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Entrevista

“O problema é que Israel quer mais território”

Entrevista com Zaqaria Al-Qaq, vice-presidente da Universidade palestina Al-Quds, em Jerusalém

“Nós admiramos pessoas que vêm com boas intenções. Mas a realidade aqui é diferente, e desaponta qualquer um que chegue bem intencionado.” | Helena Carnieri/Gazeta do Povo
“Nós admiramos pessoas que vêm com boas intenções. Mas a realidade aqui é diferente, e desaponta qualquer um que chegue bem intencionado.” (Foto: Helena Carnieri/Gazeta do Povo)

Apesar da divulgação que o presidente Lula recebeu no Oriente Médio em seu giro pela região, na semana passada, líderes e intelectuais veem com reserva o esforço brasileiro para mediar negociações pela paz. Por melhores intenções que desembarquem no aeroporto internacional de Tel Aviv, o diálogo continua bloqueado por uma história de conflito milenar enraizada numa cultura de divisão.

A parcialidade é clara mesmo na academia. O vice-presidente da universidade palestina Al- Quds, de Jerusalém, Zaqaria Al-Qaq, cuja família remonta a 1.400 anos na região, é explícito em sua crítica à política territorial de Israel. O argumento de que os judeus compraram as terras que hoje detêm, por exemplo, ele classifica simplesmente como mentira.

Com experiência em conflitos – ele cobriu a primeira guerra en­­tre Irã e Iraque como jornalista e tem doutorado em estudos de guer­­ra –, Qaq é pessimista so­­bre um futuro acordo, dada a instabilidade das alianças na re­­gião, no mo­­mento em processo de rearranjo.

Para conversar com a Gazeta do Povo, em Jerusalém, ele escolheu um local neutro: o Instituto Notre Dame, que pertence ao Vaticano. Na entrevista, ele também dá sua visão sobre o que considera injustiças contra palestinos em Israel.

Existe futuro para a mediação brasileira pela paz no Oriente Médio?

Nós admiramos pessoas que vêm com boas intenções. Mas a realidade aqui é diferente, e desaponta qualquer um que chegue com boas intenções.

Como são escolhidos os parceiros para essa mediação?

Israel quer aprovação para ocupar mais terras; e gosta de pessoas que dão essa aprovação. Quem critica (essa posição) é considerado antissemita, o que também é feito para desencorajar novas críticas. É um rótulo fácil de colocar em qualquer um.

A crise com os EUA, instalada após o anúncio de novas construções em Jerusalém Oriental no dia em que o vice-presidente Joe Biden chegou ao país, atrapalha as negociações?

Os americanos têm apenas três questões neste momento: o Ira­­que, o Afeganistão e o desemprego.

O vínculo do Brasil com o Irã assusta pela ameaça nuclear?

O Irã não é uma república de ba­­nanas e está se tornando uma superforça regional. O país aparece em contextos diferentes: óleo, Iraque, armas nucleares e segurança do Golfo. E também está co­­nectado a atores como Hamas e Hezbollah.

Do outro lado, Israel ainda tem o apoio de Jordânia e Egito, com quem firmou acordo de paz.

Os países árabes perderam seu papel e não são mais participantes do conflito. Está havendo uma mudança de poderes, com Arábia Saudita, Egito e Jordânia deixando de ser participantes, envolvidos com suas questões internas, e novos poderes como Irã, Turquia e Síria. O grande problema é interno: os israelenses querem paz e terra. Precisam fazer uma escolha.

Os israelenses dizem que compraram as terras que hoje ocupam no país...

Quer dizer que vendemos a terra e agora estamos pedindo de volta? É claro que é uma mentira. Talvez tenham comprado parte da terra, mas não chega a 10%. E tomaram 70% do território.

Como funciona essa ocupação territorial, na visão dos palestinos?

Por exemplo, se um palestino mo­­ra em Jerusalém Oriental e pede o título de sua casa, ele simplesmente não o recebe. Depois de o território ser retirado da Jordânia (na Guerra dos 6 dias, em 1967), a área aumentou 12 vezes. Foram construindo, ergueram um muro e assentamentos além dele. Eles querem a terra sem as pessoas. Se os árabes viverem aqui será à margem, sem aspiração nacional, em cantões.

Em 1993, em Oslo, líderes da Autoridade Palestina e de Israel assinaram um acordo de negociação. Por que ele não funcionou?

Para ser sincero, foi o pior evento na história palestina. Foi pior do que 1948 (criação do Estado de Is­­rael), não porque sejamos contra a paz, mas porque demos tudo sem receber nada em retorno. Os líderes só assinaram porque estavam enfraquecidos e perdendo popularidade entre palestinos e no mundo árabe. Escolheram o acordo pela sobrevivência política.

A perda de influência contribuiu para a divisão entre os partidos palestinos Fatah e Hamas, tanto quanto a corrupção?

Não sei quem está aprendendo com quem neste país, com todos os escândalos de que os israelenses são alvo. Nosso problema foi o impacto da ocupação, não a divisão entre os palestinos.

E na sua esfera pessoal, existe co­­existência, ao menos na academia?

A universidade (onde trabalho) é palestina... os estudantes israelen­­ses não se matriculam. Mas há al­­guns professores israelenses.

O senhor sente perseguição em Israel?

Não pessoalmente, mas você sente que a lei é usada para perseguir. A lei e a Justiça foram costuradas para espremer os palestinos. Vá qualquer dia à prefeitura (de Je­­rusalém) e você verá como os pa­­lestinos recebem exigências jurídicas em relação a questões da vi­­da cotidiana. Os funcionários são muito duros e nunca resolvem os problemas. Por exemplo, um palestino tenta legalizar sua casa, mas passam-se 15 ou 20 anos sem que o processo tenha terminado.

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*A jornalista viajou a convite do governo de Israel.

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