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Preços

As cinco maiores hiperinflações da história: e a Venezuela ainda não está na lista

A tragédia venezuelana, para a qual está projetada uma alta de 1.000.000% nos preços neste ano, ainda está longe do pior caso. Em julho de 1946, a inflação na Hungria chegou a 42 quatrilhões por cento

Homem conta nota de 1.000 bolívares para comprar verduras em mercado na periferia de Caracas | FEDERICO PARRA/AFP
Homem conta nota de 1.000 bolívares para comprar verduras em mercado na periferia de Caracas (Foto: FEDERICO PARRA/AFP)

Hiperinflações são eventos destrutivos. Que o diga a Venezuela, que, segundo estimativas do FMI poderá ter uma inflação de 1.000.000% neste ano, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Mas apesar de o número assustar, e muito, a alta nos preços no país vizinho não é a pior da história. Segundo o professor Steve Hanke, da Universidade John Hopkins, é “só” a 23° maior em 58 casos registrados. 

O recorde pertence à Hungria, entre 1945 e 1946. E mesmo países que hoje tem uma economia sólida, como a Alemanha, passaram pelo problema. Em outubro de 1923, os preços dobravam a cada 3,7 dias. 

Uma série de fatores contribuíram para causar essa situação caótica. A situação venezuelana tem similaridades com a do Zimbábue, um país do Sul da África, há quase dez anos: a desestruturação do sistema econômico, motivada por políticas de orientação populista. 

Outros casos, como o da Alemanha e da Hungria, a hiperinflação está relacionada ao pagamento de dívidas de guerra. E no caso da Iugoslávia e da República Sprska, no início dos anos 90, houve a emissão excessiva de dinheiro para beneficiar aliados e financiar o esforço de guerra. Quem acaba pagando a conta é a população, que fica empobrecida.

Hungria: um recorde que nenhum país quer

 O pior episódio de hiperinflação da história, segundo Steve Hanke, ocorreu na Hungria, imediatamente ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45). No ponto mais alto do fenômeno, em julho de 1946, os preços dobravam a cada 15 horas. Isto corresponde a uma taxa diária de aproximadamente 207%. Foram quase 42 quatrilhões por cento (o 42 seguido de 15 zeros). 

As raízes estão no final da Segunda Guerra Mundial. O regime do almirante Miklos Horthy era aliado dos alemães, mas o relacionamento não ia bem. As deportações de judeus para a Alemanha foram suspensas, o que desagradou Hitler. A consequência foi a invasão nazista em março de 1944, obrigando Horthy a nomear um governo que tivesse maiores vínculos com os alemães. Apesar de ter saído do comando direto, ele permaneceu como regente. 

Com as tropas soviéticas invadindo o país e diante da iminente derrota alemã, o regente tentou negociar uma paz em separado com os Aliados. A tentativa mostrou-se infrutífera e Horthy foi preso e deportado para a Alemanha. 

Esta série de eventos fez com que a Hungria tivesse um papel mais ativo no conflito mundial. Até então, a infra-estrutrura fora pouco afetada.Ocupada pelos soviéticos e sujeita aos bombardeios dos americanos, entre o final de 1944 e meados de 1945, o país foi devastado. Em 2000, os professores Peter Grossman e Janos Horvath, da Buttler University, calcularam que metade da capacidade industrial foi destruída. Ao todo, 90% foi afetada pela guerra. Na primavera de 1945, a produção de carvão tinha caído a 40% dos níveis pré-guerra e o de bauxita, matéria-prima do alumínio, a 1%. 

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A economia estava devastada. Os transportes não funcionavam. E 40% da capital, Budapeste, estava destruída. Ao assinarem a paz com os Aliados, os húngaros foram obrigados a pagar pesadas reparações de guerra aos soviéticos, que chegavam a comprometer até 50% do seu orçamento. 

A política monetária húngara foi assumida pela Comissão de Controle dos Aliados, formada essencialmente por soviéticos. Autoridades do BC húngaro alertaram que a emissão desenfreada de moeda não teria bons resultados. Os soviéticos não deram atenção, o que faz supor, segundo estudo de Bomberger e Makinen, publicado em 1983, que a hiperinflação foi desenhada com objetivos políticos: a destruição da classe média. 

