por um breve momento, pareceu funcionar. A Argentina era um dos países mais ricos do mundo e, com facilidade, o mais rico da América do Sul. Mais clientelismo e um governo maior pareciam ser mais aceitáveis, mas tais coisas sempre colocam em marcha tendências e políticas que são insustentáveis. Não demorou muito para que as dívidas, os déficits e o papel-moeda, além dos impostos mais altos e da turbulência no mercado de trabalho, empurrassem o peso para baixo e levassem a economia junto. Como disse a britânica Margaret Thatcher uma vez: "o problema com o socialismo é que, ao final, se fica sem o dinheiro de outras pessoas". 

O socialismo da variedade fascista era exatamente o que Perón e os peronistas estavam construindo, embora não "amadureceu" na forma completa dos tipos de Hitler, Mussolini ou Hugo Chávez. Em essência, era nacionalista, populista, intervencionista, demagógico e autoritário. 

Mais ameaçadores até do que sua política econômica eram os ataques do regime às liberdades civis. Muitos destes foram indiretos e “envoltos em veludo”. O carismático coronel e sua devotada cheerleader Eva sempre alegaram que o que faziam era "para o povo", especialmente para os pobres descamisados. 

Na biografia, “Evita: A vida real de Eva Perón”, Nicholas Fraser e Marysa Navarro citam um advogado da oposição que descreveu o estilo de governar de Juan Perón da seguinte maneira: 

Ele é sutil, tortuoso, encantador. Não sai à luz e não quebra tudo ... Ele faz o seu trabalho de forma silenciosa e cínica. Você vê, há tão pouco que podemos colocar nas nossas mãos nestes dias. Tudo o que ele faz é em nome da 'democracia' e de 'melhorias sociais' e, no entanto, sentimos o cheiro do mal no ar.

Juan Perón dissolveu o Partido Trabalhista que o elegeu e formou o seu próprio, ao qual chamou de "Partido Peronista". Se você se opusesse ao movimento, você seria politicamente excomungado, preso ou poderia enfrentar coisa pior. Um parlamentar que condenou o surgimento da “junta totalitária” de Perón viu-se repetidamente atacado nas ruas de Buenos Aires por bandidos peronistas. “Onde a lei fez com que fosse possível a estratégia de coerção legal, Perón fez uso dela; caso contrário, recorria a terríveis ameaças e pequenas intimidações ”, relatam Fraser e Navarro. 

Idolatria e fanatismo

Os jornais que criticavam os Perón eram frequentemente alvo de fiscais do governo que emitiram multas e forjavam acusações, como abuso contra os trabalhadores ou evasão fiscal. Um foi fechado simplesmente por usar caminhões “barulhentos” para distribuir os jornais. Em 1948, o governo tomou o controle sobre o monopólio da tinta de impressão e o usou para intimidar os editores remanescentes. “Sem fanatismo”, declarou Eva, “não podemos conseguir nada.” E ela falava sério. 

Eva até entrou no ramo jornalístico. Em 1947, o Banco Central foi pressionado a conceder-lhe um empréstimo a juros baixos para comprar o tabloide “Democracia”. Posteriormente, o jornal publicou fielmente os discursos aborrecedores de Juan e as tolas palestras de Eva sobre como as donas de casa poderiam lidar com o aumento dos preços à medida que o peso despencava. 

Uma vez que seu jornal sensacionalista foi remodelado com gente leal a Perón, Eva teve a liberdade para deliciar a nação com sua onipresença. Os biógrafos Fraser e Navarro escrevem: 

Foram anos em que Evita estava incessantemente presente aos olhos do público. Nenhuma ocasião - a abertura de uma piscina, uma fábrica, um prédio de um sindicato, uma entrega de uma medalha, um almoço com um visitante estrangeiro - era trivial demais para sua presença. Se uma empresa lançasse um novo produto, isto requeria seu patrocínio e, portanto, a aprovação do governo. Se um esportista, um jogador de futebol ou um piloto de automobilismo deixavam o país ou retornavam, então ele também deveria ser fotografado com Evita… 

O culto de Perón por Evita provavelmente ocorreu pela primeira vez em seus discursos para reforçar sua própria identidade política e refletir sua própria admiração real por Perón , mas em 1949, o culto era institucionalizado, e Evita era sua sacerdotisa. 

