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Vizinho de países que são aliados dos Estados Unidos e têm bases americanas nos seus territórios, o Irã é o pária da região do Golfo Pérsico há décadas, e uma reaproximação que vinha se ensaiando nos últimos anos foi interrompida pela atual guerra no Oriente Médio.
Em março de 2023, a Arábia Saudita, principal aliada dos Estados Unidos na região do Golfo e que já havia travado conflitos por procuração com o Irã, como no Iêmen, reatou relações diplomáticas com Teerã após sete anos de ruptura, em negociações intermediadas pela China.
Em novembro de 2024, outro sinal de reaproximação. O primeiro-ministro e príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammad bin Salman (conhecido como MBS), defendeu o Irã, ao afirmar que a comunidade internacional deveria “obrigar Israel a respeitar a soberania do Irã e não atacar territórios [iranianos]” – em referência a um ataque israelense que foi uma resposta a ofensivas diretas iranianas e dos grupos terroristas que Teerã apoia.
Em junho de 2025, em meio a uma guerra de 12 dias entre Israel e Irã, o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) criticou os ataques israelenses que desencadearam o conflito.
Em sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, o representante do Kuwait, o embaixador Nasser Al Hayen, falou em nome do grupo e alegou que a ofensiva israelense representava “uma violação flagrante do direito internacional, da Carta das Nações Unidas e das normas internacionais”.
Porém, veio a atual guerra no Irã – no momento, em um cessar-fogo de duas semanas. No conflito, o regime iraniano bloqueou o estratégico Estreito de Ormuz, por onde os países do Golfo escoam grande parte da sua produção de petróleo, e atacou os países vizinhos. Essas decisões acabaram com a vontade de buscar aproximação com o regime dos aiatolás.
Apesar da alegação iraniana de que visou apenas bases militares dos EUA nos países do Golfo Pérsico e locais para onde militares americanos foram realocados após ataques a essas instalações, houve vários registros de ataques e danos a prédios residenciais, hotéis, aeroportos, embaixadas, portos e instalações de energia no Bahrein, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes, provocando, além de danos econômicos, mortes de civis.
Em março, esses países, ao lado de Jordânia e dos Estados Unidos, divulgaram uma declaração na qual condenaram “veementemente os ataques indiscriminados e imprudentes com mísseis e drones” do Irã contra países da região.
“Esses ataques injustificados visaram território soberano, colocaram em risco populações civis e danificaram infraestruturas civis”, apontou o comunicado.
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Após as tentativas de reaproximação, MBS aparentemente se cansou do vizinho problemático: os jornais The New York Times e The Guardian informaram, citando fontes dos serviços de inteligência sauditas, que antes do cessar-fogo o príncipe herdeiro pediu ao presidente americano, Donald Trump, para que “intensificasse” a guerra contra o Irã, já que representaria uma “oportunidade histórica” para remodelar e estabilizar o Oriente Médio.
Na semana passada, após o anúncio da trégua, o governo dos Emirados Árabes afirmou que o Irã deve pagar pelos danos causados pelos ataques do regime de Teerã a países do Golfo Pérsico durante a guerra.
Em outro sinal de irritação com os iranianos, o Bahrein, que tem um histórico de perseguição a xiitas, ramo majoritário do islamismo no Irã, intensificou essa campanha, ao prender ao menos 280 pessoas nas últimas semanas, entre elas, Hassan Nowrooz, capitão da seleção nacional de basquete do país.
Países do Golfo Pérsico buscam alternativas contra o Irã, destaca analista
Para Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), os vizinhos do Irã no Golfo Pérsico reagem após os ataques iranianos terem acabado com a percepção de que eram países seguros e que a região era estável – preocupação que aumenta com a perspectiva de cobrança de pedágio dos navios que passam por Ormuz, anunciada por Teerã.
“A percepção dos países do Golfo sempre foi que o Irã era um vizinho difícil, mas era um vizinho com o qual se podia lidar. Quando o Irã começa a atacá-los, essa visão muda”, disse Teixeira Moita.
“Eles falam ao Irã que não têm nada a ver [com a disputa com EUA e Israel], que não atacaram o Irã, mas os iranianos entendem que esses países abrigaram os americanos que estão atacando [o regime], então, vão pagar o preço”, afirmou o analista.
O economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena disse que, diante das hipóteses “muito distantes” de uma mudança de regime ou de que este seja comandado por agentes menos radicais e dispostos a dialogar com os Estados Unidos, os vizinhos de Golfo Pérsico devem buscar alternativas para ficarem menos expostos à chantagem econômica em Ormuz e às agressões iranianas.
“A proteção dos Estados Unidos na região está fragilizada. Se os países do Golfo achavam que os Estados Unidos tinham capacidade de proteger todos esses agentes, eles não acreditam mais isso, tanto que estão avançando em negociações [na área de defesa] com outros países, como a Turquia e a China. A ideia é que precisam de mais proteção do que os Estados Unidos oferecem”, afirmou.
Na esfera econômica, a guerra reavivou debates para expandir gasodutos e oleodutos e “até sobre a possibilidade de fazer um canal para que os navios possam contornar o Estreito de Ormuz, entrando pelos Emirados Árabes”, destacou Lucena. “Há uma desconfiança muito grande em relação ao Irã, que dificilmente vai ser resolvida de uma maneira rápida”, afirmou.










