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Ninguém pode presumir que a continuidade do reinado de Bento XVI será a maior preocupação de todos os 115 cardeais, agora quase prontos para eleger o próximo pontífice. Afinal, muitos deles acreditam que o papa emérito foi um grande professor, mas um CEO confuso. Para os que priorizam a continuidade, a resposta pode ser um candidato conhecido há anos em Roma como "o pequeno Ratzinger". Após seis anos como arcebispo de Toledo e primaz da Espanha, o cardeal Antonio Cañizares Llovera, 67 anos, conduziu a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos de 2008 até o último dia 28 de fevereiro (na sede vacante, todos os chefes de departamentos vaticanos também perdem seus cargos).

O apelido "pequeno Ratzinger" surgiu ainda antes em sua carreira, no tempo em que chefiou o comitê de doutrina na Conferência Episcopal da Espanha, de 1985 a 1992. Foram anos dramáticos, com teólogos espanhóis em destaque como intelectuais de vanguarda na Igreja. Cañizares teve em terra espanhola o mesmo papel que o então cardeal Joseph Ratzinger tinha em escala global na contenção dessas correntes, e os dois acabaram se tornando amigos. Tanto admiradores quanto detratores de Cañizares adotaram a alcunha – sugerindo que, considere-se a similaridade com o papa que renunciou encorajadora ou inconveniente, todos concordam que ela se aplica ao caso (o adjetivo "pequeno" tem duplo sentido, pois Cañizares é também muito baixo. Nas fotos com o papa, é fácil notar que Bento XVI é bem mais alto que ele).

Nascido em 1945 em Utiel, na região espanhola de Valência, Cañizares estudou teologia na Pontifícia Universidade de Salamanca e foi ordenado em 1970, em meio à efervescência que se seguiu ao Concílio Vaticano II. Como seu mentor Joseph Ratzinger, Cañizares passou a temer que o bebê fosse jogado fora junto com água do banho, tantas eram as tradições intelectuais e espirituais da Igreja que estavam sendo ignoradas ou postas de lado nesse período. Nos anos 70, Cañizares lecionou Teologia em diversos seminários e universidades, com especial interesse pela catequese. Ele fundou uma associação para os catequistas espanhóis e dirigiu um jornal chamado Teologia e Catequese.

Cañizares foi sagrado bispo de Ávila em 1992, aos 46 anos. Ficou evidente que era um bispo apaixonado pelo mundo das ideias; em 1996, fundou a Universidade Católica Santa Teresa de Jesus de Ávila, mais conhecida como Universidade Católica de Ávila. No espírito de Santa Teresa, a instituição mantém no programa a mística católica e, ao mesmo tempo, oferece graduações em Administração, Direito e Engenharia.

Em 1996, Cañizares tornou-se arcebispo de Granada. Pouco antes, havia sido nomeado integrante da Congregação da Doutrina da Fé, consolidando sua amizade com o futuro papa. Ele também ajudou a compilar a edição espanhola do Catecismo da Igreja Católica antes de mudar novamente de posto em 2002, tornando-se de fato líder da Igreja na Espanha como arcebispo de Toledo. Depois, entrou para o Colégio de Cardeais no primeiro consistório do pontificado de Bento XVI, em 2006.

Seus anos em Toledo encerraram-se ao mesmo tempo em que terminou o primeiro mandato do primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, o socialista que se transformou no "bicho-papão" a atormentar os europeus católicos por desafiar a Igreja em praticamente todas as fronteiras – da liberação do aborto e da união homossexual à redução dos subsídios para colégios e outras instituições católicas. O premiê ficou tão associado a um "secularismo anabolizado" que, quando Barack Obama foi eleito presidente do Estados Unidos em 2008, a reação mais comum entre autoridades vaticanas foi a esperança de que Obama não se tornasse um "Zapatero global". Cañizares emergiu como um dos mais ácidos críticos do regime de Zapatero, tanto que, quando foi para Roma, em 2008, alguns hispânicos imaginaram que a decisão foi tomada pela Igreja como uma bandeira branca após a reeleição de Zapatero.

Na verdade, a medida não foi um exemplo do velho princípio romano de Promoveatur ut amoveatur, "promover para remover" – longe disso. Bento foi um papa interessado na vida litúrgica e queria alguém de sua confiança para substituir o nigeriano Francis Arinze na Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos (a constatação da urgência de colocar um "ratzingeriano" na congregação era geral desde que estavam em andamento as tratativas para nomear o secretário da congregação, Malcolm Ranjith, como o novo arcebispo de Colombo, no Sri Lanka).

Como a mais graduada autoridade litúrgica no Vaticano, Cañizares expressou publicamente suas reservas quanto à prática de tomar a comunhão na mão, argumentando que recebê-la na boca, de joelhos, expressa melhor o espírito de adoração. Cañizares também defendeu enfaticamente a decisão de Bento XVI, em 2007, de ampliar a permissão para a celebração da missa tridentina, ao explicar que "mesmo que não houvesse um único tradicionalista" a ser apaziguado no campo de Marcel Lefebvre (o arcebispo francês excomungado em 1988 por ordenar bispos sem autorização de João Paulo II), o papa ainda estaria certo ao tornar a tradição litúrgica da Igreja mais acessível mundo afora. Em novembro de 2012, Cañizares celebrou uma missa tridentina para um grupo de peregrinos tradicionalistas leais ao papa.

