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Rivalidade

Ida de Flávio aos EUA via Argentina deve elevar tensões entre Lula e Milei

Relações entre os dois presidentes, que nunca foram amistosas, têm episódio envolvendo Flávio Bolsonaro como novo foco de tensão (Foto: André Coelho e Matias Martin Campaya/EFE)

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Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo projetam que as relações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seu homólogo da Argentina, Javier Milei, que nunca foram amistosas, devem ficar ainda mais tensas devido à revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado pelo petista na eleição presidencial, passou pelo país vizinho antes de seguir para o Equador e de lá para os Estados Unidos.

Leo Braga, professor do curso de relações internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, disse à Gazeta do Povo que o episódio pode elevar as hostilidades entre Brasília e Buenos Aires em nível diplomático.

“É bem provável que Milei se valha disso, assim como os Bolsonaro na alegação de perseguição política contra Flávio Bolsonaro. A retórica do liberalismo e de direitos e garantias fundamentais provavelmente será usada contra o presidente Lula, tanto por Milei como pelos Bolsonaro”, disse o analista.

Braga apontou, por outro lado, que o episódio também pode fragilizar Flávio e os Bolsonaro, já que a narrativa que os retrata “como entreguistas da nação aos EUA” deve ser reforçada pelo governo Lula.

“Em relação à Argentina, as ações encontrarão um limite pragmático. O Brasil já reduziu o status da representação diplomática brasileira na Argentina de embaixada para escritório de negócios. Não há muita margem para depreciar mais ainda a relação formal, a não ser romper relações diplomáticas”, disse o analista.

“As desavenças encontram limites evidentes, como a dificuldade de escalar as tensões até o próximo nível. E qual seria este nível? Até onde e quando escalar desavenças? A coisa toda deve ficar no nível da retórica e de algum desgaste diplomático o suficiente para alimentar opinião pública para fins eleitoreiros”, acrescentou Braga.

Em entrevista à Gazeta do Povo, Flavio Gonzalez, advogado e professor da Universidade de Buenos Aires, disse que o episódio envolvendo Flávio deve fazer as tensões entre Lula e Milei escalarem “sensivelmente”.

Isso em um cenário em que já não havia muito espaço para aproximação: Gonzalez pontuou que, independentemente do resultado das eleições presidenciais no Brasil, as relações com a Argentina refletem a disputa geopolítica entre os Estados Unidos e a China.

“Lamentavelmente, hoje em dia, nossos governos definem suas relações mútuas com base na afinidade — ou no maior ou menor alinhamento — que os governos do momento possam ter com uma ou outra potência, em vez de pautarem-se pelos interesses nacionais”, afirmou Gonzalez.

“Nessa dinâmica, o resultado das eleições manterá o atual nível de deterioração em nossas relações. É imprescindível que nossos países eliminem a palavra ‘alinhamento’ do inconsciente coletivo de suas elites governantes, a fim de recuperar a autonomia estratégica e fortalecer o Mercosul como um bloco geopolítico no novo cenário internacional”, disse o analista.

Campanha eleitoral ampliou desavenças entre Lula e Milei

Lula e Milei já haviam se desentendido antes da campanha deste ano no Brasil e as trocas de hostilidades aumentaram com o processo eleitoral: aliado de Flávio, o libertário chamou Lula de “ladrão” e “presidiário” e o acusou de interferência em eleições em outros países e de liderar uma campanha “anti-Argentina”.

Em resposta, o governo petista decidiu rebaixar as relações entre os dois países, ao determinar que seu embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, não retornará à Argentina, e acusou Milei de tentativa de interferir no pleito brasileiro.

Na madrugada desta quarta-feira (28), o departamento de migração do governo Milei confirmou que Flávio Bolsonaro, sua esposa e filhas passaram pelo país na noite de terça-feira (27), onde seguiram em um voo para o Equador, antes da viagem para os Estados Unidos, onde o governo Donald Trump concedeu-lhe vistos.

