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Não são poucos os governadores em segundo mandato — e que assim não podem concorrer ao mesmo cargo executivo novamente — que terão de suar a camisa para não deixar cair o bastão e conseguir fazer um sucessor nas eleições deste ano.
Para boa parte deles, a pré-campanha começa árdua por motivos diversos: por terem levado “bola nas costas” durante as movimentações políticas; por terem tido o grupo político “aniquilado” localmente por grandes operações policiais ou por enrosco na Justiça; por desatenção ou simplesmente por chegarem ao ano eleitoral mal avaliados pela população.
Se depender da balbúrdia política local ou das sondagens recentes sobre as intenções de voto, governadores de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte, para ficar apenas em alguns casos, vão que ter que trabalhar duro para manter a continuidade do próprio legado no berço político.
Sete deles, inclusive, decidiram não concorrer a nada em 2026 e ficar nos cargos para tentar defender a manutenção do Poder Executivo nas mãos de correligionários ou aliados próximos. Fátima Bezerra (PT), no Rio Grande do Norte; Wanderlei Barbosa (Republicanos), no Tocantins; e Paulo Dantas (MDB), em Alagoas, fazem parte da lista.
A relação conta, ainda, com Carlos Brandão (sem partido), no Maranhão; e Coronel Marcos Rocha (PSD), de Rondônia. É o caso também de Ratinho Junior no Paraná e de Eduardo Leite no Rio Grande do Sul, ambos do PSD de Gilberto Kassab. Os dois governadores dedicaram bastante energia à pré-campanha presidencial — foram colocados como possibilidades pelo partido — e teriam acabado descuidando do próprio quintal.
Ratinho Junior enfrenta base fragmentada
No Paraná, Ratinho Junior viu seu campo se desorganizar de tal forma que surpreendeu o mundo político ao anunciar de maneira precoce que não só desistiria da pré-campanha presidencial pelo PSD, como também não concorreria a nenhum cargo em outubro, mantendo-se no cargo de governador até dezembro.
A movimentação de Ratinho Junior é um reflexo direto da fragmentação de sua base. O governador do Paraná enfrenta o desafio de equilibrar as ambições de Rafael Greca, o bem avaliado ex-prefeito de Curitiba, que confirmou candidatura própria ao Palácio Iguaçu — sede do Executivo estadual — pelo MDB, após deixar o PSD de Ratinho Junior recentemente.
O atual vice-governador, Darci Piana, representaria uma continuidade administrativa natural, mas carece do mesmo apelo popular de massa. Apesar de ter sido mencionado por Ratinho Junior, principalmente no ano passado, como um possível nome, ninguém nunca acreditou de fato numa candidatura de Piana, empresário de 84 anos.
Outro aliado próximo de Ratinho Junior trabalhou nos últimos anos para tentar se consolidar como o nome escolhido pelo governador para buscar a sucessão: o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), Alexandre Curi. Com a demora do governador em anunciar o escolhido, Curi foi outro que saiu do PSD e seguiu rumo ao Republicanos.
Sem receber o apoio do governador — a ideia era que Curi e Greca formassem uma chapa — o presidente do Legislativo paranaense ainda teve que aceitar sair como pré-candidato ao Senado. A tarefa será árdua, porque há um congestionamento de nomes na briga pelas duas vagas que serão definidas nas urnas em outubro.
O preferido mesmo por Ratinho Junior era Guto Silva (PSD), amigo de longa data do governador e que, não por acaso, ficou responsável durante a gestão pela superpoderosa Secretaria das Cidades, que faz a ponte com prefeitos Paraná afora. Nessa profusão de vontades, até o nome do prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD) chegou a ser sondado internamente.
Mas se a desistência do projeto presidencial surpreendeu a todos, não menos surpresa causou o anúncio de Ratinho Junior do tão aguardado nome para disputar a sucessão estadual: o seu secretário estadual da Infraestrutura, Sandro Alex — este, aliás, está para Ratinho Junior assim como Tarcísio de Freitas (Republicanos) esteve para Jair Bolsonaro (PL).
"Fator Moro" desestabilizou grupo de Ratinho Junior
Para complicar o cenário, há o fator Sergio Moro (PL). O ex-juiz da Lava Jato e atual senador mantém um capital político resiliente na direita paranaense. A entrada de Moro na disputa estadual, anunciado como pré-candidato pelo PL com o apoio da família Bolsonaro, serviu como um elemento-chave de desestabilização para os planos de Ratinho Junior, que esperava uma transição mais controlada.
