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Barras de chocolate funcionaram como o pomo da discórdia no experimento | Reprodução
Barras de chocolate funcionaram como o pomo da discórdia no experimento| Foto: Reprodução

Pouco mais de 200 crianças de escolas públicas de Natal, no Rio Grande do Norte, ajudaram um grupo de pesquisadores a entender melhor uma questão que atormenta todas as sociedades humanas: quando e por que as pessoas decidem ser honestas ou trapacear. E, ao menos no experimento deles, o xis da questão parece ser o tamanho do grupo social envolvido. Quando há muita gente envolvida, as pessoas se sentiriam mais à vontade para passar a perna umas nas outras, porque seria mais difícil ser pego com a boca na botija, por assim dizer.

O trabalho, coordenado por Maria Emilia Yamamoto e Anuska Irene Alencar, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e publicado na revista científica "Evolution and Human Behaviour", segue uma tradição clássica nos estudos sobre o comportamento humano. A idéia básica é usar jogos como uma janela experimental para o funcionamento da nossa cabeça social. É comum que esses jogos dêem aos participantes a oportunidade de sacanear o próximo e obter lucro com isso, esperando para ver como a maioria das pessoas vai reagir.

No caso das crianças potiguares, os pesquisadores da UFRN trabalharam com um objeto de desejo bastante palpável: barras de chocolate. Os meninos e meninas, de cinco a 11 anos de idade, eram divididos em grupos formados por gente de sua própria sala de aula, um deles com até sete crianças e o outro com até 19 crianças (um grupo pequeno e outro grande, portanto). No passo seguinte, cada um recebia três chocolates e um envelope.

Tentação

É então que vinha a tentação. As crianças podiam "investir" quantas barras de chocolate quisessem num fundo comum. No fim da brincadeira, os pesquisadores dobrariam o "valor" de todas as barras "investidas" e dividiriam a quantidade multiplicada de forma igual para todas as crianças do grupo. A coisa "racional" a fazer, portanto, seria investir todos os chocolates de todo mundo, porque todos levariam para casa mais chocolates dessa maneira.

Ou não? "A coisa mais sensata a fazer é colaborar apenas se os outros também colaborarem", explicou Yamamoto ao G1. Em tese, se todo mundo colaborar, menos uma criança, ela vai ser a maior ganhadora, porque receberá os benefícios da cooperação sem sacrificar nenhum dos chocolates que ficaram na sua mão, diz a pesquisadora. É o comportamento conhecido nos estudos da área como o do free rider, ou seja, o sujeito que ganhou "viagem grátis" na malandragem.

"No fundo, as decisões que a gente toma nesse tipo de situação não são racionais, são emocionais", afirma Yamamoto - e o medo de ser passado para trás tende a impedir a colaboração plena. A menos, claro, que haja algum mecanismo para botar um freio nos free riders. E é aí que entra o tamanho do grupo.

Em tese, as doações deveriam ser anônimas, mas as crianças tentaram ao máximo ficar de olho em quanto cada companheiro estava contribuindo para o fundo comum. No entanto, é muito mais fácil fazer isso em grupos pequenos do que em grupos grandes. Dessa forma, tanto a doação foi mais generosa em grupos pequenos quanto também decresceu menos ao longo das sessões (já que houve mais de uma rodada do jogo). Estatisticamente, o tamanho do grupo parece ser mesmo o fator-chave para o comportamento das crianças.

Pegadinha

"Nos dados qualitativos, nós observamos algumas coisas fantásticas. Uma menina, por exemplo, doutrinou as outras crianças dizendo 'olha, meu pai me explicou que a gente ganha mais se todo mundo doar todos os chocolates, então vamos todos fazer isso'. Só que aí todos contribuíam, menos ela, que não contribuía com nada. É uma política nata", brinca Yamamoto.

A pergunta que fica é inevitável: o que poderia ser feito para coibir ainda mais a trapaça? O controle social - de preferência alguma forma de vigilância direta ou punição - parece ser a resposta. "Se a doação fosse aberta, com certeza eles seriam muito mais generosos. Em experimentos em que os pesquisadores vêem quanto está sendo doado, é o que acontece", afirma ela.

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