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Banco dos Brics

Como Dilma está ajudando a Rússia a contornar sanções do Ocidente

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A ex-presidente Dilma Rousseff, que lidera o Banco dos Brics, durante encontro em maio com o ditador russo, Vladimir Putin, em Moscou. (Foto: EFE)

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No último dia 11, a ex-presidente Dilma Rousseff, atual presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco dos Brics, se reuniu com o ditador russo Vladimir Putin e afirmou que a instituição encontrou um “caminho” para retomar as operações com a Rússia, suspensas desde 2022 após a invasão da Ucrânia.

Na ocasião, Dilma classificou como uma “profunda injustiça” a situação enfrentada pela Rússia dentro do banco e afirmou que o país sempre desempenhou um papel decisivo e agiu com “integridade perante a instituição”. “Infelizmente, por diversas razões, as coisas aconteceram como aconteceram. Mas agora, parece-me, encontramos o caminho certo para corrigir essa injustiça”, disse a ex-presidente.

Desde que Dilma assumiu o comando do Banco dos Brics, em abril de 2023, a instituição intensificou sua estratégia de financiamento em moedas locais, passou a desenvolver ainda mais instrumentos destinados a reduzir sua dependência dos grandes centros financeiros tradicionais e, agora, começou a buscar uma fórmula para voltar a financiar projetos russos sem expor o próprio banco aos riscos das sanções ocidentais.

Em maio, autoridades russas já haviam anunciado que Moscou e o Banco dos Brics tinham encontrado “soluções” para retomar o financiamento de projetos no país. Na ocasião, o ministro das Finanças da Rússia, Anton Siluanov, disse que tais mecanismos foram desenhados para “minimizar” os riscos da relação com Moscou e poderiam movimentar “bilhões de dólares”.

“Encontramos soluções mutuamente aceitáveis que minimizam os riscos da interação do Novo Banco de Desenvolvimento com a Federação Russa [...] e, por outro lado, satisfazem a posição da Rússia sobre cooperação financeira”, declarou Siluanov.

A fala de Siluanov ocorreu durante uma entrevista coletiva ao lado de Dilma, depois da reunião anual da instituição realizada em Moscou. Segundo o ministro russo, os mecanismos discutidos seriam incorporados tanto à nova estratégia do banco quanto às suas operações financeiras correntes. Ele não revelou os detalhes da solução.

Embora nenhuma das partes não tenham revelado como essa nova estrutura funcionará, uma das alternativas que pode fazer parte da solução é justamente o maior uso de moedas locais nos financiamentos do banco, estratégia que Dilma vem ampliando desde que assumiu a liderança da instituição.

Na prática, isso permite que o banco levante e empreste dinheiro em moedas como yuan, rupia ou rublo, sem precisar transformar toda a operação em dólar. Com isso, parte do dinheiro pode circular sem passar por bancos e sistemas ligados aos Estados Unidos, sobre os quais Washington tem maior capacidade de bloquear transações e aplicar sanções.

Para países submetidos a sanções, como a Rússia, essa possibilidade é especialmente relevante porque parte importante do poder das restrições financeiras ocidentais decorre do peso do dólar, dos bancos ocidentais e da infraestrutura utilizada para movimentar dinheiro internacionalmente.

Em 2024, já sob o comando de Dilma, 43,5% do valor dos financiamentos aprovados pelo Banco dos Brics já estavam em moedas dos países integrantes, principalmente yuan e rand sul-africano. Em 2025, a participação chegou a quase 46% das novas aprovações. O banco também concedeu, durante a gestão da petista, seu primeiro empréstimo em yuan para um projeto localizado fora da China.

O uso de moedas locais não elimina, por si só, uma sanção nem torna determinada operação imune às restrições impostas pelos Estados Unidos ou pela Europa, mas reduz a necessidade de passar por alguns dos canais sobre os quais esses países possuem maior influência e controle.

Na reunião anual da instituição em Moscou, Dilma defendeu a ampliação das emissões em moedas locais e a busca por fontes mais diversificadas de recursos. Segundo ela, a estratégia permitiria ao Banco dos Brics reduzir sua dependência dos grandes centros financeiros internacionais e dos instrumentos tradicionais de financiamento. Ela disse ainda que, no próximo ciclo estratégico da instituição, entre 2027 e 2031, a meta será realizar entre 40% e 50% dos financiamentos em moedas dos próprios países integrantes.

Estrutura defendida por Dilma amplia margem de manobra de Moscou sobre sanções

Para a Rússia, as alternativas defendidas por Dilma no Banco dos Brics ajudam a contornar justamente um dos principais efeitos das sanções do Ocidente: a dificuldade de movimentar recursos e obter financiamento por meio de bancos, moedas e sistemas financeiros internacionais.

O think tank Atlantic Council chegou a essa conclusão ao fazer uma análise sobre a infraestrutura financeira alternativa que vem sendo desenvolvida pelos Brics.

Segundo o think tank, projetos destinados a ampliar pagamentos transfronteiriços podem permitir que determinadas transações sejam liquidadas sem passar pelo sistema financeiro liderado pelos Estados Unidos. A análise afirma que esses mecanismos podem oferecer a países como a Rússia formas de escapar do alcance de determinadas sanções e, consequentemente, reduzir a eficácia das ferramentas de pressão econômica americanas.

Alexander Gabuev, diretor do think tank Carnegie Russia Eurasia Center, escreveu em análise publicada pelo Carnegie Endowment em março de 2025 que Moscou passou a enxergar os Brics nos últimos anos como um espaço para desenvolver ferramentas de comércio, investimento e financiamento fora das estruturas dominadas pelos Estados Unidos, especialmente aquelas baseadas no dólar.

