
Apesar da divulgação que o presidente Lula recebeu no Oriente Médio em seu giro pela região, na semana passada, líderes e intelectuais veem com reserva o esforço brasileiro para mediar negociações pela paz. Por melhores intenções que desembarquem no aeroporto internacional de Tel Aviv, o diálogo continua bloqueado por uma história de conflito milenar enraizada numa cultura de divisão.
A parcialidade é clara mesmo na academia. O vice-presidente da universidade palestina Al- Quds, de Jerusalém, Zaqaria Al-Qaq, cuja família remonta a 1.400 anos na região, é explícito em sua crítica à política territorial de Israel. O argumento de que os judeus compraram as terras que hoje detêm, por exemplo, ele classifica simplesmente como mentira.
Com experiência em conflitos ele cobriu a primeira guerra entre Irã e Iraque como jornalista e tem doutorado em estudos de guerra , Qaq é pessimista sobre um futuro acordo, dada a instabilidade das alianças na região, no momento em processo de rearranjo.
Para conversar com a Gazeta do Povo, em Jerusalém, ele escolheu um local neutro: o Instituto Notre Dame, que pertence ao Vaticano. Na entrevista, ele também dá sua visão sobre o que considera injustiças contra palestinos em Israel.
Existe futuro para a mediação brasileira pela paz no Oriente Médio?
Nós admiramos pessoas que vêm com boas intenções. Mas a realidade aqui é diferente, e desaponta qualquer um que chegue com boas intenções.
Como são escolhidos os parceiros para essa mediação?
Israel quer aprovação para ocupar mais terras; e gosta de pessoas que dão essa aprovação. Quem critica (essa posição) é considerado antissemita, o que também é feito para desencorajar novas críticas. É um rótulo fácil de colocar em qualquer um.
A crise com os EUA, instalada após o anúncio de novas construções em Jerusalém Oriental no dia em que o vice-presidente Joe Biden chegou ao país, atrapalha as negociações?
Os americanos têm apenas três questões neste momento: o Iraque, o Afeganistão e o desemprego.
O vínculo do Brasil com o Irã assusta pela ameaça nuclear?
O Irã não é uma república de bananas e está se tornando uma superforça regional. O país aparece em contextos diferentes: óleo, Iraque, armas nucleares e segurança do Golfo. E também está conectado a atores como Hamas e Hezbollah.
Do outro lado, Israel ainda tem o apoio de Jordânia e Egito, com quem firmou acordo de paz.
Os países árabes perderam seu papel e não são mais participantes do conflito. Está havendo uma mudança de poderes, com Arábia Saudita, Egito e Jordânia deixando de ser participantes, envolvidos com suas questões internas, e novos poderes como Irã, Turquia e Síria. O grande problema é interno: os israelenses querem paz e terra. Precisam fazer uma escolha.
Os israelenses dizem que compraram as terras que hoje ocupam no país...
Quer dizer que vendemos a terra e agora estamos pedindo de volta? É claro que é uma mentira. Talvez tenham comprado parte da terra, mas não chega a 10%. E tomaram 70% do território.
Como funciona essa ocupação territorial, na visão dos palestinos?
Por exemplo, se um palestino mora em Jerusalém Oriental e pede o título de sua casa, ele simplesmente não o recebe. Depois de o território ser retirado da Jordânia (na Guerra dos 6 dias, em 1967), a área aumentou 12 vezes. Foram construindo, ergueram um muro e assentamentos além dele. Eles querem a terra sem as pessoas. Se os árabes viverem aqui será à margem, sem aspiração nacional, em cantões.
Em 1993, em Oslo, líderes da Autoridade Palestina e de Israel assinaram um acordo de negociação. Por que ele não funcionou?
Para ser sincero, foi o pior evento na história palestina. Foi pior do que 1948 (criação do Estado de Israel), não porque sejamos contra a paz, mas porque demos tudo sem receber nada em retorno. Os líderes só assinaram porque estavam enfraquecidos e perdendo popularidade entre palestinos e no mundo árabe. Escolheram o acordo pela sobrevivência política.
A perda de influência contribuiu para a divisão entre os partidos palestinos Fatah e Hamas, tanto quanto a corrupção?
Não sei quem está aprendendo com quem neste país, com todos os escândalos de que os israelenses são alvo. Nosso problema foi o impacto da ocupação, não a divisão entre os palestinos.
E na sua esfera pessoal, existe coexistência, ao menos na academia?
A universidade (onde trabalho) é palestina... os estudantes israelenses não se matriculam. Mas há alguns professores israelenses.
O senhor sente perseguição em Israel?
Não pessoalmente, mas você sente que a lei é usada para perseguir. A lei e a Justiça foram costuradas para espremer os palestinos. Vá qualquer dia à prefeitura (de Jerusalém) e você verá como os palestinos recebem exigências jurídicas em relação a questões da vida cotidiana. Os funcionários são muito duros e nunca resolvem os problemas. Por exemplo, um palestino tenta legalizar sua casa, mas passam-se 15 ou 20 anos sem que o processo tenha terminado.
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*A jornalista viajou a convite do governo de Israel.



