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Arquivo: Dois Super Hornets F-18E da Marinha dos EUA apoiam operações contra o Estado Islâmico no Iraque| Foto: Força Aérea dos EUA/AFP

Há pouco mais de um mês no comando da Casa Branca, o presidente Joe Biden ordenou nesta quinta-feira (25) a primeira ação militar de sua administração no exterior, enviando uma mensagem ao Oriente Médio, em especial ao Irã, sobre o que se deve esperar dos Estados Unidos sob seu governo e despertando tanto críticas quanto aplausos.

O Pentágono lançou ataques aéreos contra infraestruturas utilizadas por militantes apoiados pelo Irã em território sírio na noite passada, em resposta a ataques recentes contra forças dos Estados Unidos e aliados no Iraque, informou o porta-voz do Departamento de Defesa, John Kirby. “Estamos confiantes de que o alvo estava sendo usado pela mesma milícia xiita que conduziu os ataques", disse.

O número de mortes resultantes do bombardeio americano ainda é incerto. Fontes ligadas à milícia xiita disseram à imprensa local que uma pessoa morreu, enquanto que o Observatório Sírio para Direitos Humanos, uma ONG britânica que atua na Síria, afirma que 22 militantes foram mortos – a maioria membros do Hezbollah no Iraque (Kata’ib Hezbollah). “O número de mortos deve aumentar ainda mais, já que o ataque deixou vários milicianos feridos, alguns deles gravemente. Existem relatos não confirmados de mais vítimas”, disse o observatório na manhã desta sexta-feira (26).

De acordo com o Pentágono, os ataques enviam “uma mensagem inequívoca: o presidente Biden agirá para proteger o pessoal americano e da coalizão”. “Ao mesmo tempo, agimos de forma deliberada com o objetivo de desescalar a situação geral no leste da Síria e no Iraque”, disse Kirby.

Analistas consideram que o ataque foi limitado e que Biden poderia ter optado por uma resposta mais agressiva, mas ao não fazê-lo, potencialmente diminuiu o risco de que o bombardeio venha a aumentar a tensão na região. O fato de que o ataque atingiu o território sírio e não o iraquiano também foi considerado uma estratégia pertinente, de maneira que não piora as relações entre os Estados Unidos e o Iraque, onde estão estacionados 2.500 militares americanos. O Pentágono salientou que o ataque, perto da fronteira com o Iraque, no leste da Síria, foi uma "resposta militar proporcional", tomada "junto com medidas diplomáticas", incluindo consultas aos parceiros da coalizão.

A operação militar americana pode ser considerada uma mensagem ao regime iraniano. Por mais que a administração Biden já tenha expressado desejo de restaurar o acordo nuclear com o Irã, o bombardeio é um lembrete de que os Estados Unidos não vão permanecer passivos enquanto os aliados do Irã atacam suas posições na região.

Ao analisar o ataque sob a perspectiva das relações entre EUA e Irã, Hillary Mann Leverett, CEO da consultoria de risco político Stratega, disse à Al Jazeera que “o governo Biden está de fato tentando aumentar sua pressão e influência contra o Irã” e que isso de nada ajudaria para diminuir as tensões na região.

Por outro lado, Suzanne Maloney, pesquisadora do Instituto Brookings para Política Externa, disse no Twitter que o bombardeio foi “uma boa jogada” da administração Biden. “Isso demonstra que os EUA podem fazer as duas coisas ao mesmo tempo. A diplomacia nuclear pode (e deve) coexistir com a prontidão dos EUA para reagir contra os representantes iranianos que buscam prejudicar os americanos”.

Segundo a Reuters, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, falou com seu homólogo sírio horas depois dos ataques aéreos dos EUA. “Os dois lados enfatizaram a necessidade do Ocidente de aderir às resoluções do Conselho de Segurança da ONU com relação à Síria”, disse o site do governo iraniano Dolat.ir.

