
A Igreja Católica documentou 304 mártires na América Latina até o momento neste século. São homens e mulheres assassinados não apenas por professar sua fé, mas também por defender os pobres, confrontar o crime organizado e proteger a criação. Suas histórias fazem parte de um catálogo global de mártires promovido pelo Vaticano que já ultrapassa 1.700 casos documentados.
"Muitos foram assassinados por razões relacionadas ao narcotráfico, ao desmatamento ou por se oporem à exploração de recursos naturais", explicou o cardeal Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos.
O cardeal observou que, embora muitos fossem missionários, o grupo também incluía fiéis leigos que deram suas vidas defendendo o Evangelho e denunciando narcotraficantes, protegendo territórios indígenas do desmatamento ou combatendo a exploração ilegal de recursos naturais. Como ele explicou, o fio condutor nesses casos é que esses indivíduos se tornaram "inconvenientes" para aqueles que controlam atividades ilícitas. Seu testemunho evangélico entrou em choque direto com interesses econômicos e estruturas criminosas.
Semeraro ofereceu essas reflexões ao apresentar a conferência internacional "O Século XXI: Uma Nova Era de Mártires?" no Vaticano, um dia de estudo e reflexão dedicado a explorar o testemunho de cristãos que perderam suas vidas por causa do Evangelho em várias partes do mundo. O encontro, organizado pela Comissão para os Novos Mártires — Testemunhas da Fé, estava programado para ocorrer em 15 de setembro no Instituto Pontifício Agostiniano em Roma.
O congresso internacional reunirá algumas das vozes mais proeminentes da Igreja, da academia e do jornalismo em Roma para refletir sobre o testemunho cristão no mundo contemporâneo. Entre os participantes estão o cardeal Fridolin Ambongo, arcebispo de Kinshasa, República Democrática do Congo; o cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém; e Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio. Especialistas também falarão, como o arcebispo Fabio Fabene, presidente da Comissão para os Novos Mártires; a jornalista Lucia Capuzzi; o historiador padre Roberto Regoli; e a religiosa sul-sudanesa Alice Jurugo Drajea, que compartilhará sobre a vida cristã em meio à guerra que devasta seu país.
A iniciativa ocorre um ano após a comemoração dos mártires e testemunhas da fé do século XXI, presidida em 14 de setembro de 2025 pelo Papa Leão XIV juntamente com representantes de outras igrejas e comunidades cristãs na Basílica de São Paulo Extramuros.
A comissão continua reunindo testemunhos e informações sobre cristãos mortos por sua fé, com o objetivo de preservar sua memória e documentar as várias formas de perseguição e testemunho cristão nos tempos contemporâneos. De acordo com dados divulgados pela organização no ano passado, 1.624 mártires em todo o mundo foram documentados entre 2000 e 2025. Destes, 304 eram das Américas, um número que reflete a natureza específica do martírio nesta região hoje.
A comissão também observou que o registro agora ultrapassa 1.700 casos documentados e que entre 100 e 150 novos testemunhos foram adicionados apenas no último ano, confirmando que o fenômeno permanece muito ativo.
Em suas observações, Semeraro enfatizou que a santidade na Igreja não se limita àqueles oficialmente canonizados. "A graça da santidade na Igreja é representada pela canonização, mas não se esgota nela. Obviamente, isso não descarta a possibilidade de que, desde que as condições necessárias sejam atendidas, os processos correspondentes de beatificação e canonização possam ser iniciados para alguns dos listados no catálogo", observou ele.
Este é o caso, por exemplo, de Floribert Bwana Chui, um jovem congolês da Comunidade de Santo Egídio que foi assassinado em 2007 por se recusar a aceitar subornos e que foi beatificado em 2025. No entanto, ele observou que o objetivo principal é destacar o "alto padrão da vida cristã ordinária" mencionado por São João Paulo II na Novo Millennio Ineunte, ao qual o Papa Francisco mais tarde se referiu como o dos "santos da porta ao lado".
O cardeal também destacou a dimensão profundamente humana da santidade cristã. "Precisamos de testemunhas, mártires, que se entregaram completamente para nos demonstrar isso dia após dia. Precisamos deles para que, mesmo nas pequenas escolhas da vida diária, possamos escolher o bem em vez do conforto, sabendo que é precisamente assim que realmente vivemos a vida", explicou ele, citando a encíclica Spe Salvi do Papa Bento XVI.
Semeraro também destacou o valor ecumênico deste projeto, uma característica que, segundo ele, São João Paulo II procurou incutir na comissão desde sua criação.
Durante a apresentação da conferência, o historiador Riccardi, vice-presidente da comissão, afirmou que a Igreja está realmente vivenciando uma "nova era de martírio". Ele recordou que São João Paulo II promoveu a coleta de testemunhos de mártires do século XX para o jubileu do ano 2000, uma iniciativa profundamente moldada por sua experiência pessoal sob os regimes nazista e comunista. Na opinião de Riccardi, essa percepção se mostrou ainda mais relevante hoje.
Por essa razão, explicou ele, o Papa Francisco decidiu reativar e consolidar a Comissão para os Novos Mártires, convencido de que "o tempo do martírio continua". A resposta da Igreja tem sido extensa. Dioceses, congregações religiosas, movimentos leigos, conferências episcopais e nunciaturas apostólicas enviaram centenas de testemunhos ao Vaticano.
©2026 Catholic News Agency. Publicado com permissão. Original em inglês: Church documents 304 martyrs in Latin America so far this century https://www.ewtnnews.com/vatican/church-documents-304-martyrs-in-latin-america-so-far-this-century



