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Enfermeira aplica dose da vacina Sputnik V contra Covid-19 em Caracas, 21 de maio
Enfermeira aplica dose da vacina Sputnik V contra Covid-19 em Caracas, 21 de maio| Foto: EFE/Rayner Peña R

Os venezuelanos têm enfrentado caos nos centros de vacinação contra Covid-19, além de falta de transparência da ditadura de Nicolás Maduro em relação aos números da pandemia.

"Há uma grande desorganização e muito pouco planejamento", avalia o médico venezuelano Jaime Lorenzo, diretor da ONG Médicos Unidos Venezuela. "Na Venezuela, o plano nacional de vacinação não foi publicado pelo governo", diz.

Desde o anúncio da nova etapa de vacinação contra Covid-19 no país sul-americano, no final de semana passado, foram registradas grandes filas e desorganização em centros de saúde.

Para contornar esses problemas, os venezuelanos ansiosos para serem imunizados e que têm melhores condições econômicas têm buscado meios como a venda de vacinas pelo WhatsApp e outras soluções clandestinas. O jornal venezuelano El Nacional relatou como a desordem da vacinação se transformou em uma oportunidade para que venezuelanos tenham uma renda extra para sobreviver ou para lucrar.

As pessoas têm recorrido a esquemas de delivery de doses, vacinação a grupos selecionados (VIP) e suborno para furar a fila do centro de vacinação, segundo o jornal venezuelano.

A "vacinação delivery" é combinada por WhatsApp. As doses são ofertadas a US$ 200 - sem qualquer garantia de procedência ou de que o produto foi armazenado como necessário. Já a vacinação VIP é a que acontece em casas e edifícios para grupos de dez pessoas ou múltiplos de dez, que é o número de doses em cada lote. Em outros casos, pessoas recebem ofertas para se dirigirem aos centros de saúde onde terão a vacina garantida, a um custo de US$ 100. Ainda, há relatos de pessoas que pagaram entre US$ 30 e 90 para não ficar nas filas, segundo os relatos do El Nacional.

Sistema Pátria

A vacinação tem sido ainda mais complicada para aqueles que não possuem o "carnê da pátria", um documento de identificação criado pelo regime chavista em 2016 que, segundo a oposição, é usado como ferramenta de controle social.

O regime lançou há poucos dias uma página na internet para a inscrição daqueles que não estão no sistema. "Imagine fazer isso agora, quando já iniciou a chamada segunda fase da vacinação. Isso denota um mau planejamento e desorganização total", critica Lorenzo, dizendo que o mecanismo de registro deveria estar disponível semanas antes do começo do processo para que as pessoas pudessem se cadastrar.

Dados duvidosos

A vacinação na Venezuela começou em fevereiro, com os profissionais de saúde, idosos e pessoas com comorbidades entre os grupos prioritários. No entanto, a campanha de vacinação continua convocando profissionais de saúde cada vez que chega um lote de vacinas ao país, o que indicaria que a cobertura das vacinas proposta para cada etapa da campanha não está sendo cumprida, na avaliação de Jaime Lorenzo.

Para o médico, também falta transparência nos dados oficiais da vacinação na Venezuela. O ministro da Saúde, Carlos Alvarado, garantiu em 23 de maio que mais de 90% dos profissionais de saúde do país já tinham sido vacinados contra o coronavírus. Porém, a ONG Médicos Unidos fez uma pesquisa com 2.970 médicos dos setores público e privado do país, entre 25 e 29 de maio, e descobriu que apenas 42% já estavam vacinados contra Covid-19. Entre os médicos venezuelanos que trabalham em instituições privadas, a parcela que não havia recebido nenhuma vacina chegou a 73%, segundo a organização.

"As contradições aparecem sozinhas. Não precisamos dizer, apenas usar as mesmas informações divulgadas pelo Estado para demonstrar que existem erros tremendos de informação", aponta Lorenzo. Segundo o médico, se a cobertura vacinal entre profissionais de saúde estivesse realmente perto de 90%, esse grupo não estaria sendo chamado para se vacinar nesta atual segunda etapa da campanha.

Delcy Rodríguez, vice no regime de Nicolás Maduro, afirmou no sábado (5) que a Venezuela "já está alcançando quase 11% da população vacinada" contra Covid-19, sem explicar se o número se referia a pessoas que receberam as doses completas ou se pertenciam a algum grupo específico (idosos, profissionais de saúde ou outros). Ela também não informou a quantidade de pessoas que já foram imunizadas.

"Não sabemos se Delcy Rodríguez se equivocou ou não viu a vírgula: 1,1%. Não 11%", criticou a Médicos Unidos pelo Twitter.

A declaração de Delcy Rodríguez contrasta com dados divulgados pela Organização Panamericana de Saúde (Opas) no início de maio que mostram que a Venezuela aplicou 0,8 doses de vacinas contra Covid para cada 100 habitantes, uma das médias mais baixas da região.

A ditadura venezuelana tem a meta de imunizar até dezembro 70% da população do país, que tem cerca de 28 milhões de habitantes. Até o momento, o regime informou publicamente a chegada de 2,73 milhões de doses de imunizantes em nove carregamentos, sete da Rússia e dois da China. O país usa as vacinas Sputnik V e a chinesa da Sinopharm.

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