Os húngaros também emitiram moeda para tentar reativar a economia, à medida que mantinham as taxas de juros bem baixas. O volume de dinheiro em circulação saltou de 25 bilhões de pengös, em julho de 1945, para 47 setilhões de pengös, um ano depois. 

A situação somente foi se estabilizar em agosto de 1946, com a implantação de uma nova moeda: o forint. Obviamente, o país foi obrigado a promover um enorme corte de zeros: quatrocentos octilhões de pengös – um número com 29 zeros – passaram a valer um forint. 

O preço da hiperinflação foi caro: os salários encolheram 80%, a pobreza aumentou e os credores perderam o que tinham emprestado 

 Zimbábue: o preço caro do populismo

Assim como na Venezuela, a hiperinflação no Zimbábue tem suas raízes na adoção de políticas econômicas de orientação populista. No final dos anos 90, o ditador Robert Mugabe implantou uma reforma agrária que expulsou os brancos de suas terras e substituiu por produtores rurais negros. O impacto para a economia foi grande, uma vez que muitos desses novos agricultores não tinham experiência ou receberam capacitação. A produção de alimentos despencou 45%. O ritmo de funcionamento das fábricas despencou violentamente e o desemprego chegou aos 80%. A violência política aumentos 

Os abusos de Mugabe levaram aos Estados Unidos e à União Europeia a imporem sanções contra o país. Ativos de figuras próximas ao ditador foram congelados. Estes também tiveram seus vistos cancelados. Foram estabelecidas restrições ao comércio com o Zimbábue. Ao mesmo tempo, dinheiro era emitido para pagar altos salários para militares e aos aliados de Mugabe. 

Gradualmente, a inflação foi aumentando, passando de 55,2%, em 2000, para 66.212,3%, em 2007. O pico foi em novembro de 2008, quando a inflação mensal atingiu, segundo estimativas de Hanke, a marca de 79,6 milhões por cento. Isto quer dizer que a taxa diária de inflação era de 98%. O tempo necessário para os preços dobrarem era de 24,7 horas. 

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A deterioração da situação era evidente e o governo de Mugabe tentou tomar “medidas paliativas”. Em 2007, decretou a ilegalidade da inflação, ameaçando com prisão quem aumentasse os preços. Executivos de empresas foram presos e o governo partiu para um congelamento. Obviamente, não deu certo. Entre 2006 e 2009 foram cortados 25 zeros da moeda local 

As pessoas foram gradualmente deixando de usar o dólar zimbabuano e passaram a usar outras moedas. O governo foi obrigado a ceder. No mês seguinte ao do pico da hiperinflação, o Banco Central do Zimbábue autorizou mil estabelecimentos comerciais a fazerem negócios em moeda estrangeira. Em janeiro, a população foi autorizada a usar três moedas: o dólar, o euro e o rand sul-africano. E também o Zimbábue parou de imprimir a sua própria moeda. 

Iugoslávia e República Srpska: financiando guerras contra os vizinhos

A Iugoslávia não tinha fama de ser um país estável economicamente nos 20 anos que antecederam ao surto hiperinflacionário. Segundo Steve Hanke, entre 1971 e 1991, os preços aumentavam, em media 76% ao ano. Foi a quarta maior inflação no período, perdendo apenas para o Zaire (atual República Democrática do Congo), Argentina e Brasil. As coisas pioraram no início do ano, quando o então primeiro-ministro Ante Markovic descobriu que o líder sérvio Slobodan Milosevic conseguiu uma autorização secreta para que o Banco Nacional Sérvio emitisse o equivalente a US$ 1,4 bilhão em dinares. 

O dinheiro foi, inicialmente, para os aliados de Milosevic e, posteriormente, para financiar o esforço de guerra, uma vez que a Iugoslávia estava se desintegrando. E, por causa dos ataques aos países vizinhos, a Iugoslávia passou a enfrentar um embargo, o que restringiu as suas exportações.

Milosevic tentou pagar todas as suas guerras por meio da emissão desenfreada de dinheiro, desencadeando o que é a terceira maior hiperinflação da história. A Casa da Moeda iugoslava chegou ao limite máximo de sua capacidade em janeiro de 1994, quando a inflação mensal atingiu 313 milhões por cento. Isto corresponde a 64,6% ao dia. Nesse ritmo, os preços aumentavam a cada 1,41 dia. E a maior cédula era a de 500 bilhões de dinares 

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Nesse período, a renda per capita encolheu 50%. A poupança em moeda forte da população foi exaurida. O mercado negro ganhou força e longas filas se formavam nos mercados estatais à procura de mercadorias escassas. Postos de combustíveis ficavam fechados durante a maior parte do tempo. 

