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DNA no Santo Sudário revela marcas de séculos de contato e novas pistas sobre sua história

O tecido do Santo Sudário preserva marcas biológicas acumuladas ao longo de séculos de contato e exposição ambiental.
O tecido do Santo Sudário preserva marcas biológicas acumuladas ao longo de séculos de contato e exposição ambiental. (Foto: Wikimedia Commons)

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O Santo Sudário carrega em suas fibras uma espécie de registro biológico de sua longa trajetória. Uma nova análise genética identificou no tecido diferentes linhagens de DNA humano, além de material genético de plantas, animais, bactérias, fungos e microrganismos adaptados a ambientes de alta salinidade.

O estudo foi publicado em julho na revista científica Scientific Reports, em julho deste ano, e analisou amostras oficiais coletadas do Sudário em 1978.

A pesquisa, no entanto, não determina a idade do tecido. O que os cientistas fizeram foi usar ferramentas modernas de genética forense para investigar as marcas biológicas acumuladas durante o contato do Sudário com pessoas e ambientes ao longo do tempo.

“O Sudário representa um rico arquivo de informações genéticas que se acumulou ao longo de séculos de interação humana e exposição ambiental”, afirmou Noemi Procopio, professora de Ciência Forense da Universidade de Lancashire, no Reino Unido, em comunicado sobre a pesquisa.

DNA no Santo Sudário tem material genético humano e um microbioma diversificado

A análise identificou diferentes linhagens de DNA mitocondrial humano. Entre elas estão K1a1b1a, H2a2, H1b e H33, que possuem distribuições distintas entre populações da Eurásia Ocidental e do Oriente Médio.

Um dos resultados exige atenção especial. A linhagem K1a1b1a identificada em três amostras também foi encontrada no material genético de Pierluigi Baima Bollone, professor e médico que participou da coleta do Sudário em 1978. A análise de parentesco indicou uma relação próxima entre os DNAs encontrados nas três amostras e o genoma do coletor.

O achado ilustra uma das principais dificuldades da análise genética no Santo Sudário: distinguir vestígios antigos daqueles deixados por pessoas que tocaram, examinaram ou manipularam o tecido posteriormente.

Os pesquisadores encontraram sinais compatíveis com DNA moderno e ressaltam que o contato humano acumulado dificulta a identificação de uma eventual assinatura genética original.

Além do DNA humano, foi reconstruído um microbioma formado por bactérias, fungos e arqueias. Entre as bactérias aparecem espécies frequentemente associadas à pele humana. Já as arqueias pertencem principalmente a grupos capazes de tolerar altas concentrações de sal.

Segundo Andrea Squartini, pesquisador da Universidade de Pádua, foi identificado “um microbioma rico”, com microrganismos da pele e comunidades adaptadas a ambientes salinos.

Plantas, animais e coral do Mediterrâneo na amostra de DNA do Santo Sudário

A diversidade biológica encontrada no tecido se estende também ao reino vegetal. Os pesquisadores identificaram material genético de cenoura, trigo, milho, banana e amendoim, além de outras espécies cultivadas, como tomate, batata, pimentas e frutas.

A cenoura apresentou um dos sinais mais abundantes entre as plantas identificadas. O estudo aponta que os vestígios encontrados são geneticamente mais próximos de variedades antigas e desenvolvidas na Europa Ocidental, o que pode indicar uma contaminação relativamente recente.

Também foram identificados animais domésticos. Cães e gatos apareceram entre os principais grupos, acompanhados por galinhas e bovídeos, além de porcos, cavalos, cervos e coelhos. Vestígios de ratos e camundongos também foram encontrados e podem estar relacionados à contaminação ambiental.

A análise genética do Sudário identificou vestígios de DNA humano, plantas, animais e microrganismos preservados nas fibras do tecido.A análise genética do Sudário identificou vestígios de DNA humano, plantas, animais e microrganismos preservados nas fibras do tecido. (Foto: Wikimedia Commons)

Um dos achados mais marcantes foi o DNA do coral-vermelho (Corallium rubrum), espécie endêmica do Mediterrâneo. “Detectamos DNA de coral vermelho endêmico do Mediterrâneo”, afirmou Giovanni Gabelli, pesquisador da Universidade de Pádua, ao apresentar os resultados.

A presença dessas espécies não significa necessariamente que o tecido tenha entrado diretamente em contato com cada uma delas. Os pesquisadores consideram a possibilidade de contaminação secundária, na qual o material genético chega ao Sudário por meio de pessoas que tiveram contato com animais, plantas ou outros objetos.

O que o DNA revela sobre a história do Sudário?

O conjunto dos resultados sugere que o Sudário esteve exposto a diferentes pessoas, ambientes e regiões ao longo de sua história. Alguns dos vegetais identificados têm origem na Ásia ou nas Américas e chegaram posteriormente à Europa e ao Mediterrâneo, o que ajuda a indicar que parte da contaminação ocorreu em períodos relativamente recentes.

Os autores discutem, por exemplo, a presença de espécies que se espalharam pelo Velho Mundo depois das viagens de Marco Polo e Cristóvão Colombo. A hipótese pode ajudar a reconstruir a circulação posterior do tecido, mas não permite determinar quando ou onde ele foi produzido.

“Estas evidências genéticas integram as investigações forenses e os dados históricos e radiométricos já disponíveis”, afirmou Gianni Barcaccia, professor da Universidade de Pádua e um dos coordenadores do estudo. Segundo ele, os resultados também precisam ser interpretados com cautela porque o DNA encontrado representa a sobreposição de sinais biológicos acumulados ao longo do tempo.

A pesquisa atual se soma a outros estudos realizados sobre o Sudário. Em 1988, três laboratórios independentes utilizaram datação por radiocarbono e chegaram a uma faixa de 1260 a 1390, resultado interpretado como indicativo de origem medieval. O próprio artigo de 2026, entretanto, menciona questionamentos posteriores sobre a homogeneidade dos dados utilizados naquela análise e a necessidade de novos testes.

Também houve uma análise genética publicada em 2015, que identificou DNA humano e de plantas em amostras do tecido. O novo trabalho utiliza uma abordagem diferente: o sequenciamento metagenômico de nova geração sem amplificação por PCR, aplicado a uma coleção de amostras oficiais de 1978. Foram analisados 12 itens, incluindo filamentos de linho, amostras de poeira coletada por aspiração e um pequeno fragmento biológico.

Para os pesquisadores, essa mistura é justamente o que torna o objeto tão interessante para a ciência: ela permite investigar como a peça foi manuseada, conservada e exposta ao ambiente, ainda que não seja possível separar com segurança um eventual DNA original de tudo aquilo que foi acumulado posteriormente.

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