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Hiroshima e Nagasaki

“Esperei baixar o fogo, empurrei os corpos e fui para casa"

Sobrevivente da bomba de Hiroshima, que mora há 25 anos em Curitiba, conta como se salvou e diz que ninguém sabia o que tinha atingido a cidade

Misako: metade do corpo queimado, mas se recuperou muito bem. Depois só teve catarata, que operou de graça no Japão. | Daniel Castellano/Gazeta do Povo
Misako: metade do corpo queimado, mas se recuperou muito bem. Depois só teve catarata, que operou de graça no Japão. (Foto: Daniel Castellano/Gazeta do Povo)

Misako Kosaka tinha 33 anos, um filho de 8 meses na barriga e outro de 2 anos preso às costas quando o bonde em que voltava sofreu um impacto violento e ela caiu. O tranco da condução fora causado pela onda de choque da explosão atômica que atingiu Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945.

Sessenta e três anos depois do ataque que acabou com dois terços da população da cidade portuária japonesa, a sobrevivente de 96 anos e saúde invejável, moradora de Curitiba há 25 anos, relata com clareza os detalhes do dia que mudou a sua vida para sempre: ela foi salva pelos corpos dos outros passageiros que desabaram sobre ela.

Misako foi a primeira a cair ao chão quando houve o choque, e as outras pessoas formaram um escudo sobre ela e o filho, que conseguiram sair vivos em direção à sua casa, a quase seis quilômetros. Mesmo com metade do corpo queimado, ela levava os alimentos que havia saído para comprar.

Em meio a um forte calor e cheiro de queimado, o marido participou do resgate das vítimas, que eram levadas ao pátio de uma fábrica de armamentos e etiquetados com nome e grau da queimadura. "A maioria pedia água e, quando tomava, morria", conta Nobuaki Kosaka, o seu "José", o filho que escapou junto com Misako.

Na casa onde moram com vários parentes no bairro curitibano Novo Mundo, é ele quem traduz as palavras dessa japonesa que nunca aprendeu o português.

Misako diz que, apesar da extensão do desastre, pensou que aquele era um "simples" bombardeio norte-americano. Assim como ela, ninguém sabia o que havia atingido a cidade.

"Alguns imaginaram que os americanos haviam despejado gasolina do alto e tacado fogo", conta o professor de História da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Jayme Lúcio Fernandes Ribeiro. No dia seguinte à explosão, o Asahi Shimbun, segundo jornal de maior circulação no Japão, trazia a manchete: "Uma nova arma nos atingiu".

Nem mesmo o autor do ataque, o governo dos Estados Unidos, imaginava o estrago que estava prestes a causar. O desconhecimento deixou feridos até no teste realizado no deserto de Nevada, 20 dias antes, por falta de precauções.

O principal relato do que o governo havia causado veio no ano seguinte, pelo trabalho do repórter John Hersey, que viajou ao Japão e publicou uma reportagem histórica na revista New Yorker.

Para conhecer a fundo os terríveis efeitos da bomba (desenhos de sobreviventes mostram pessoas com a pele do braço descolada e pendendo da ponta dos dedos ou corpos acumulados em caixas de água), foi preciso entrevistar famílias para saber quantos parentes morreram e de que forma.

"O próprio número de mortos é incerto", diz o professor de História Contemporânea da Faculdade Cásper Líbero, José Augusto Dias Jr.

Autor do livro "O Brilho de Mil Sóis – História da Bomba Atômica", ele considera a estatística mais confiável a que soma 78 mil mortos no dia da explosão, e outras 120 mil até 1950, devido à radiação. Dois terços da população morreram.

Em Nagasaki, atingida por uma bomba atômica três dias depois, estima-se que 50 mil morreram no dia do ataque, chegando a 140 mil até 1950.

Política, não guerra

A pergunta que fica no ar é: tantas mortes eram necessárias para encerrar a guerra? Para o professor de História Jayme Ribeiro, os ataques foram claramente políticos. A maior parte dos analistas considera falso o argumento do presidente Harry Truman de que a bomba encerraria a guerra com um número menor de mortes de soldados americanos do que numa invasão.

"O Japão já estava derrotado, a rendição era uma questão de tempo", diz o professor José Dias. "O ataque foi mais o primeiro ato da Guerra Fria que o último da Grande Guerra", explica. Em 1945, já havia a noção de como o mundo seria dividido no futuro. "Foi um recado aos russos: Temos a bomba e não hesitaremos em usá-la. Não nos confrontem."

O único quê militar foi a escolha nefasta dos alvos, feita para causar o maior estrago possível.

Em Hiroshima, foi escolhido um dia claro, em que a radiação se espalharia mais. Em Nagasaki, as montanhas que cercam a cidade concentraram a radiação.

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"O céu ficou escuro com a poeira. Minha mãe viu que era bombardeio e que tinha queimado metade do corpo, em carne viva. Protegeu o meu rosto, mas fiquei com casca grossa no braço."

"Meu pai trazia os feridos ao pátio da fábrica. Todo mundo pedia água. Tomavam e morriam. Água parecia veneno para a queimadura. Depois jogavam querosene e queimavam."

José Kosaka, sobrevivente de Hiroshima, filho de Misako.

Idem

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