Seu marido era algo mais do que apenas outro caudilho latino, disse Eva. Era o "ideal encarnado". Seu exagero era, ao mesmo tempo, sem vergonha e ilimitado. "Perón é tudo", declarou ela. “Ele é a alma, o nervo, a esperança e a realidade do povo argentino. Sabemos que só há apenas um homem aqui, em nosso movimento, com sua própria fonte de luz. É Perón. Todos nos alimentamos da sua luz.”

Estranho, não? A esquerda estatizante sempre afirma ser “do povo”, pois isto confere um poder político enorme e concentrado a uns poucos. Além disso, a esquerda estatizante muitas vezes ridiculariza a fé em uma divindade, mas depois exige fé em um mortal ungido. Hitler, Mussolini, Stalin, Mao, Pol Pot, Ceausescu, os Kims da Coreia do Norte - os piores de todos - esperavam que seus súditos os bajulassem. 

Manipulação

Eva amava a si mesmo quase tanto quanto amava Juan. Em uma turnê de dois meses pela Europa, a primeira-dama de 29 anos gastou uma pequena fortuna com o melhor de tudo, de hotéis a carros e vestidos. Onde quer que fosse, exigia os mais altos prêmios e honras que um país a oferecia. Diplomatas britânicos a consideravam “uma ególatra corrupta que presidia um regime de pantomima”, segundo o jornalista Neil Tweedie, do The Telegraph. 

Eva formou seu próprio partido político, tal como fez o marido. O chamado “Partido das Mulheres Peronistas” não se destinava a empoderar as recém-emancipadas mulheres da Argentina, mas pretendia consolidar o poder nas mãos de Juan e Eva. “Ser peronista”, disse na primeira assembleia, “é, para uma mulher, ser leal e ter confiança cega em Perón.” Sem brincadeira. 

Meu amigo argentino de longa data (e também ex-aluno da Grove City College), Eduardo Marty, presidente da Fundação para Responsabilidade Intelectual em Buenos Aires, disse: “A frase mais feia de Eva foi uma que se assemelha ao raciocínio de Karl Marx: onde há uma necessidade, há um direito.” Ela era especialista em manipular a mídia e a educação,

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Evita rotineiramente intimidava as empresas privadas a desembolsarem dinheiro ou bens para que ele pudesse redistribuir o butim. Ela direcionava o dinheiro dos impostos públicos para suas causas favoritas e amigos leais, sempre lembrando-os a quem deviam lealdade. Nunca lhe importou qual era o custo econômico de sua generosidade, porque, depois de tudo, ela estava "fazendo o bem". Uma vez disse: "Manter livros (de contabilidade) sobre ajuda social é um besteira capitalista. Eu apenas uso o dinheiro para os pobres. Eu não posso parar para contá-lo.” 

Ao relatar a turnê européia de Evita em 1947, a revista Time cometeu o erro de mencionar o que, até então, era proibido na Argentina: que Eva nascera fora do casamento. Ela conseguiu que a revista fosse proibida por meses. 

Os socialistas adoram os gastos de “infra-estrutura” e Juan Domingo Perón não os decepcionou nesse sentido. Sua administração fez investimentos maciços em habitação, hospitais, escolas, represas, estradas e na rede elétrica. Apesar do desperdício e da corrupção que acompanham os gastos, muitos argentinos ainda lhe atribuem, carinhosamente, essas “modernizações”. Mas para os libertários civis e econômicos, as melhorias na vida argentina poderiam ter sido conseguidas de forma melhor e mais barata e sem a mão pesada do autoritarismo. E, certamente, sem o culto incessante a Eva. 

