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O padre polonês Marian Litewka, de 77 anos, está no Brasil há 52 anos e mora na casa dos vicentinos no bairro São Francisco | Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo
O padre polonês Marian Litewka, de 77 anos, está no Brasil há 52 anos e mora na casa dos vicentinos no bairro São Francisco| Foto: Ivonaldo Alexandre/Gazeta do Povo

Memória

"Meu papa" santo

Denise Drechsel

Faltava uma semana para Caroline Drozdz completar dois anos de idade quando viveu o que considera a maior sorte da sua vida. Na visita do papa João Paulo II a Curitiba, em 1980, ela foi escolhida para entregar um buquê de flores para o pontífice no encontro com poloneses realizado no Estádio Couto Pereira, em 5 de julho. O papa, ao vê-la, disse à Noêmia, mãe da menina, "me alcance esta linda cracoviana", e a levantou do chão sorrindo.

A história é contada com detalhes pela família. "Eu estava cantando no coral e só me disseram que eu teria uma surpresa", conta o pai, Ricardo Antonio Drozdz, 64 anos. A menina tinha acabado de ganhar um traje típico da Polônia – guardado cuidadosamente até hoje – e o estreava naquele dia. Fotos da ocasião preenchem as paredes da casa dos Drozdz que, como era de se esperar, comemoraram muito a notícia da canonização de João Paulo II. "Não temos dúvida da santidade de João Paulo II", disse o pai.

Caroline não se lembra do encontro com o papa, mas desde então ele passou a ser parte importante da sua vida. "Quando João Paulo II sofreu o atentado em 1981 estávamos falando sobre o assunto e Caroline disse, ainda muito pequenininha, ‘queriam matar o meu papa’", conta Noêmia. Agora, Caroline não poderá ir à canonização de João Paulo II, mas vai acompanhar a cerimônia em Curitiba, com outros poloneses. "Não me considero só a menina do papa, mas uma pessoa de sorte, abençoada, por ter tido um contato tão próximo com ele", conclui.

O último encontro com João Paulo II

Em 1986, quando Litewka completou 25 anos de sacerdócio, o papa o convidou a receber uma bênção especial em Castel Gandolfo, na residência de verão do pontífice. "Era para ser um momento breve. Uma bênção e uma foto, mas ele quis que eu ficasse e tomamos café da manhã juntos", conta Litewka. Nunca mais se viram. O padre deve acompanhar a cerimônia do dia 27 de casa, assistindo pela tevê, e rezando pelo amigo santo.

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No próximo domingo, quando Karol Wojtyla se tornar São João Paulo II, uma multidão de fiéis espalhados pelo mundo vai comemorar a canonização, mas poucos se lembrarão do falecido papa do mesmo modo que o padre Marian Litewka, 77 anos, religioso da Congregação Vicentina, morador do bairro São Francisco, em Curitiba. Litewka, ou "padre Mário", como Marian é chamado na região, foi coroinha do jovem padre Wojtyla quando este tinha apenas 28 anos e era um sacerdote recém-ordenado em Cracóvia, na Polônia.

Mais conhecido por seu trabalho na Pastoral Rodoviária, que chegou a inspirar o filme Sal da Terra, de Elói Pires Ferreira, em 2008, Litewka prefere ser discreto em relação à proximidade com o pontífice. "Não gosto de contar vantagem", diz ele. Mas alguns minutos de conversa revelam que o contato que teve com o futuro santo não se limitou a um serviço paroquial momentâneo, mas configurou uma autêntica amizade.

Nascido em Cracóvia, Litewka frequentava com a família a paróquia de São Floriano antes de Wojtyla chegar, mas se tornou coroinha justamente quando o novo padre se apresentou. Longe de ser recebido com pompas, Wojtyla era mais um entre os 11 sacerdotes que viviam na paróquia. Por ser o mais jovem, cabia a ele as atividades fisicamente mais penosas, conta Litewka, que tinha 11 anos à época. "A visita aos doentes da comunidade, por exemplo, era uma tarefa que sempre empurravam para ele, já que era novo e tinha vigor para andar bastante". O próprio Litewka recebeu uma visita quando ficou meses de cama no hospital por causa de uma tuberculose.

