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A cubana Yoani Sánchez ganhou fama mundial com seus relatos sobre o cotidiano na ilha comunista. Alguns posts em seu blog, o Generación Y (desdecuba.com/generaciony/), já chegaram a receber mais de seis mil comentários. No ano passado, ela recebeu o prêmio Ortega y Gasset, da Espanha, na categoria Jornalismo Digital, mas não pôde receber o prêmio porque não ganhou o visto de saída do governo. O jornalista Sandro Vaia, ex-diretor de redação do Estadão, passou 30 dias em Cuba e gravou mais de 10 horas de entrevistas com Yoani para escrever um livro, A Ilha Roubada, em que conta a história da blogueira e o cotidiano dela no país. O livro será lançado na próxima semana. Leia os principais trechos da entrevista.

Como é o acesso à internet em Cuba?

Em alguns hotéis é possível acessar, mas na rua praticamente não tem onde usar a internet. Só em repartições públicas, com acesso restrito e regulamentado. Em residências também é muito difícil.

Como a Yoani faz para postar?

Ela posta por meio de amigos. Encaminha o texto para amigos que têm acesso interno, eles mandam para a Alemanha, onde fica o servidor, e de lá é postado. Inclusive ela só consegue ler os comentários depois que alguém manda para ela xerocado. E como são muitos comentários, ela acaba não lendo todos.

O blog dela pode ser acessado a partir de Cuba?

Eu tentei várias vezes, no Hotel Habana Libre, e toda as vezes apareceu "error". Nos quase 30 dias em que fiquei lá não consegui acessar nenhuma vez. Mas ela diz que alguns amigos, que trabalham em repartições públicas, têm acesso.

Ela é uma pessoa conhecida dentro do país?

Num determinado círculo de pessoas, entre as pessoas mais informadas, sim, mas não do grande público.

Como é a relação dela com o governo. Ela é perseguida?

De vez em quando ela pede o visto de saída, mas sempre é negado. Recentemente ela pediu para ir receber o prêmio Ortega Y Gasset, na Espanha, mas não a deixaram sair. Ela também foi convidada para vir ao Brasil, há uns três meses, e também não a deixaram vir. Ela diz que coleciona negativos de visto de saída. Ela encaminha oficialmente o pedido, um papelzinho que ela preenche numa repartição policial destinada a isso, e daí dão um banho de cadeira nela, demoram semanas para responder e negam o pedido.

Você diz no livro que ela não faz parte da militância clássica de dissidentes em relação ao regime cubano...

Exatamente. Existem várias organizações partidárias ilegais, clandestinas ou semi-clandestinas em Cuba, aproximadamente 120 grupos desses. Mas ela não tem ligação com eles. Ela é independente mesmo. O blog é uma coisa muito pessoal. É uma aventura individual.

Qual você julga ser o impacto do blog dela para a democracia em Cuba?

Dentro de Cuba ela não se nota porque o acesso à internet é muito restrito. Mas existe um grupo em volta dela, que lhe dá apoio informal. É um pessoal que acha que ela é útil para fazer o mundo conhecer a situação do país. Principalmente com relação às carências materiais, tema que ela trata bastante no blog. O racionamento, a dificuldade de acesso a bens de consumo, a falta de liberdade de expressão, esse tipo de coisa. Ela aglutina em termos subjetivos, mas não chefia nenhum movimento. (BB)

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