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Meio ambiente

Existe um continente de lixo boiando no Pacífico - e ninguém dá a mínima

Sopa de plástico forma um bloco maior que a Índia, localizado entre a Califórnia e o Havaí, que ameaça a cadeia alimentar e o trânsito de navios na região

 | Reprodução /YouTube
(Foto: Reprodução /YouTube)

Enquanto as imagens de lixões abarrotados de plástico causam preocupação pelas consequências ecológicas, no oceano, um novo continente surge sem que a humanidade faça ideia da ameaça que ele representa. O sétimo continente, como é chamado pelos estudiosos, é formado por lixo e ocupa um espaço maior que a Índia. A área fica ao norte do oceano Pacífico, entre a Califórnia e o Havaí e ganhou esse nome porque hoje atinge uma extensão de 3,5 milhões de km².

INFOGRÁFICO: Veja como os giros oceânicos atuam

A poluição terrestre é despejada nos mares por meio de esgotos e rios. Ao cair nas correntes marítimas, o lixo que forma o bloco foi transportado pelos mares até chegar ao giro oceânico do Pacífico Norte, um dos cinco existentes no globo. No interior do giro, o plástico não dissolvido permaneceu por anos e, devido ao movimento natural do oceano, formou uma espécie de "sopa plástica". Grande parte desta sujeira não é facilmente visível, o que dificulta o acompanhamento da área via satélite.

Apesar de ser desconhecido pela população mundial, o problema é antigo. O "Lixão do Pacífico" foi encontrado por acaso, em 1997, pelo capitão Char­­les Moore, juntamente com Patrick Deixonne, mem­­bro da Sociedade dos Ex­­ploradores da França (Société des Explorateurs Français) e atual explorador da área.

Aumento

Na época, a catástrofe ambiental era estimada em 1,3 milhões de km². Hoje, Deixonne e sua equipe acreditam que, se nada for feito para conter o problema, nos próximos 20 anos, o continente de lixo vai alcançar o tamanho da Europa.

De acordo com Tiago Zanella, advogado atuante no ramo de direito marítimo, as pessoas desconhecem o problema porque é algo distante da realidade delas. "É diferente, por exemplo, de um acidente marítimo em que um navio derrama óleo no litoral e as pessoas ficam impossibilitadas de ir à praia no final de semana por causa disso", explica. Ele observa que, no Brasil, quase nada se produz ou discute sobre a consequência da presença de plástico nos oceanos.

Para Deixonne, a falta de informação vem da indiferença das pessoas em relação ao meio ambiente. "A questão parece interessar somente ambientalistas e cientistas. Grande parte da comunidade internacional parece indiferente", lamenta.

Em proporções menores, os giros Atlântico Norte e Sul, Pacífico Sul e Índico apresentam o mesmo problema. Em todos os casos, "o impacto ambiental ainda não é bem compreendido", descrevem os estudos expedicionários. O grupo de Deixonne afirma que existem poucas pesquisas mundiais que abordam o tema, por isso pretende fazer "um primeiro relatório científico sobre a situação dos oceanos".

Acúmulo de plástico nos oceanos ameaça a vida marinha

A enorme quantidade de plástico nos oceanos consiste em uma ameaça silenciosa, mas real à fauna marinha. De acordo com Tiago Zanella, especialista em direito marítimo, a ingestão de polímeros sintéticos (elementos presentes no plástico) causa a morte de milhares de espécies todo ano. “Por repelirem a água, a resina do plástico acaba atraindo diversos outros tipos de poluentes hidrofóbicos, principalmente compostos orgânicos venenosos como pesticidas (DDT) e bifenilos policlorados (PCBs), que funcionam como verdadeiras esponjas de sujeira”, explica.

Zanella afirma que o problema também acarreta perdas econômicas porque o plástico presente no mar causa danos às hélices, entope tubulações e sistemas de resfriamento de água das embarcações, o que pode reduzir o trabalho na pesca.

Pesquisadores vão investigar concentração de resíduos no Pacífico

Em 2012, o navegador Patrick Deixonne e sua equipe partiram em direção ao sétimo continente a fim de explorar de perto o problema. Por uma falha logo no início da viagem, a missão foi abortada e retomada somente em maio de 2013, quando a expedição passou 20 dias no mar em busca do giro do Pacífico Norte. No diário de bordo oficial, a equipe relatou que o “desastre ecológico invisível é muito horrível quando se está cara a cara com ele”.

Novamente em alto mar, agora para coletar dados, amostras e aprofundar o conhecimento do fenômeno, a expedição partiu dia 5 de maio e fez parceria com laboratórios de pesquisa para apresentar ao mundo os resultados da catástrofe ambiental.

Durante os 20 dias, os expedicionários devem investigar o grau de poluição da água e da cadeia alimentar do Pacífico Norte, caracterizar os ambientes encontrados, para melhorar a detecção por satélite de áreas onde há plástico concentrado, quantificar e caracterizar os resíduos encontrados e analisar os poluentes presentes na superfície da água. 80% de todo o lixo plástico encontrado nos mares é de origem terrestre, os outro 20% vêm de fontes que estão próprio oceano, como navios.

Estimativa

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estima uma proporção de 13.000 fragmentos de material plástico por quilômetro quadrado em todos os oceanos.

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