O princípio de uma mudança

O circo de Juan e Eva se apresentou para grandes multidões ano após ano. Juan consolidava o poder, enquanto Eva comprava distritos eleitorais com dinheiro público e privado. Ele era o líder e ela, a empresária que o glorificava em tudo. Demonstrando que se você roubar Pedro para pagar a Paulo, você pode contar com o apoio de Paulo, eles construíram um império político que estava se direcionando para a reeleição (de um jeito ou de outro) em 1952, até que aconteceu uma tragédia.

Eva foi diagnosticada com câncer do colo do útero em 1950. Um ano depois, acreditando que poderia superá-lo, optou pela vice-presidência, antes de desistir publicamente de concorrer com seu marido em 1952. Sua saúde rapidamente se deteriorou e em julho daquele ano, poucas semanas depois da bem-sucedida reeleição de Juan, morreu aos 33 anos. A "líder Espiritual da Nação" - um título oficial dado pelo marido - desaparecera. Na multidão enlutada para ver seu cadáver, oito pessoas morreram e vários milhares ficaram feridas. 

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O drama peronista não terminou com a morte de Eva. Enquanto se aguardava o enterro, o corpo desapareceu, só reaparecendo após 16 anos, depois de um longo período em uma cripta em Milão, na Itália. Com a economia cambaleando por causa da crescente inflação, corrupção e os controles estatais, Juan Domingo Perón foi derrubado em 1955. A ditadura militar que se seguiu baniu a posse de fotos dos Perón, bem como qualquer menção pública de seus nomes. 

Após 18 anos no exílio, Juan Domingo Perón retornou à Argentina em 1973, quando foi reeleito presidente pela terceira vez. Ele morreu no ano seguinte. Sua terceira esposa, Isabel, foi sua vice-presidente. Ela se tornou presidente após sua morte e ocupou o cargo por quase dois anos até um golpe militar em 1976. Aos 87 anos, Isabel ainda está viva. Em 1987, o túmulo de Juan foi profanado e em um crime ainda não resolvido, suas mãos foram cortadas com uma motosserra. Mais uma vez, não é brincadeira...

Provavelmente, você está pensando neste ponto que os Perón eram estranhos na vida e na morte. Você está certo. 

A ex-presidente argentina Cristina Kirchner gostava de ser retratada ao lado de imagens de Evita PeronAlejandro Amdan/Wikimedia Commons

O peronismo nunca desapareceu por completo na Argentina. O economista Nicholas Cachanosky, argentino nato e economista da Universidade Estadual Metropolitana de Denver (EUA), diz que “a figura de Evita Perón é hoje como um mito religioso: seu uso populista dos pobres permanece oculto por trás da falsa, mas forte imagem de um político dedicado. Ela desempenhou um papel importante na propaganda política que apoiou as ambições políticas de Juan Domingo Perón e sua ideologia está incorporada, de uma forma ou de outra, em quase todos os movimentos políticos na Argentina. Sua morte prematura contribui para sua imagem de uma mártir na luta de classes entre pobres e ricos ”. 

O legado dos Peróns e do peronismo é muito caro. E a Argentina ainda está pagando o preço. Ela é classificada como o 144° país, entre 180, no Índice de Liberdade Econômica, da Heritage Foundation, apesar dos esforços do governo recente para reverter os efeitos negativos de muitas políticas peronistas. Todo este dano poderia ter sido evitado se esta advertência de Friedrich Hayek , quando escreveu O caminho da sevidão na década de 1940, fosse ouvida: 

Tomar a direção da vida econômica de pessoas com ideais e valores amplamente divergentes é assumir responsabilidades que comprometem o uso da força; é assumir uma posição em que as melhores intenções não podem evitar que alguém seja forçado a agir de uma forma que, para alguns dos afetados, deve parecer altamente imoral. Isto é verdade inclusive se assumirmos que o poder dominante é tão idealista e altruísta quanto podemos conceber. Mas quão pequena é a probabilidade de que seja desinteressada e quão grandes são as tentações! 

Por causa de Juan e Eva Perón, décadas depois que eles saíram do poder, eu ainda choro pela Argentina.

* Lawrence W. Reed é presidente da Foundation for Economic Education

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