No contato com os coroinhas, cerca de 100 ao todo, o futuro papa era simples e atencioso. Em tempos de missa rezada no rito tridentino, Litewka conta que Wojtyla pedia aos ajudantes mais velhos que traduzissem para o povo em polonês as palavras que ele dizia em latim, de modo que os fiéis também as entendessem. Foi ele quem criou na paróquia o hábito da confecção de murais, logo na entrada da igreja, com textos que explicassem o significado da liturgia, tarefa que cabia, principalmente, a Litewka.

Autos de Natal e de Páscoa eram outra paixão do jovem padre. Amante do teatro, Wojtyla instituiu a tradição de apresentar passagens bíblicas de forma declamada em pequenos eventos dedicados à comunidade. O próprio Litewka participou de alguns, sempre treinado pelo próprio Wojtyla. "Não tínhamos microfones. Era preciso declamar alto, a plenos pulmões, para que todo o povo pudesse escutar. Ele insistia muito na clareza da pronúncia", conta Litewka.

Os serviços prestados ao padre Wojtyla duraram cerca de dois anos e só foram interrompidos porque uma igreja vizinha, menos abastada de coroinhas, pediu para a Paróquia de São Floriano que cedesse alguns de seus ajudantes. Litewka estava entre os mais experientes, e foi encaminhado à nova comunidade.

Uma amizade de encontros breves

O contato entre Litewka e Wojtyla foi retomado de modo inusitado quando este havia sido nomeado bispo auxiliar de Cracóvia. Litewka era seminarista, e Wojtyla foi ao seminário conversar com um canonista que dava aulas no local. Aparentemente, no entanto, o futuro papa foi esquecido num dos corredores do prédio. Foi Litewka quem o salvou. "Eu o vi por acaso, o reconheci e descobri que estava esperando há mais de uma hora. Daí eu corri até o quarto do professor para avisá-lo e ele alegou nem saber que Wojtyla estava lá".

Os dois continuaram a se ver em diversas ocasiões. Litewka foi à sagração episcopal de Wojtyla, e Wojtyla assistiu a primeira missa de Litewka. Uma nova despedida ocorreu em 1962, quando o agora padre Litewka deixou a Polônia e partiu como missionário ao Brasil.

Cerca de três anos depois, numa visita à terra natal, Litewka fez questão de se encontrar com o amigo, agora arcebispo de Cracóvia. Uma gafe marcou o reencontro. "Eu fui visitá-lo de terno, apenas com uma cruz na lapela. Na hora ele não me disse nada, mas quando outro colega foi vê-lo, ele reclamou, perguntando que tipo de costume tínhamos no Brasil, já que até o Marian estava sem clergyman (camisa de colarinho branco, típica de padres)".

Em Curitiba

Litewka não cometeu o mesmo erro em 1980. Seu amigo Wojtyla havia se tornado o papa João Paulo II havia dois anos, e quando passou por Curitiba em sua primeira visita pastoral ao Brasil, pediu para que encontrassem seu antigo coroinha e o convidassem a visitá-lo, na residência de dom Pedro Fedalto, onde estava hospedado. Embora devidamente trajado com clergyman, encontrar o papa virou uma aventura.

O convite para o encontro foi feito de modo informal, sem que houvesse documento algum que comprovasse o interesse do pontífice em vê-lo. Em consequência, convencer os homens da segurança do papa a deixá-lo passar não foi fácil. "Eu disse que o secretário do papa tinha me ligado e pedido para que eu fosse até lá, mas o segurança riu, e disse que sem convite impresso era impossível entrar".

Litewka resolveu, então, aguardar em frente ao prédio, junto de uma multidão de fiéis, na esperança de ver algum conhecido. Depois de uma tarde inteira de espera, suas preces foram atendidas. "Uma das irmãs que trabalhava no local me reconheceu e avisou dom Pedro, que liberou a entrada". Quando enfim se encontrou com João Paulo II, houve um longo abraço, muitas risadas e alguns minutos de conversa descontraída em polonês, o que deixou no isolamento todos os bispos presentes no local. Era um momento só para polacos.

Os espectadores do encontro conseguiram entender somente uma breve piada feita por Wojtyla. "Ele puxou minha barba e disse: você está parecendo Fidel Castro". Não houve quem não caísse na gargalhada.

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