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Brasil e Argentina atravessam o momento mais crítico de suas relações, desde a chegada do presidente Javier Milei à Casa Rosada, em 2023. O choque diplomático recente abre portas para um cenário que pode provocar mudanças na dinâmica bilateral e afetar até mesmo o funcionamento do Mercado Comum do Sul (Mercosul).
Embora analistas não prevejam impactos imediatos sobre acordos comerciais entre os dois países, visto que há uma profunda dependência de ambos nesse campo, a crise tem potencial de reconfigurar a forma como o bloco tem negociado nas últimas décadas.
Milei já expressou em diferentes ocasiões sua frustração com as atuais regras do Mercosul. Ele criticou a profunda burocracia e lentidão com que acordos são feitos dentro do bloco e chegou a ameaçar abandonar o bloco devido às divergências. Uma das mudanças defendidas pelo libertário é uma maior liberdade aos países integrantes para negociar seus próprios compromissos, tornando-o uma plataforma de livre comércio com menos normas e institucionalidade.
Por outro lado, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é favorável à manutenção do atual modelo de integração econômica regional e do fortalecimento institucional do bloco. Para o petista, o Mercosul funciona como uma espécie de armadura que protege os integrantes de disputas comerciais globais.
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Recentemente, a Argentina começou a testar os limites do bloco regional ao assinar acordos comerciais com os EUA, um dos principais aliados da gestão Milei e que tem pressionado o Brasil na esfera econômica.
O governo brasileiro rapidamente reagiu dizendo a representantes de Buenos Aires que a decisão de flexibilizar as regras poderia gerar "distorções" no Mercosul e criar "barreiras regulatórias" para produtos produzidos no bloco.
O professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) João Alfredo Lopes Nyegray avalia que a postura adotada por Milei reforça sua imagem como parceiro preferencial da Casa Branca na América do Sul, ao mesmo tempo em que Washington endurece sua postura em relação ao governo Lula.
Para o internacionalista, essa erosão institucional enfraquece toda a integração sul-americana.
"Os presidentes deixam de conversar, os chanceleres reduzem o diálogo político, projetos conjuntos deixam de avançar, o Mercosul perde capacidade estratégica e questões comerciais passam a ser resolvidas apenas pela burocracia técnica".
Dessa forma, segundo o professor, o prejuízo da relação estremecida entre os países poderá aparecer no médio prazo com um Mercosul mais paralisado, com menor coordenação regional e perda de capacidade conjunta justamente em um momento de crescente competição geopolítica global.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, avalia que a extensão do conflito bilateral para o campo das sanções tarifárias ou do bloqueio de acordos no âmbito do Mercosul cobraria um alto preço para ambos os países, atingindo em cheio os setores industriais que dependem das cadeias produtivas regionais.
Hoje, o Brasil figura como o principal parceiro comercial da Argentina, enquanto a Argentina é listada como o terceiro principal parceiro comercial do Brasil. Dados do Ministério do Desenvolvimento apontam que os países movimentaram US$ 13,75 bilhões em importações e exportações somente no primeiro semestre de 2026.
As divergências ideológicas e a polarização política na região já têm afetado a tomada de decisão coletiva dentro do bloco. Apesar de o governo argentino não ter travado o funcionamento prático de acordos comerciais no Mercosul, até o momento, Milei já impediu que declarações conjuntas de cúpula alcançassem um consenso entre os países-membros.
O caso mais emblemático ocorreu em uma das cúpulas realizadas no Paraguai, em 2024. Na ocasião, a delegação argentina rejeitou os termos da declaração final por se opor a trechos que mencionavam a Agenda 2030 da ONU, questões de diversidade e políticas climáticas.
Milei disputa espaço de Lula na América do Sul
A crise mais recente entre os líderes vizinhos também sinaliza que o argentino busca um protagonismo na América do Sul e tem aproveitado o desgaste externo e crescente isolamento de Lula para ocupar esse espaço anteriormente exercido pelo Brasil.
O crescimento da direita na região é outro ponto que pode favorecer a estratégia de Milei para avançar com as mudanças estruturais que propôs para o bloco.