Nesse contexto, o pesquisador aponta o Banco dos Brics, presidido por Dilma, como uma das instituições que Moscou busca fortalecer, ao lado da ampliação do uso de moedas nacionais, para tornar esses instrumentos mais resistentes às sanções americanas.

Nesse sentido, a estratégia conduzida por Dilma no comando da instituição oferece justamente o tipo de alternativa que Moscou vem buscando desde o início da guerra: dispor de outros caminhos para manter operações financeiras quando o acesso aos canais tradicionais estiver restringido, como está agora.

Putin teve papel decisivo na permanência de Dilma no comando do Banco dos Brics. Pelo sistema de rodízio da instituição, caberia à Rússia indicar o presidente para o mandato seguinte, que começaria em 2025, mas Moscou abriu mão de apresentar um nome próprio e defendeu a continuidade da brasileira no comando do banco por mais cinco anos.

Na ocasião, Putin afirmou que não queria transferir para o banco os “problemas” enfrentados pela Rússia em razão da guerra e das sanções. Meses depois, em março de 2025, Dilma foi reconduzida ao cargo pelo Conselho de Governadores por unanimidade para um novo mandato.

Banco dos Brics pode entrar na mira de sanções do Ocidente

Contudo, a tentativa de Dilma de devolver à Rússia acesso aos financiamentos do Banco dos Brics pode acabar colocando a instituição na mira das sanções ocidentais. Isso porque, apesar de buscar alternativas ao sistema financeiro dominado pelos Estados Unidos e seus aliados, o banco ainda depende desses mercados para captar parte dos recursos usados em seus financiamentos.

O banco emite títulos de dívida para investidores internacionais e também mantém bilhões de dólares depositados em instituições financeiras ao redor do mundo, inclusive em centros financeiros que possuem relações com o Ocidente. Seu programa internacional de emissão de títulos, de até US$ 50 bilhões, está listado na Bolsa de Londres e na Nasdaq Dubai, e a instituição ainda recorre a emissões em dólar para levantar recursos no mercado.

Em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, a Fitch rebaixou a nota de crédito do Banco dos Brics de AA+ para AA e colocou a instituição sob perspectiva negativa. Entre as preocupações estava o risco de que os vínculos com a Rússia dificultassem o acesso do banco aos mercados de capitais e a instituições financeiras dos Estados Unidos. Naquele mesmo ano, o próprio banco suspendeu novas operações no país em meio à onda de sanções aplicadas pelos Estados Unidos, União Europeia e outros governos contra Moscou.

Desde então, o banco conseguiu recuperar parte desse acesso. Em maio deste ano, a Fitch manteve a nota AA e elevou a perspectiva para positiva, destacando que a instituição havia restabelecido um histórico de fortes emissões de títulos em dólar. A instituição também mantém nota AA+ da S&P e continua recorrendo aos mercados internacionais para levantar recursos.

Uma retomada dos financiamentos à Rússia, porém, pode colocar esse equilíbrio em teste. O simples fato de o banco financiar projetos russos não significa que a instituição esteja sujeita a sanções, contudo, o risco aumenta caso as novas operações envolvam bancos, empresas ou pessoas sancionadas, ou sejam consideradas pelas autoridades americanas como mecanismos para contornar restrições impostas a Moscou.

O Tesouro dos Estados Unidos mantém a possibilidade de aplicar sanções a instituições financeiras estrangeiras envolvidas em determinadas operações com entidades russas bloqueadas ou em atividades destinadas a facilitar a evasão das medidas contra o país. Para o Banco dos Brics, uma eventual restrição poderia atingir justamente um dos pilares de seu modelo: a capacidade de captar dólares e outros recursos nos mercados financeiros internacionais.

Dilma também quer inserir o Irã no Banco dos Brics

Em agosto, Dilma se reuniu em Jaipur, na Índia, com Abdolnaser Hemmati, presidente do Banco Central iraniano, para discutir a entrada do país no Banco do Brics. Segundo o iraniano, a ex-presidente classificou a participação do Irã na instituição como importante e destacou o potencial do país para ampliar a cooperação regional e internacional do banco. As duas partes concordaram em continuar as negociações técnicas para a adesão iraniana e para o futuro acesso de Teerã às linhas de financiamento da instituição.

Hemmati afirmou no mesmo encontro dos Brics que o bloco precisava transformar sua cooperação política em mecanismos financeiros concretos. Entre as medidas defendidas por ele estavam a integração dos sistemas de pagamentos dos países integrantes, a ampliação do uso das moedas nacionais e a redução dos custos e riscos das transações internacionais.

A aproximação ocorre justamente quando o Irã procura ampliar seus canais financeiros fora do sistema baseado no dólar. Segundo a Reuters, Teerã vê a entrada no Banco dos Brics como mais uma alternativa num momento em que continua submetido a amplas sanções dos Estados Unidos e de outros países.

Caso o Irã seja aceito e passe a ter acesso aos financiamentos do banco, poderá recorrer justamente à estrutura que Dilma vem tentando ampliar: empréstimos em moedas nacionais e captação por canais menos dependentes do sistema financeiro tradicional baseado no dólar. Isso poderia reduzir a dependência iraniana de alguns dos canais financeiros sobre os quais Washington exerce maior influência, a mesma lógica que torna a expansão das moedas locais e das alternativas financeiras do Brics especialmente relevantes para a Rússia.

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