
Pibor, Sudão do Sul - A trilha de corpos começa a cerca de 275 metros do portão de metal ondulado do complexo da ONU e se estende por quilômetros, mato adentro.
Há um homem deitado de costas, uma jovem com as pernas abertas e a saia amarrotada em volta do quadril, e uma família inteira marido, mulher e duas crianças , todos de bruços sobre a grama pantanosa, executados juntos. Ninguém sabe ao certo quantas centenas de cadáveres se encontram espalhados pela savana.
O Sudão do Sul, nascido há alguns meses em meio a muitas comemorações, está mergulhando em um mar de violência. Amargas tensões étnicas, que haviam sido deixadas de lado para que se conseguisse atingir a independência, estouraram em um ciclo de massacres e vinganças que nem o governo, apoiado pelos Estados Unidos, nem a ONU conseguem impedir.
Os Estados Unidos e outros países ocidentais investiram bilhões de dólares no Sudão do Sul, esperando que o país conseguisse superar sua história fortemente marcada por pobreza, violência e divisões étnicas para emergir como um país estável e com um bom relacionamento com o Ocidente, dentro de uma região de instabilidade.
No entanto, milícias fortemente armadas do tamanho de pequenos exércitos agora estão atacando vilarejos e pequenas cidades impunemente, muitas vezes com intenções abertamente genocidas.
Oito mil guerrilheiros invadiram a cidadezinha de Pibor, no meio de uma vasta extensão de terra, destruindo casebres, incendiando celeiros, roubando centenas de milhares de cabeças de gado e metodicamente assassinando centenas, ou talvez milhares, de homens, mulheres e crianças que se escondiam no mato.
Os saqueadores até anunciaram seus planos de massacre com antecedência.
"Decidimos invadir as terras dos murle e apagar a sua tribo inteira da face da terra", alertaram os atacantes, de um grupo étnico rival, em um pronunciamento público.
A ONU, que conta com 3 mil soldados das tropas de paz prontos para o combate no Sudão do Sul, acompanhou, de helicóptero, os passos dos guerrilheiros durante dias antes do massacre e enviou 400 soldados para o local. Mas eles não dispararam um único tiro, afirmando depois que eram em número muito menor que os guerrilheiros, e que poderiam facilmente ter sido mortos.
O ataque foi pressagiado por uma campanha de levantamento de recursos para a milícia nuer nos Estados Unidos uma evidência perturbadora de que, por trás dos saqueadores que erguem AK-47s e cantam hinos de guerra, há um escritório administrativo a meio mundo de distância. Gai Bol Thong, um refugiado nuer que vive em Seattle e ajudou a escrever o pronunciamento da milícia, disse que liderou uma campanha para angariar cerca de US$ 45 mil de sudaneses do sul que vivem no exterior para comprar comida e medicamentos para os guerrilheiros.
"Estamos falando sério", ele disse em uma entrevista. "Vamos matar todos eles. Estamos cansados deles."
Mais tarde, ele baixou o tom de seu discurso, afirmando que eles matariam todos os guerrilheiros murle, mas não os civis.
Os sudaneses do sul pareceram se unir à medida que um referendo histórico de independência se aproximava. O intervalo não durou muito. Os conflitos começaram quase que imediatamente na fronteira tensa entre o Norte e o Sul. De repente, apenas um mês depois que o Sudão do Sul comemorou a sua independência em julho passado com um novo hino nacional e um relógio de contagem regressiva com as palavras "Enfim, livres", guerrilheiros murle assassinaram mais de 600 nuer e sequestraram um número enorme de crianças. Esse ataque induziu a um massacre em janeiro.
O hospital improvisado em Pibor cheira a carne em decomposição. Ele está repleto de crianças com buracos de bala nos braços e pernas. Muitos arrastaram-se durante dias para chegar ao hospital, atravessando pântanos e rios lamacentos, e suas feridas estão purulentas e gangrenadas. Os médicos olham e imediatamente sussurram: amputação.







