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Crise americana

“Geração aluguel” dos EUA fica cada vez mais distante da casa própria

Com o estouro da bolha imobiliária, jovens americanos que deixam as casas dos pais enfrentam restrições ao crédito

Matt Mochizuki e Liz Brent adiaram compra da casa e alugaram apartamento em São Francisco | Lianne Milton/The New York Times
Matt Mochizuki e Liz Brent adiaram compra da casa e alugaram apartamento em São Francisco (Foto: Lianne Milton/The New York Times)

Ela já foi chamada de geração bumerangue, por voltar para a casa dos pais depois de adulta, e de geração limbo, por viver à espera de que a crise passe para conseguir um emprego, uma casa, uma vida. Nos últimos tempos, sociólogos rebatizaram a juventude dos Estados Unidos de "geração aluguel": carregando nas costas dívidas contraídas para pagar a universidade e entrando no mercado quando o crédito imobiliário está restrito, eles estão adiando indefinidamente a compra da casa própria, que sempre foi considerada parte essencial do sonho americano.

"Historicamente, sempre foi mais fácil comprar uma casa nos EUA, em com­­paração­­ com a Europa. A­­ terra sempre foi mais bara­­ta, os transportes sempre foram mais baratos (seja o trans­­porte público, no século 19, ou a gaso­­lina para os­­ carros), a forma de construir dos americano, usando madeira, é menos dispendiosa", diz o historiador Kenneth Jackson, considerado uma autoridade no processo de urbanização dos EUA, professor da Universidade Co­­lumbia, em Nova York.

O bairro de Williamsburg, atual enclave de descolados no Brooklyn, a apenas uma estação de metrô do Lower East Side de Manhattan, é um bom exemplo do fenômeno da geração aluguel. Na década passada, no auge da bolha de especulação imobiliária, centenas de apartamentos brotaram na antiga zona industrial com a premissa de que tudo seria vendido rapidamente. Com o estouro da bolha, os prédios foram convertidos em rental buildings — edifícios exclusivos para aluguel, ocupados geralmente por jovens entre 20 e 35 anos. Nos EUA, 9,9% das casas pertencem a pessoas com idades entre 25 e 34 anos, enquanto 25,6% das residências alugadas têm inquilinos nessa faixa etária.

A corretora Michele Witty, da imobiliária Williamsburg Realty, radicada há 15 anos no bairro, diz que, na contramão do desaquecido mercado de compra e venda de imóveis, os preços dos aluguéis dispararam. Um apartamento de quarto e sala, que­­ custava US$ 1.100 por mês­­ em média, hoje se aluga por­­ uma faixa de US$ 1.800 a US$ 2.800 mensais. Já o valor médio das residências nos EUA caiu de US$ 292,6 mil em 2008 para US$ 267,9 mil em 2011, e os juros estão baixos. Mas, como as regras para a concessão de um financiamento imobiliário endureceram, com a exigência de um sinal de ao menos 20% e de comprovação de histórico positivo de crédito, a saída para muitos é alugar.

Mudança

Segundo a socióloga Ka­­the­­rine Newman, professora da­­ Universidade Johns Hop­­kins­­ e autora do livro The ac­­­­cor­­­­­­dion family, que analisa o­­ fenômeno da volta dos fi­­lhos­­­­ adul­­tos para a casa dos pais,­­ a­­ tendência de morar­­ de alu­­guel­­ deve ser duradou­­ra, pro­­vocando uma mudan­­ça im­­por­­tante em uma­­ sociedade­­ onde o índice médio de­­ pro­­prie­­tários ficou acima­­ de 60% nos­­ últimos 50 anos, e­­ onde quem­­ vivia em casa­­ alugada­­ era considerado um perdedor.

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