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Xinjiang
Imagem ilustrativa. Cidade de Kashgar, em Xinjiang, China| Foto:

A China tem capacidade construída para prender mais de um milhão de pessoas em Xinjiang ao mesmo tempo, informou o BuzzFeed News, após uma ampla investigação jornalística sobre centros de detenções construídos na província, onde há uma grande concentração de muçulmanos da etnia uigur, nos últimos cinco anos.

A reportagem chegou a esta conclusão depois de analisar imagens de satélites de mais 347 complexos de prisão ou os chamados “centros de reeducação” que foram construídos desde 2016, quando a China iniciou sua campanha para prender uigures, que vivem, majoritariamente, na província do noroeste do país. Juntas, estas unidades prisionais têm cerca de 19,2 quilômetros quadrados.

Para calcular quantos detidos esses presídios poderiam abrigar, o BuzzFeed News analisou documentos públicos que estabelecem, detalhadamente, os padrões de construção destes lugares. Considerando que as celas geralmente acomodam entre 8 e 16 presidiários, a reportagem concluiu que há espaço para deter 1.014.883 pessoas em Xinjiang. Esse número, porém, não inclui as mais de 100 outras prisões e centros de detenção que foram construídos antes de 2016 e provavelmente ainda estão em operação.

“Isso é espaço suficiente para deter ou encarcerar mais de 1 em cada 25 residentes de Xinjiang simultaneamente – um número sete vezes maior do que a capacidade de detenção criminal dos Estados Unidos, o país com a maior taxa de encarceramento oficial do mundo”, afirma a reportagem, acrescentando que a campanha de prisões de uigures na China em Xinjiang é a maior adotada contra uma minoria religiosa desde os campos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

Não se sabe quantas pessoas estão detidas em Xinjiang, mas houve um salto no número de prisões em 2016 e 2017. Em 2019, o número de detenções realizadas foi de mais de 63 mil. Houve uma queda em relação aos anos anteriores, mais ainda assim, o número é duas vezes maior do que quando a repressão aos uigures começou. Segundo a reportagem, um novo complexo de detenção está atualmente em construção e quatro dos existentes estão adicionando novos prédios, permitindo que o governo coloque ainda mais pessoas atrás das grades.

Uma visita ao centro de detenção de Urumqi

Repórteres da Associated Press puderam conhecer recentemente, em uma visita guiada, um desses centros de detenção, localizado no distrito de Dabancheg, em Xinjiang.  O complexo se estende por quase 90 hectares, uma área duas vezes maior que o Vaticano, e é considerado o maior da China – e quiçá do mundo.

As autoridades não informaram quantas pessoas estavam presas neste centro de detenção provisório. Os repórteres estimaram que, pelo menos, há capacidade para 10 mil prisioneiros, mas que o número poderia ser muito maior em uma situação em que estivesse lotada, segundo análise de imagens de satélite do complexo e do que eles  observaram durante a visita.

De acordo com a reportagem, este era um dos centros de “reeducação” do regime, mas que foi convertido em prisão posteriormente. “As mudanças parecem ser uma tentativa de passar dos ‘centros de treinamento’ improvisados e extrajudiciais para um sistema mais permanente de prisões e centros de detenção provisória que teriam respaldo na lei”, diz a AP. Porém, muitos uigures continuaram presos.

Relatos de uigures e documentos vazados mostram que alguns foram presos por terem viajado para um país de maioria muçulmana, como a Turquia, ou por participar de encontros religiosos.

Um empresário do ramo da construção que prestou serviços para o governo chinês disse à AP que esteve no centro de detenção em 2018, quando o local era chamado de “centro de treinamento”. Segundo ele, o nome foi trocado no ano seguinte, e os uigures “estudantes” passaram a ser prisioneiros.

A China nega que as prisões sejam baseadas em questões religiosas e defende a repressão aos uigures como uma guerra contra o terrorismo no país. O representante chinês que acompanhou a visita da AP no Centro de Detenção de Urumqi Nº 3, o diretor do Departamento de Segurança Pública de Urumqi, Zhao Zhongwei, também afirmou que não há qualquer relação entre o centro de detenção e os centros de treinamento. “Nunca houve um [centro de treinamento] por aqui”, disse ele, de acordo com a reportagem.

Mas, além do relato do construtor chinês, a agência de notícias Reuters fez uma foto do mesmo lugar, em 2018, que indicava que ali estava instalado o “Centro de Formação e Educação Profissional de Urumqi”.

Durante a visita, os jornalistas da Associated Press, primeiro veículo jornalístico internacional a ter acesso ao interior da penitenciária, não testemunharam quaisquer sinais de tortura ou espancamento nas instalações – eles não puderam falar diretamente com nenhum ex ou atual detento. Mas uigures que já estiveram presos lá e que depois conseguiram fugir do país disseram que foram vítimas ou que ouviram relatos de que ocorriam torturas no local. Esses relatos são difíceis de verificar de forma independente, e as autoridades de Xinjiang negam todas as alegações de abuso.

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