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Diplomacia

Ação de Lula pela paz é limitada

Analistas israelense e palestino destacam o respeito alcançado pelo presidente brasileiro no Oriente Médio, mas apontam dificuldades

Lula na chegada a Israel, antes da viagem que fez à Palestina e à Jordânia: presidente se apresenta como mediador da crise no Oriente Médio, mas encontra resistências | Jim Hollander/Reuters
Lula na chegada a Israel, antes da viagem que fez à Palestina e à Jordânia: presidente se apresenta como mediador da crise no Oriente Médio, mas encontra resistências (Foto: Jim Hollander/Reuters)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viajou nesta semana para o Oriente Médio. Na bagagem, uma agenda ambiciosa, com o declarado objetivo de auxiliar a mediação dos delicados conflitos na região. Um analista israelense e outro palestino, ouvidos pela reportagem, avaliaram em geral como positiva a atuação brasileira, mas notam limites claros para a em­­preitada.

"É sempre bom ter líderes de países como o Brasil para se en­­volver diplomaticamente na região", diz o analista palestino Mouin Rabbani, que já trabalhou para o International Crisis Group e vive em Amã, na Jordânia, uma das paradas de Lula. "Poucos líderes mundiais são respeitados pelos dois lados na região", lembra o israelense Gerald Steinberg, professor de Ciência Política na Universidade Bar Ilan, em Jeru­­salém.

A viagem da comitiva brasileira ocorreu em um momento tenso, na já turbulenta região. Em 9 de março, o Ministério do Interior de Israel anunciou que aprovou a construção de mais 1.600 casas no assentamento judaico de Ra­­mat Shlomo, em Jerusalém Oriental. Os palestinos querem essa parte da cidade como capital de seu futuro Estado independente. Para piorar, o anúncio foi feito durante uma visita do vice-presidente dos EUA, Joe Biden, a Israel, gerando um mal-estar entre os tradicionais aliados.

Inegavelmente, Washington é o ator mais importante para mediar a paz entre israelenses e palestinos. O governo brasileiro não nega isso nem tem a ambição de substituí-los, afirmou o chanceler Celso Amorim nesta semana.

Na opinião de Rabbani, o Brasil "representa uma diferente abordagem" à questão, mais interessado em "temas concretos, como assentamentos".

"O Brasil é membro (temporário) do Conselho de Segurança (CS) da ONU, é uma potência emergente, que tem relações com todo o Oriente Médio", lista Rabbani. "O país pode, em teoria, ter um papel de mediador", acredita. Já Steinberg sugere que "todos devemos ser modestos". E complementa: "Lula não será um grande pacificador, isso é muito difícil. Seria uma falsa expectativa".

O professor israelense acredita, apesar disso, que o Brasil poderia ter atuação importante para facilitar um diálogo entre o mundo e o Irã. O regime iraniano está sob pressão internacional, por não desistir de seu programa nu­­clear.

Washington tem pressionado por uma nova rodada de sanções ao Irã no CS da ONU – a nação persa já sofreu três delas –, mas países como o Brasil e a China defendem mais diálogo com os iranianos para resolver o impasse. Autoridades israelenses não descartam, inclusive, um ataque militar contra instalações nucleares do Irã, enquanto o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadi­­nejad, seguidamente ataca Israel.

Túmulo

O presidente brasileiro decidiu não visitar o túmulo do fundador do sionismo, Theodor Herzl. Depois disso, o chanceler israelense, Avigdor Lieberman, evitou se encontrar com Lula durante a estadia do líder em Israel.

Em entrevista à imprensa local, Lieberman admitiu que não se encontrou com Lula porque "não aceita" o fato de ele se recusar a visitar o túmulo de Herzl. Lieberman lembrou ainda que Lula visitaria, como fez, o túmulo do ex-líder palestino Yasser Arafat.

O analista israelense minimiza a divergência. "Lula falou no Knesset (Parlamento), foi muito bem recebido", nota Steinberg. "Lieberman não é uma figura central na política israelense, então esse ponto não deve ser exagerado."

O ministro das Relações Ex­­teriores israelense é uma figura polêmica, bastante conservadora e que rejeita concessões aos palestinos. "Foi uma honra para Lula não ser recebido por Lie­­berman", ironiza Rabbani. "Eu ficaria desapontado com Lula se Lieberman achasse ele uma boa pessoa para receber", conclui o palestino.

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