Apesar de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ter determinado após a eleição de domingo (25) que Flávio não poderia deixar o Brasil, o governo Milei alegou em comunicado que o senador e seus familiares “não possuíam qualquer impedimento legal para a entrada no país” e por isso foram autorizados a entrar na Argentina.

A imprensa argentina informou que as vans que cruzaram a fronteira em Puerto Iguazú, cidade na província argentina de Misiones vizinha de Foz do Iguaçu, foram escoltadas por uma viatura da Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA), órgão do governo Milei, entrando diretamente na pista do aeroporto local, antes da viagem em um avião privado para o Equador.

Santiago Caputo, assessor de Milei, postou ao longo da terça-feira no X uma imagem do filme “O Grande Truque”, sugerindo uma manobra: informações extraoficiais deram conta de que Flávio já teria chegado aos EUA ontem, quando na verdade ele teria esperado o dia inteiro do lado brasileiro antes de ir para a Argentina apenas à noite.

Segundo o jornal Clarín, fontes da Casa Rosada disseram que Caputo esteve em Puerto Iguazú na noite de terça-feira e “monitorou a operação desde o início”.

O advogado mexicano Simón Levy, aliado de Trump, já havia sugerido na terça-feira que houve envolvimento do governo Milei na operação para a saída de Flávio do Brasil.

“O presidente Donald Trump sempre lutará. Ele jamais recuará e está mudando o curso da história em todo o Hemisfério Ocidental. E ele tem um grande aliado na Argentina. Seu nome é o presidente Javier Milei”, afirmou em post no X.

“Mantenham-se firmes, Brasil! Isso é apenas o começo!”, disse Levy, que havia afirmado na terça que a operação foi arquitetada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio.

Nesta quarta-feira, em outra postagem, o advogado foi mais explícito sobre a participação argentina no episódio, ao escrever que a “operação coordenada por Rubio” teve “apoio do presidente Milei”.

Analista acredita que relações comerciais não serão afetadas por briga Lula-Milei

Leo Braga projetou que, apesar das tensões, as relações entre os dois países continuarão pragmáticas em termos comerciais.

“Não se abre mão de relações comerciais que geram renda e riqueza. Vide a postura do Brasil e a postura da Argentina em relação à China, por exemplo. Tanto o governo Jair Bolsonaro [2019-2022] quanto o governo Milei posicionam-se criticamente em relação à China, que, no entanto, continua sendo a principal parceira comercial do Brasil e continua financiando a dívida da Argentina via swap cambial”, argumentou.

A respeito de outros assuntos em que Lula e Milei discordam, como o Escudo das Américas – um plano regional de segurança de Trump ao qual a Argentina aderiu, mas o Brasil não – e o Mercosul, Braga afirmou que os dois presidentes devem continuar divergindo sobre esses temas, mas não além do que já vem ocorrendo.

“Não vejo como o Escudo das Américas possa gerar maiores problemas na relação Brasil-Argentina. O Brasil é um país muitíssimo relevante na América Latina e Caribe. É a maior economia da região, as Forças Armadas mais relevantes e um território continental. Mesmo que não haja comparação factível direta entre economia e força militar entre EUA e Brasil, seria muito incauto da parte dos EUA envolverem-se em dinâmicas de segurança diretamente contra o Brasil, dada a instabilidade que geraria na região além das demais situações em que os EUA já estão envolvidos”, argumentou Braga.

Em relação ao Mercosul, o analista disse que os limites pragmáticos que ele citou restringem até onde cada lado poderia interferir a ponto de invalidar o bloco, apesar de, durante o período coincidente dos governos Lula, iniciado em janeiro de 2023, e Milei, na Casa Rosada desde dezembro do mesmo ano, o Mercosul ter estabelecido uma quantidade menor de acordos: apenas cinco, “em que pese estar entre eles os acordos com a União Europeia e com a Associação Europeia de Livre Comércio [EFTA, em inglês], que reúne Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça”.

“Há interesses comerciais de ambos os lados e atores domésticos absolutamente envolvidos de lado a lado”, disse Braga. “Pode ser que o Mercosul não avance, mas não creio que recuará.”

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