A explicação mais recorrente para os problemas da infância africana é a de que o continente encontra-se à margem da globalização por causa da defasagem econômica. O especialista em cultura africana Jairo Pereira de Jesus discorda. "Não há povo que agüente tamanha pressão externa durante séculos", afirma, referindo-se ao domínio árabe, ainda no século 8, e ao colonialismo europeu, que durou até a segunda metade do século 20.
Em sua avaliação, "o maior pecado do povo africano foi não ter ambição". Ele acredita que os africanos dominados pelos europeus tinham uma concepção de mundo oposta à que a maioria da população adota no Brasil, por exemplo. "A cultura africana não previa o acúmulo de riqueza. Eles partiam da idéia de que a vida é sagrada por natureza, de que nenhum ser humano deve ser diminuído em qualquer fator."
Em sua avaliação, essa concepção facilita o domínio estrangeiro sobre a região, considerada o berço da história da humanidade. "A ajuda humanitária hoje funciona como mea-culpa dos povos que invadiram a África", declara, apontando que os conflitos foram reações contra os invasores.
A violência que matou milhões nos últimos 40 anos durante disputas por recursos minerais e rivalidades étnicas tem explicação, diz o pesquisador, que dedica ao assunto seu projeto de mestrado, na Escola Superior de Teologia, em São Leopoldo (RS). A disposição para os conflitos seria uma herança histórica, que a União Africana acordo de 2002 inspirado na União Européia pretende superar eliminando fronteiras.
"É preciso reafricanizar a África", diz Jairo de Jesus, a partir das pesquisas desenvolvidas pelo sociólogo Boaventura de Sousa Santos e pelo educador Paulo Freire. Ele acredita que a partir do momento em que os países africanos recuperarem o curso de sua história, conseguirão resolver problemas como a mortalidade infantil com mais facilidade.
O brasileiro descendente de africanos desenvolve um plano pedagógico que considera adequado à África. Seu projeto é uma crítica à idéia de que as escolas devem seguir um currículo. Defende que a referência deve ser o universo étnico-cultural. "A educação deve ser um espaço para a diversidade e para a vida", afirma.



