
Tóquio - Os eleitores do Japão escolhem hoje todos os 480 representantes da câmara baixa do Parlamento, a Câmara dos Deputados local. As pesquisas indicam vitória folgada da oposição, rompendo cinco décadas quase ininterruptas do Partido Liberal Democrático (PLD) no poder. Para analistas, a esperada mudança não representará necessariamente uma renovação da liderança política do país.
"Será um novo governo, com velhas figuras", aponta Alexandre Uehara, professor de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco. O pesquisador lembra que um grande problema no Japão é a ausência de novas lideranças.
Segundo as sondagens, o grande vitorioso será o Partido Democrático do Japão (PDJ). Se isso acontecer, o próximo primeiro-ministro será Yukio Hatoyama, de 62 anos, que fundou o PDJ depois de militar por anos no PLD. No Japão, o dirigente do partido majoritário na câmara baixa é tradicionalmente designado primeiro-ministro, em votação do Parlamento.
"Tudo indica que será uma vitória arrasadora da oposição. Será uma surpresa se não for", observou o cientista político japonês Takashi Inoguchi, professor da Universidade da Prefeitura (estado) de Niigata, no Japão. "Além disso, o Senado também está nas mãos do PDJ", lembra, referindo-se à vitória da sigla nas eleições de 2007 para a câmara alta do Parlamento.
A economia é um dos principais fatores na disputa. O país entrou em recessão no segundo trimestre de 2008, na pior retração desde a Segunda Guerra Mundial (1939-45). Os japoneses sofreram com a queda das exportações de produtos como veículos e eletroeletrônicos, na esteira da crise mundial. Em meados deste mês, autoridades anunciaram crescimento no segundo trimestre de 2009 e a consequente saída da recessão. Os estragos da crise para a atual administração, porém, não parecem reparados.
O atual primeiro-ministro, Taro Aso, é visto por muitos como um líder fraco, aprovado por menos de 20% dos eleitores. Em 2005, o carismático Junichiro Koizumi levou o PLD a uma vitória folgada. Após Koizumi deixar o poder em 2006, porém, seguiram-se três primeiros-ministros em três anos Shinzo Abe, Yasuo Fukuda e Taro Aso. Nenhum agradou muito aos japoneses.
O professor T. J. Pempel, da Universidade Berkeley, autor de vários livros, entre eles Policymaking in Contemporary Japan (Formulação de Política no Japão Contemporâneo, em tradução livre), aponta Abe como o principal culpado pela crise. Pempel lembra, em entrevista por e-mail, que Abe reverteu as reformas econômicas de Koizumi, levou de volta ao partido dissidentes derrotados pelo ex-líder, nomeou um gabinete fraco e aprofundou a crise no sistema previdenciário.
"Isso levou à derrota na câmara alta em 2007 e desde então à queda constante. Aso pode ter revertido parte do declínio, mas fracassou também", opina Pempel. Outros problemas para o PLD são os escândalos em que vários membros do partido foram envolvidos nos últimos anos.
Mudança?
Com a provável vitória do PDJ, o próximo primeiro-ministro do país será o líder da agremiação, Yukio Hatoyama. Ex-integrante do PLD, assim como várias das lideranças oposicionistas, Hatoyama é considerado um péssimo orador. Além disso, pesa sobre o PDJ a dúvida sobre sua capacidade de administrar a nação. "Creio que eles tentarão mudar a forma como funciona o governo, mas podem se atrapalhar por causa da inexperiência", prevê Inoguchi. "Caso a economia do país continue estagnada, então o PDJ será julgado por seu fracasso", complementa Pempel.







