
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viajou nesta semana para o Oriente Médio. Na bagagem, uma agenda ambiciosa, com o declarado objetivo de auxiliar a mediação dos delicados conflitos na região. Um analista israelense e outro palestino, ouvidos pela reportagem, avaliaram em geral como positiva a atuação brasileira, mas notam limites claros para a empreitada.
"É sempre bom ter líderes de países como o Brasil para se envolver diplomaticamente na região", diz o analista palestino Mouin Rabbani, que já trabalhou para o International Crisis Group e vive em Amã, na Jordânia, uma das paradas de Lula. "Poucos líderes mundiais são respeitados pelos dois lados na região", lembra o israelense Gerald Steinberg, professor de Ciência Política na Universidade Bar Ilan, em Jerusalém.
A viagem da comitiva brasileira ocorreu em um momento tenso, na já turbulenta região. Em 9 de março, o Ministério do Interior de Israel anunciou que aprovou a construção de mais 1.600 casas no assentamento judaico de Ramat Shlomo, em Jerusalém Oriental. Os palestinos querem essa parte da cidade como capital de seu futuro Estado independente. Para piorar, o anúncio foi feito durante uma visita do vice-presidente dos EUA, Joe Biden, a Israel, gerando um mal-estar entre os tradicionais aliados.
Inegavelmente, Washington é o ator mais importante para mediar a paz entre israelenses e palestinos. O governo brasileiro não nega isso nem tem a ambição de substituí-los, afirmou o chanceler Celso Amorim nesta semana.
Na opinião de Rabbani, o Brasil "representa uma diferente abordagem" à questão, mais interessado em "temas concretos, como assentamentos".
"O Brasil é membro (temporário) do Conselho de Segurança (CS) da ONU, é uma potência emergente, que tem relações com todo o Oriente Médio", lista Rabbani. "O país pode, em teoria, ter um papel de mediador", acredita. Já Steinberg sugere que "todos devemos ser modestos". E complementa: "Lula não será um grande pacificador, isso é muito difícil. Seria uma falsa expectativa".
O professor israelense acredita, apesar disso, que o Brasil poderia ter atuação importante para facilitar um diálogo entre o mundo e o Irã. O regime iraniano está sob pressão internacional, por não desistir de seu programa nuclear.
Washington tem pressionado por uma nova rodada de sanções ao Irã no CS da ONU a nação persa já sofreu três delas , mas países como o Brasil e a China defendem mais diálogo com os iranianos para resolver o impasse. Autoridades israelenses não descartam, inclusive, um ataque militar contra instalações nucleares do Irã, enquanto o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, seguidamente ataca Israel.
Túmulo
O presidente brasileiro decidiu não visitar o túmulo do fundador do sionismo, Theodor Herzl. Depois disso, o chanceler israelense, Avigdor Lieberman, evitou se encontrar com Lula durante a estadia do líder em Israel.
Em entrevista à imprensa local, Lieberman admitiu que não se encontrou com Lula porque "não aceita" o fato de ele se recusar a visitar o túmulo de Herzl. Lieberman lembrou ainda que Lula visitaria, como fez, o túmulo do ex-líder palestino Yasser Arafat.
O analista israelense minimiza a divergência. "Lula falou no Knesset (Parlamento), foi muito bem recebido", nota Steinberg. "Lieberman não é uma figura central na política israelense, então esse ponto não deve ser exagerado."
O ministro das Relações Exteriores israelense é uma figura polêmica, bastante conservadora e que rejeita concessões aos palestinos. "Foi uma honra para Lula não ser recebido por Lieberman", ironiza Rabbani. "Eu ficaria desapontado com Lula se Lieberman achasse ele uma boa pessoa para receber", conclui o palestino.



