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Brasil, uma colônia chinesa? Xi e Trump acirram disputa por influência sobre governo Lula

Bandeira do Brasil ao lado do brasão chinês no Grande Salão do Povo, em Pequim, durante visita de Lula ao ditador Xi Jinping em maio de 2025 (Foto: EFE/EPA/TINGSHU WANG / POOL)

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A disputa entre Estados Unidos e China por influência sobre o Brasil se intensificou e colocou o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no centro de um jogo geopolítico mais agressivo, em um contexto de eleições presidenciais que tende a ampliar tensões internas e externas. Nesse cenário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência, reacendeu o debate ao afirmar que o país estaria se tornando uma “colônia chinesa”.

Em entrevista à imprensa britânica na semana passada, ele afirmou que há uma crescente proximidade da gestão Lula com o regime de Xi Jinping e um consequente distanciamento em relação aos Estados Unidos. Flávio ainda disse que o Brasil poderia surgir como uma "solução" para reduzir a dependência dos EUA ao mercado chinês de terras raras e minerais críticos.

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O interesse dos investidores da China no Brasil cresceu nos últimos anos. O China Global Investment Tracker, mantido pelo think tank americano American Enterprise Institute, e um estudo do Conselho Empresarial Brasil China mostraram que o Brasil se tornou o segundo principal destino dos investimentos chineses no exterior, ficando apenas atrás da Indonésia.

Um relatório da Apex Brasil, do ano passado, estimou que o aporte de capital chinês no país até 2032 deve superar os R$ 27 bilhões.

Os Estados Unidos continuam sendo o país que mais investe diretamente no Brasil, somando US$ 244,7 bilhões em 2025 – 28% do total de investimento estrangeiro, segundo o Banco Central. No entanto, Pequim vem se mostrando uma forte concorrente, com projetos bilionários focados em infraestrutura, energia e tecnologia.

O ditador Xi Jinping ao lado de Lula durante visita oficial em Pequim no ano passado. Crédito: EFE/EPA/TINGSHU WANG / POOL (Foto: EFE/EPA/TINGSHU WANG / POOL)

China domina exportações brasileiras e amplia peso na economia

A relação sino-brasileira é marcada por uma forte dependência na pauta de exportação, com destaque para as commodities. Minério de ferro, soja e petróleo respondem por cerca de 80% das exportações brasileiras ao país asiático, que também é o principal destino dos produtos nacionais, absorvendo cerca de 30% do total exportado – enquanto os EUA ficam com cerca de 10%.

Em 2025, o comércio bilateral com a China atingiu um recorde de US$ 100 bilhões, representando quase metade do superávit comercial do Brasil no ano passado.

O economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena afirma que esse fluxo comercial tem impacto direto na economia brasileira, ajudando a sustentar as reservas internacionais e influenciando a política cambial. Ele destaca, porém, que, apesar do avanço dos investimentos chineses, os Estados Unidos ainda lideram em investimento direto no Brasil, evidenciando uma disputa ativa por influência.

A economista Ingridhe de Morais Magalhães, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), lembra que, em 2025, a demanda chinesa contribuiu para sustentar o volume exportado mesmo diante das tarifas americanas impostas por Trump para vários setores e países.

Governos Trump e Lula estão negociando acordos

A disputa entre China e Estados Unidos no Brasil vai além da economia e envolve também influência política. No último ano, Trump passou a adotar uma estratégia para conter a presença chinesa e russa na América Latina e, desde então, as duas potências intensificaram a disputa pela atenção do Palácio do Planalto.

Em janeiro, após a captura de Nicolás Maduro pelos EUA, o líder da China, Xi Jinping, ligou para Lula e defendeu a proteção dos “interesses comuns do Sul Global” e um papel conjunto de mediação em um cenário internacional “turbulento”.

O petista costuma alinhar seu posicionamento à narrativa chinesa, mas não deixou de abrir espaço para negociações com a gestão Trump, que vem pressionando o Brasil por acordos nas áreas de segurança e de minerais críticos.

Nesta sexta-feira (10), uma aproximação foi registrada. O ministro da Fazenda de Lula, Dario Durigan, anunciou que o Brasil firmará um acordo de cooperação com os EUA focado no combate ao tráfico de drogas e armas. A iniciativa, chamada MIT (Time de Interdição Mútua, em inglês), partiu de conversas entre Lula e Trump. Os países também estão conversando sobre uma proposta de cooperação no setor de minerais críticos.

Especialistas apontam que a disputa geopolítica pode aumentar a pressão dos Estados Unidos sobre o Brasil, com medidas como tarifas, endurecimento regulatório ou negociações mais duras, embora ações mais radicais sejam consideradas improváveis, segundo o professor Eduardo Galvão, do Ibmec Brasília. Alexandre Uehara, coordenador de Relações Internacionais da ESPM, acrescenta que uma tentativa de forçar alinhamento pode ter efeito contrário e aproximar ainda mais o Brasil da China, inclusive por meio do Brics.

EUA atuam com postura mais pragmática na economia, mas mantêm alerta sobre Lula

A postura de Washington de manter diálogo e tentar fechar acordos com Lula não invalida as divergências políticas com Brasília.

O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla original), ligado ao Tesouro americano, divulgou um novo relatório sobre uma investigação comercial em andamento contra o Brasil, no qual aponta práticas que descreveu como desleais. O documento cita o Pix, as vendas na rua 25 de março em São Paulo, bem como as tarifas de importação cobradas, descritas como "altas".

Além disso, o Departamento de Estado americano voltou a falar recentemente sobre o monitoramento da situação política e jurídica no país. Em nota ao Metrópoles, em 1º de abril, a Casa Branca afirmou que acompanha "com preocupação" decisões judiciais e do governo Lula que restringem a liberdade de expressão.

A declaração surgiu no mesmo dia em que o Comitê Judiciário da Câmara dos Representantes dos EUA divulgou um relatório sobre censura e guerra jurídica no Brasil, citando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Magalhães avalia que pode existir mais pressão e mais atrito entre EUA e Brasil devido à presença chinesa, mas não crê em uma campanha sistemática para prejudicar a economia brasileira. Segundo ela, a Casa Branca demonstrou em 2025 que usa coerção comercial mesmo sem justificativa econômica robusta, mas também mantêm interesses relevantes no Brasil com investidores, o que tende a limitar o apetite por ruptura.

"O cenário provável não é uma guerra comercial aberta, mas pressões pontuais em frentes específicas, tais como tarifas mais altas sobre produtos brasileiros em setores que Washington considere estratégicos, como aço, minerais críticos e tecnologia; resistência diplomática à participação de empresas chinesas em obras de infraestrutura, portos e redes de telecomunicações no Brasil".

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