Críticas em casa

A operação também dividiu opiniões nos Estados Unidos. Houve quem questionasse a constitucionalidade da ação militar ou possíveis violações de leis internacionais. “Esses ataques são inconstitucionais e perigosos. Não há autoridade geral para um presidente lançar ataques aéreos, e o presidente Biden não afirmou que eles eram necessários para impedir um ataque iminente. Nossa Constituição exige que ele obtenha a aprovação dos representantes do povo”, disse justin Amash, advogado e ex-deputado dos EUA pelo Partido Libertário.

Críticas similares foram feitas às operações dos Estados Unidos no Oriente Médio durante a presidência de Donald Trump e são objetos de estudos e divergências no país. Diferentes gestões do Executivo – democratas e republicanos – defenderam a autoridade do presidente para lançar ataques sem autorização do Congresso, sob a justificativa de proteger vidas e interesses nacionais americanos no exterior. Embora a Suprema Corte dos EUA tenha decidido que o presidente tem o poder constitucional de defender a nação de um ataque armado ou insurreição dentro de suas fronteiras sem autorização do Congresso, não definiu até que ponto essa autoridade independente se aplica quando não houve um ataque repentino ao país.

Phyllis Bennis, pesquisadora no think tank americano de esquerda Institute for Policy Studies e que é a favor de uma retirada completa das tropas americanas do Oriente Médio, disse ao Vox que acredita que a decisão foi desnecessariamente "provocativa e perigosa". "É isso que 'América está de Volta’ significa?”, ela perguntou retoricamente, referindo-se ao slogan de campanha do democrata Joe Biden.

Se o número de mortos relacionados à operação aumentar, como prevê o Observatório Sírio, a decisão dos EUA será ainda mais questionada.

Apesar das críticas da esquerda – que rendeu até indireta da deputada progressista Ilhan Omar no Twitter – o presidente também recebeu apoio em casa. “Respostas como essa são um impedimento necessário e lembram ao Irã, seus representantes e nossos adversários ao redor do mundo que ataques aos interesses dos EUA não serão tolerados”, disse Michael McCaul, o principal deputado republicano no Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos EUA.

Como foi o ataque

Os ataques aéreos iniciaram por volta da uma da manhã de sexta-feira (horário local, 20h de quinta em Brasília), entre a cidade síria de Boukamal e cidade iraquiana de Qaim, atingindo infraestruturas utilizadas por milícias apoiadas pelo Irã no leste da Síria. Os alvos estavam localizados em um ponto de controle de fronteira usado por vários grupos militantes apoiados pelo Irã, como o Kait'ib Hezbollah e Kait'ib Sayyid al-Shuhada, que potencialmente servia como posto para operações de contrabando de armas. Um oficial do Pentágono disse ao site Politico que os caças americanos lançaram sete bombas de precisão de 500 libras em sete alvos e que todas as bombas atingiram seus alvos. De acordo com o Observatório Sírio, três caminhões que contrabandeavam munições foram atingidos.

Os militares americanos apresentaram ao presidente Biden uma série de opções de alvos para que os EUA respondessem aos ataques de milícias contra o complexo militar perto de Bagdad, que abriga as tropas americanas – um dos quais deixou um civil americano morto e pelo menos outras seis pessoas feridas. Biden, segundo a fonte do Pentágono ouvida pelo Politico, escolheu a opção “intermediária”, mas não se sabe quais seriam as alternativas.

O Kait'ib Hezbollah negou autoria pelos recentes ataques de foguete contra posições dos EUA no Iraque. Na verdade, um grupo militante obscuro chamado Awliya al-Dam (Guardiões do Sangue) assumiu a autoria do atentado. Mas autoridades iraquianas e ocidentais consideram que isso se trata de uma fachada para milícias já estabelecidas, para que possam realizar ataques sem serem responsabilizados.

"Nós sabemos o que atingimos", disse o secretário da Defesa dos EUA, Lloyd Austin, a repórteres. "Estamos confiantes de que esse alvo estava sendo usado pelos mesmos militantes xiitas que conduziram os ataques" em 15 de fevereiro contra a base americana.

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