Na pesquisa mais recente sobre intenção de votos no estado, publicada pelo instituto Paraná Pesquisas no último dia 13, Sergio Moro lidera os quatro cenários estimulados com pelo menos 25 pontos percentuais de vantagem para os demais pré-candidatos.
Os pré-candidatos com maior potencial contra Moro são Rafael Greca (MDB) e Requião Filho (PDT). Foram 1,5 mil entrevistados pelo Paraná Pesquisas entre os dias 10 e 12 de abril de 2026, com margem de erro de 2,6 pontos percentuais (registro no TSE sob o nº PR-06559/2026).
Com Greca tentando se impor como candidato natural à revelia do governador depois de perceber que não teria vez com ele e deixar seu grupo político, Ratinho Junior tenta se equilibrar para evitar que o Paraná se torne um território hostil à sua hegemonia política.
Leite fica no cargo de governador até o fim do mandato
Pouco depois do governador paranaense, foi a vez de Eduardo Leite anunciar que também não renunciaria e ficaria no comando do estado gaúcho até o final do mandato, em dezembro. Ele desistiu da renúncia após ter sido preterido por Gilberto Kassab como possibilidade para uma chapa presidencial, em troca de Ronaldo Caiado.
A permanência de Leite no Palácio Piratini — sede do governo estadual — tem impacto direto na tática eleitoral do pré-candidato governista, o vice-governador Gabriel Souza (MDB), e do pré-candidato do PL, o deputado federal Luciano Zucco — que vai trabalhar para decidir a eleição gaúcha no primeiro turno.
Pela oposição, pela primeira vez desde a redemocratização do país, o PT não terá um candidato próprio ao governo do Rio Grande do Sul. A direção nacional decidiu intervir na articulação da executiva estadual, que pretendia lançar o ex-deputado estadual Edegar Pretto, e firmou apoio à pré-candidatura da ex-deputada estadual Juliana Brizola (PDT), neta do fundador do PDT e ex-governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola. Agora, Pretto é cotado para ser o vice na chapa de Juliana.
E no Rio de Janeiro?
No estado do Rio de Janeiro, o cenário para estas eleições é ainda mais confuso. Com o (ex) governador Cláudio Castro (PL) declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) após renunciar ao cargo para tentar manter viva a chance de concorrer ao Senado neste ano, sem vice de plantão no cargo — Thiago Pampolha (União Brasil), por sua vez, havia renunciado antes de Castro e assumido uma vaga no Tribunal de Contas do Estado — e com Rodrigo Bacellar (União Brasil), (ex) presidente da Assembleia Legislativa e terceiro na linha sucessória, afastado e preso por suspeita de vazar informações sobre operações contra o Comando Vermelho, o Rio de Janeiro vive dias de caos político e administrativo.
A situação é peculiar mesmo para o Rio de Janeiro, estado que acumula histórico de escândalos relacionados à gestão pública. Depois dos imbróglios locais, agora cabe ao Supremo Tribunal Federal (STF) decidir como vai ser resolvido o "pepino" de um mandato-tampão: se por meio de uma eleição indireta na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), ou uma eleição direta, via voto popular, a cerca de seis meses antes das eleições para governador do estado.
O julgamento no plenário da Corte Suprema foi interrompido na semana passada após quatro ministros votarem por eleições indiretas, com um pedido de vista do ministro Flávio Dino.
Sucessor de Zema, Matheus Simões tem o desafio de crescer na preferência do eleitorado
Em Minas Gerais, a situação do pré-candidato à Presidência da República e ex-governador Romeu Zema (Novo) não é mais confortável que a dos colegas. O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) lidera a corrida pelo governo, de acordo com a pesquisa AtlasIntel divulgada no dia 1º de abril.
Ele tem 32,7% das intenções de voto, contra 28,6% do também senador Rodrigo Pacheco (PSB), que ainda não confirmou a candidatura. No cenário sem ele, Cleitinho lidera com 40,5% contra 29,4% do ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PDT).
O atual governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), oscila entre o quarto e o terceiro lugares. A melhor votação dele é 11,5%, quando os entrevistados são informados de que ele seria apoiado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e por Zema – Simões assumiu o cargo após Zema renunciar para disputar o Palácio do Planalto. O PL, no entanto, filiou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, e cogita lançá-lo para o governo do estado.
