"Grândola, vila morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade". Os versos do compositor José Afonso já eram conhecidos de boa parte dos portugueses, mas quando entoaram aos 20 minutos da madrugada de 25 de abril de 1974, deixaram de ser apenas parte de uma canção. Pelas ondas da Rádio Renascença, de Lisboa, vinha o primeiro sinal de que 42 anos de ditadura estavam prestes a terminar. Oficialmente, começava ali a maior revolução da história de Portugal.
Para entender o significado da revolução, é preciso voltar a 1932, quando teve início o governo autoritário mais extenso da Europa no século 20. À frente dele estava Antônio de Oliveira Salazar, primeiro-ministro que instituiu um regime de autoritarismo, repressão, censura e imperialismo sobre as colônias ainda existentes. Foi o chamado "salazarismo".
Salazar deixou o poder em 1968, vindo a morrer dois anos depois. Seu substituto, Marcello Caetano, manteve a linha dura e logo a insatisfação ganhou corpo. "A chamada 'Primavera Marcelista' durou pouco, muito pouco. Adeptos e opositores do regime perceberam que nada mudaria de fato. Principalmente no que dizia respeito à guerra colonial", explica Francisco Palomanes Martinho, professor de História da Universidade de São Paulo (USP).
Golpe
Liderados pelo general Antônio de Spínola, os militares se insurgiram contra o governo e executaram o golpe que, em 25 de abril de 74, derrubou o regime salazarista. A canção "Grândola, Vila Morena" era a senha para deflagrar o início da revolução. Prédios públicos e veículos de comunicação foram ocupados e, logo, a população se uniu às forças militares. Como "agradecimento", distribuíram cravos aos soldados, nomeando assim o movimento que instituiu a democracia.
"A revolução fez de nós um país mais alegre, otimista, em que as pessoas acreditaram que podiam mudar as suas vidas. E, claro, todas as conquistas democráticas foram asseguradas durante a revolução", destaca Raquel Varela, professora do Instituto de História Contemporânea da Universidade de Lisboa.
Crise atual contrasta com a euforia de 74
No momento em que são lembrados os 40 anos da Revolução dos Cravos, os portugueses vivem um contraponto à euforia que marcou a derrubada da ditadura. A população continua indo às ruas, mas agora para protestar contra as medidas de austeridade impostas pelo atual governo e se manifestar por mais empregos. Já aqueles que participaram diretamente da revolução reclamam que os ideais do movimento estão se perdendo cada vez mais.
"O país foi assaltado por elementos que ocuparam o poder. Estão a destruir tudo o que cheire a 25 de Abril", afirmou à rede de comunicação alemã Deutsche Welle Vasco Lourenço, um dos líderes da revolução. As críticas mais contundentes são ao modelo econômico adotado por Portugal, que se rendeu à ajuda internacional.
"Quando sabemos que os que exercem o poder, democraticamente eleitos, são meros serventuários do capital financeiro dominante, é dever democrático da instituição militar derrubar o governo", sentenciou Otelo Saraiva de Carvalho, comandante do golpe militar de 74. Apesar de defender a tomada de poder como única alternativa, ele não acredita que isso seja possível nos dias atuais.