Sem conseguir emitir dinheiro, o dinar entrou em colapso. Em janeiro de 1994, a Iugoslávia foi obrigada a criar um currency board, um sistema na qual uma moeda local é vinculada a uma estrangeira, neste caso, o marco alemão. No príncipio, a situação parecia funcionar. Mas, ao longo do tempo, o sistema foi apresentando “furos” e a inflação voltou, alta, porém em níveis mais civilizados. Entre janeiro de 1991 e abril de 1998, o dinar perdeu quase a totalidade de seu valor. Foram 18 desvalorizações e um festival de cortes de zeros da moeda: ao todo, foram 22. 

A situação só foi melhorar após o fim da Guerra do Kosovo (1998-9) e da saída de Milosevic do poder, em outubro de 2000, quando cedeu o poder a Vojislav KoÅ¡tunica. 

A hiperinflação registrada na Iugoslávia também contaminou a República Srpska, um proto-estado que existiu entre 1992 e 1995, e que hoje faz parte da Bósnia-Herzegovina. Ao esta declarar a independência,começou uma guerra civil. Os sérvios que habitavam a região constituíram a República Srpska, com forças militares próprias e moeda própria. Mas, durante a sua existência, conviveu com a hiperinflação, motivada pela necessidade de recursos para financiar o conflito armado. No pico da crise, em janeiro de 1994, a taxa diária de inflação era de 64,3%, o que fazia os preços dobrarem a cada 1,41 dia.

Alemanha: o caso clássico das hiperinflações 

Apesar de ser a quinta maior da história, o caso alemão é um “clássico das hiperinflações”. As raízes do problema estão na derrota na Primeira Guerra Mundial (1914-8) e as punições estabelecidas pelo Tratado de Versalhes. Além de perder colônias e outros territórios e ser obrigada a limitar as suas forças armadas, foi obrigada a pagar pesadas compensações aos vencedores e em moeda forte ou ouro. 

A alternativa que a Alemanha encontrou para cumprir o compromisso, a partir de junho de 1921, foi a emissão de marcos, a moeda da época, que eram usados para comprar moeda estrangeira a qualquer custo. Isto debilitou a moeda. Na primeira metade do ano seguinte, 320 marcos compravam um dólar. No final de 1922, a situação cambial tinha se deteriorado: 7.400 marcos compravam um dólar. 

A situação foi se complicando ao longo do ano seguinte. No outono de 1922, a Alemanha tornou-se incapaz de pagar as reparações de guerra. O marco não tinha nenhum valor. As indenizações começaram a ser pagas em bens, como carvão. Para complicar a situação, em janeiro de 1923, tropas belgas e francesas invadiram a Renânia, a principal região industrial alemã, para assegurar os pagamentos. E os trabalhadores da região fizeram uma greve geral. O resultado foi a explosão da inflação. 

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À medida que os alemães percebiam que sua moeda valia menos, eles gastavam com maior rapidez. Os trabalhadores recebiam diariamente. Na saída do trabalho saiam correndo para comprar o que encontrassem. E o número de bancos se multiplicava. No pico da hiperinflação, em outubro de 1923, segundo o estudo de Hanke, a taxa era de 20,9% ao dia, o que significa que os preços dobravam a cada 3,7 dias. 

Para garantir a estabilização, foi adotada uma estratégia ousada: todos os empréstimos ao governo foram cancelados. O estado foi separado rigorosamente da economia e uma estrutura bancária paralela foi montada. A moeda foi substituída e foi lastreada, inicialmente, em pães de centeio e, posteriormente, em ouro. A garantia eram financiamentos imobiliários em propriedades fundiárias e títulos de dívida da indústria alemã. Uma disciplina rigorosa sobre os gastos públicos foi implantada e proibiu-se que o Reichsbank, o BC alemão da época, pudesse emprestar dinheiro para o governo. 

O estabelecimento de uma paridade com o ouro e a combinação de medidas de política econômica contribuiu para serenar os ânimos, acalmar as tensões e assegurar a estabilidade econômica. Obviamente, a moeda foi trocada. Em novembro de 1923, foram cortados 12 zeros do marco, que deu lugar ao rentenmark.

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