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Governadora do PT não tem um sucessor natural com viabilidade junto ao eleitor
No Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT) também demonstra dificuldades com um sucessor no governo. Única governadora do PT reeleita no Nordeste em 2022, Fátima enfrenta um desgaste após anos de dificuldades fiscais crônicas no estado e um governo com baixa aprovação. A falta de um herdeiro natural com viabilidade eleitoral é o seu maior gargalo.
O Rio Grande do Norte tem um histórico de alternância no poder entre famílias tradicionais ligadas a diversos partidos da centro-direita e o PT, mas a gestão atual tem sofrido críticas severas pela condução de ações na área da segurança pública e na manutenção de rodovias. Seus principais aliados, como o ex-prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves, ou o atual vice-governador, Walter Alves (MDB), possuem agendas que nem sempre convergem com a militância petista.
Alves e Fátima romperam politicamente - tendo os secretários indicados por ele deixado o governo. O vice, inclusive, declarou apoio à pré-candidatura de Allyson Bezerra (União Brasil), prefeito de Mossoró, para o governo em 2026. Além dele, a oposição se articula em torno de nomes ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro e ao grupo político do senador Rogério Marinho (PL), fiel escudeiro do ex-presidente e um dos líderes da oposição no Senado.
Eleita governadora pela primeira vez em 2018, Fátima Bezerra se reelegeu em 2022 no primeiro turno com 58% dos votos válidos. Bezerra e Marinho lideram os cenários na disputa ao governo do Rio Grande do Norte em 2026, segundo pesquisa divulgada pelo instituto Real Time Big Data em dezembro. Foram ouvidas 1,2 mil pessoas entre os dias 1º e 2 de dezembro. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%.
No primeiro cenário testado, Alysson Bezerra tem 36% das intenções de voto, contra 34% de Rogério Marinho. Em seguida, aparece o secretário estadual da Fazenda, Cadu Xavier (PT), com 10%. Votos em branco e nulo somam 11%. Outros 9% não souberam ou não responderam.
No segundo cenário avaliado, sem a presença de Marinho, Alysson Bezerra tem ampla vantagem sobre os adversários, marcando 42%. Na sequência, surge o ex-prefeito de Natal Álvaro Dias (Republicanos), que assinala 17%. Cadu Xavier completa a lista com 11%. Votos em branco e nulo são 13%, enquanto 17% não souberam ou não responderam.
Disputas locais têm componente de imprevisibilidade, aponta estrategista político
Na avaliação do economista, professor e estrategista político Luis Carlos Burbano Zambrano, a transição de governadores para o Senado, no Brasil, costuma exigir três condições simultâneas: alta aprovação da gestão, avaliação positiva consolidada junto ao eleitorado e capacidade de manter controle político sobre sua base e alianças locais. Quando esses três vetores não estão alinhados, a migração para o plano nacional se torna arriscada, pois a fragilidade na sucessão estadual tende a contaminar a própria viabilidade eleitoral do governador.
O ciclo atual evidencia justamente esse descompasso: mesmo lideranças com bom desempenho administrativo enfrentam dificuldades crescentes para organizar a continuidade de seus grupos no poder. "O caso do Rio de Janeiro, com Cláudio Castro, é emblemático de um cenário de desgaste político e baixa capacidade de transferência de voto”, afirma Zambrano em entrevista à Gazeta do Povo.
"O ambiente estadual revela fragmentação, perda de coesão da base e presença de adversários competitivos, o que reduz significativamente sua influência sobre a sucessão e, por consequência, limita sua projeção para o Senado”, afirma o estrategista político, para além dos problemas de Castro com a Justiça Eleitoral.
"Já no Paraná, Ratinho Junior apresenta uma situação distinta, mas igualmente reveladora: mesmo com níveis elevados de aprovação, enfrenta a emergência de uma candidatura competitiva e autônoma como a de Sergio Moro”, diz Zambrano. "Esse caso demonstra que, no contexto atual, a aprovação de governo não é suficiente para garantir o controle da sucessão, sobretudo diante de figuras com capital político próprio e capacidade de mobilização eleitoral independente”, afirma.
Para o estrategista político, em conjunto, esses casos apontam para uma tendência mais ampla de enfraquecimento dos grupos políticos estaduais e de maior abertura e imprevisibilidade nas disputas locais.
















