
Agências de inteligência globais, como o FBI e órgãos europeus, estão comprando dados pessoais de empresas de publicidade para monitorar celulares e rotinas sem autorização judicial. A prática usa o sistema de anúncios da internet para contornar proteções constitucionais à privacidade.
Como as informações pessoais chegam às mãos dos espiões?
Tudo começa nos leilões de anúncios em tempo real. Quando você abre um site ou aplicativo, seus dados de localização e comportamento são enviados a várias empresas para decidir qual propaganda exibir. Corretoras de dados coletam essas informações expostas e as revendem em massa para agências de inteligência. Esse setor é chamado de Adint (inteligência publicitária) e transforma rastreamento comercial em ferramenta de espionagem estatal.
O que as agências podem descobrir sobre a vida das pessoas?
Embora os dados pareçam anônimos por usarem códigos numéricos, é possível identificar os donos dos aparelhos cruzando-os com outros cadastros. Com o histórico de localização acumulado por meses, agentes conseguem descobrir onde você mora, trabalha, quais igrejas frequenta, suas preferências políticas e até com quem você se encontra. Quando combinada com inteligência artificial, essa análise se torna automática e em escala gigantesca.
Por que governos compram esses dados em vez de pedir à Justiça?
A estratégia serve para driblar a necessidade de um mandado judicial. No modelo tradicional, a polícia precisa provar um crime a um juiz para rastrear um celular via operadora. No mercado privado, porém, os dados são considerados 'comercialmente disponíveis'. Como o governo está apenas comprando um produto no mercado especializado, a prática entra em uma zona cinzenta da lei, o que permite a vigilância em massa sem fiscalização do Poder Judiciário.
Qual o papel da inteligência artificial nesse monitoramento?
A inteligência artificial é o motor que potencializa essa vigilância. Antigamente, seria humanamente impossível analisar bilhões de registros de milhões de pessoas. Agora, algoritmos conseguem filtrar esses bancos de dados instantaneamente para encontrar padrões de comportamento e apontar deslocamentos prováveis e relações entre indivíduos. Empresas como a Anthropic já alertaram que essa tecnologia permite criar um retrato detalhado da vida de qualquer cidadão.
Existem tentativas legais de barrar essa prática?
No Congresso dos Estados Unidos, parlamentares de diferentes partidos tentaram restringir essas compras por meio de reformas em leis de vigilância, como a FISA. No entanto, houve resistência da Casa Branca e da liderança da Câmara, sob o argumento de que a inteligência é valiosa para a segurança nacional. Na Europa, a situação é similar: a regulação é escassa ou inexistente, e agências chegam a usar empresas de fachada para ocultar o interesse nessas aquisições.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.