Em 2011, Cañizares organizou em seu gabinete uma nova comissão para liturgia, arte, arquitetura e música, com o aparente propósito de promover um espírito mais tradicional e reverente nesses campos. Recentemente, o espanhol disse que, se o arcebispo Lefebvre tivesse assistido ao menos a uma missa pós-Vaticano II celebrada de modo apropriado, nunca teria se distanciado de Roma.

No campo pessoal, Cañizares é também um herdeiro de Bento XVI. Pode ser resistente no campo da doutrina, mas é suave, gracioso e um tanto tímido com os que o cercam.

Os motivos a embasar a candidatura de Cañazires são fáceis de apontar.

Em primeiro lugar, ele representa a continuidade espiritual e intelectual de Bento XVI tanto quanto (e provavelmente mais que) qualquer outra figura do Colégio de Cardeais. Dado que 66 dos 115 cardeais que vão votar foram nomeados pelo papa emérito, essa provavelmente não é uma vantagem pequena.

Segundo: pelo menos em tese Cañizares preenche o maior número de requisitos da descrição ideal do próximo papa. Está na faixa etária correta – 67 anos – para um pontificado nem longo nem curto demais; tem uma boa combinação de experiência pastoral e burocrática; e é um especialista em catequese em um momento em que a maior prioridade interna da Igreja é a nova evangelização.

Em terceiro lugar, as visões teológicas e litúrgicas do espanhol podem ser polarizadoras em certos círculos, mas na esfera pessoal ele é visto como gentil e não ameaçador. Numa eleição em que os atributos pessoais contam pelo menos tanto quanto os grandes desafios, esse perfil pode favorecê-lo.

Um quarto ponto a favor de Cañizares é que em 2008 os jornais italianos publicaram consideráveis especulações de que sua remoção de Toledo teria sido arquitetada pelo cardeal Tarcisio Bertone, o secretário de Estado, que supostamente queria desenvolver uma espécie de política de distensão com o governo Zapatero. Se é verdade, praticamente não importa. Neste momento em que há um descontentamento razoavelmente grande entre os cardeais com o desempenho de Bertone, a percepção de que Cañizares não é parte do seu time conta a favor.

Também contra a candidatura de Cañizares há consistentes argumentos.

O primeiro é que a governança surge como um elemento-chave para a votação no conclave de 2013, e muitos cardeais podem olhar Cañizares como uma cópia de Bento XVI: uma mente brilhante e uma alma elevada, mas alguém incapaz de atuar bem nas dimensões de administração e gerenciamento do pontificado.

Em termos de idiomas, Cañizares só se sente realmente confortável ao falar espanhol. Embora essa a língua nativa de quase metade do 1,2 bilhão de católicos do mundo, muitos cardeais acreditam que o próximo papa tem de ser fluente não apenas em italiano, para exercer seu papel como bispo de Roma, mas também em inglês, que é a língua dominante no universo da mídia.

Além disso, para os cardeais que procuram alguém capaz de reconciliar diversas correntes da Igreja e engendrar aproximações com o mundo secular, Cañizares pode parecer longe demais do perfil ideal.

Um quarto empecilho: um papado de Cañizares seria semelhante ao de Bento XVI também em outro sentido, o de que ele estaria mais focado na vida interna da Igreja que na dimensão externa, enfrentando desafios além dos muros do Vaticano. No momento em que a defesa da liberdade religiosa é vista como prioridade, especialmente sob a luz do crescimento da perseguição anticristã pelo mundo, alguns eleitores acreditam que os tempos exigem um papa "político" – alguém que consiga mobilizar o capital social e diplomático da Igreja para fazer a diferença no cenário global.

Outro ponto: em 2009 Cañizares deu uma entrevista a uma emissora de televisão da Catalunha no momento que o relatório Ryan surgia na Irlanda. Na entrevista, o espanhol argumentou que o aborto é um crime contra a humanidade muito mais sério que o abuso de crianças por integrantes do clero. Embora muitos cardeais possam concordar com a tese, não é desejável que o próximo papa passe os primeiros dias do pontificado tentando explicar seu ponto de vista sobre a crise deflagrada pelos abusos sexuais (para ficar claro, Cañizares afirmou, na mesma entrevista, que o comportamento de alguns padres e freiras da Irlanda era totalmente condenável. Disse ainda que eles tinham cometido crimes "pelos quais é preciso pedir perdão").

Se fosse no conclave de 2005, quando continuidade era a questão-chave, Cañizares poderia apresentar-se como favorito. O cenário é diferente em 2013; no entanto, para cardeais que buscam consertar o que percebem como as deficiências gerenciais dos últimos oitos anos, ele pode não parecer a melhor escolha. Ainda assim, na corrida aberta, há alguma chance de que o "pequeno Ratzinger" seja aproveitado para a maior tarefa da Igreja.

Tradução: Maria Sandra Gonçalves

* John Allen Jr. é um dos mais experientes vaticanistas da atualidade. Jornalista do site norte-americano National Catholic Reporter (http://ncronline.org/), ele também colabora com o canal de televisão CNN e com a National Public Radio norte-americana. Allen é autor de vários livros sobre a Igreja Católica, incluindo duas biografias de Bento XVI, uma delas escrita quando Joseph Ratzinger ainda era cardeal. Duas de suas obras foram traduzidas para o português: Opus Dei, mitos e realidade, de 2005, e Conclave, de 2002, em que ele descreve os rituais que envolvem a sucessão do papa e apontava vários favoritos para assumir o posto após a morte de João Paulo II.

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