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HUMANIDADE

Médicos judeus atendem suspeito atirador após massacre antissemita

“Eu quero matar todos os judeus”, disse o acusado pelas mortes de 11 pessoas em uma sinagoga ao chegar ao hospital para ser tratado pelos ferimentos após tiroteio com a polícia

  • Eli Rosenberg
  • The Washington Post
Pessoas se reúnem em frente à congregação Tree of Life, em Pittsburgh (EUA) em 30 de outubro. | BRENDAN SMIALOWSKI/ AFP
Pessoas se reúnem em frente à congregação Tree of Life, em Pittsburgh (EUA) em 30 de outubro. BRENDAN SMIALOWSKI/ AFP
 
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O homem acusado pelas mortes brutais de 11 pessoas em uma sinagoga em Pittsburgh (EUA) foi levado ao hospital depois de ser preso para ser tratado pelos ferimentos que sofreu durante tiroteio com a polícia. 

Na sala de emergência, quando ele chegou, estava gritando: “Eu quero matar todos os judeus”, segundo o diretor do hospital. 

Se ele soubesse naquele momento a identidade da equipe encarregada de mantê-lo vivo: pelo menos três dos médicos e enfermeiros que cuidaram dele no Hospital Geral de Allegheny eram judeus, segundo o diretor Jeffrey K. Cohen. 

“Estamos aqui para cuidar de pessoas doentes”, disse Cohen, que é membro da congregação Tree of Life (Árvore da Vida), onde o massacre aconteceu, em uma entrevista na televisão. “Não estamos aqui para julgar você. Não estamos aqui para perguntar ‘você tem seguro?’ ou ‘você não tem plano de saúde?’ Estamos aqui para cuidar de pessoas que precisam da nossa ajuda”. 

A descrição simples e direta de Cohen de como Robert Bowers foi tratado de maneira justa e imparcial pelas próprias pessoas que ele supostamente odiava se espalhou rapidamente pelo mundo. 

Leia também: Comportamento normal escondia o ódio: o que sabemos sobre o suspeito do massacre de Pittsburgh 

Talvez seja um lembrete duro de que há algo mais poderoso do que se importar apenas com os seus. Talvez tenha sido a demonstração radical de humanidade de Cohen em uma era cada vez mais marcada pelo partidarismo e pelo tribalismo nus e crus. De qualquer maneira, a história ressoou; Cohen foi entrevistado pela CNN, Channel 4 News da Grã-Bretanha, ABC e outros. 

“Eu achei que era importante pelo menos conversar com ele e conhecê-lo”, disse Cohen à ABC. “Você não pode por um lado dizer que devemos conversar um com o outro, e então eu não falar com ele. Você lidera pelo exemplo, e eu sou o líder do hospital”. 

A natureza exata dos ferimentos de Bowers não está clara ainda, embora ele tenha aparecido no tribunal em uma cadeira de rodas nesta segunda-feira. Cohen, citando as leis de privacidade do paciente, se recusou a dar detalhes sobre a condição e o tratamento de Bowers. 

Mas Cohen disse aos repórteres que dois dos clínicos que trataram Bowers quando ele chegou ao hospital eram judeus: o médico assistente do pronto-socorro e uma enfermeira, cujo pai é um rabino. 

“Eu vou te dizer que estou muito orgulhoso deles”, disse ele de sua equipe. “Eles fizeram um ótimo trabalho. Eles responderam ao chamado”. 

Ele descreveu a conversa com o enfermeiro depois que ele atendeu Bowers. Os dois estavam em lágrimas, disse Cohen. 

“Ele estava destroçado”, disse Cohen ao Pittsburgh Tribune-Review. “Eu disse a ele como eu estava orgulhoso. Ele foi para casa e abraçou seus pais”. 

Cohen está pessoalmente ligado ao tiroteio além de seu papel no hospital. Ele mora tão perto da sinagoga Tree of Life que ouviu os tiros quando o massacre aconteceu. Ele conhecia nove das pessoas que foram mortas, disse ele ao Tribune-Review. 

Leia também: Vítimas do tiroteio na sinagoga de Pittsburgh tinham entre 54 e 97 anos

Ainda assim, isso não o impediu de verificar Bowers para perguntar se ele estava com dor. O homem disse que estava bem. 

“Ele me perguntou quem eu era, eu disse: 'sou o Dr. Cohen, o diretor do hospital’”, disse Cohen. “E eu me virei e saí. E o agente do FBI que o estava vigiando disse: ‘eu não sei se conseguiria ter feito isso’”. 

Bowers, que tem 29 acusações de crimes federais por delitos relacionados a violência e armas de fogo, pode sofrer pena de morte se for condenado. O massacre atraiu alguns infelizes paralelos com o assassinato de nove afro-americanos em uma igreja da Carolina do Sul em 2015. Aquele homem, Dylann Roof, foi motivado por uma profunda animosidade racial – algo que Bowers parece compartilhar com ele. 

A calma de Cohen lembrou as ações dos frequentadores da igreja após o massacre feito por Roof, com pessoas dizendo a Roof durante uma tensa audiência dias após o tiroteio que elas o perdoavam. Cohen disse que foi inspirado pela bondade que aquela congregação demonstrou. 

“Acho que em algum momento a raiva vai diminuir, o processo se desdobrará e talvez possamos chegar ao ponto em que conseguiríamos fazer o que eles fizeram”, disse ele à Action 4 News, de Pittsburgh. “Espero que eles possam nos ensinar”. 

Leia também: Papa Francisco condena ataque contra sinagoga e pede fim de 'focos de ódio'

Cohen disse que viu Bowers como o produto e não como o originador de problemas maiores: “Todo o caos que está acontecendo”. 

“O senhor em questão não parecia ser um membro da sociedade Mensa”, disse ele à CNN. “Ele ouve o barulho, escuta o barulho, o barulho está dizendo que o seu povo está sendo abatido. Ele acha que é hora de se levantar e fazer alguma coisa. Ele está completamente confuso”. 

Teorias de conspiração infundadas com tendências antissemitas têm circulado na mídia – borbulhando até os feeds de um conhecido apresentador da Fox News e de um congressista republicano – que a caravana de migrantes na fronteira foi orquestrada por grupos progressistas e financiada pelo judeu George Soros. Bowers havia repostado vários comentários em uma conta de mídia social que agora está desativada sobre a “caravana do terceiro mundo” se aproximando com “invasores”. 

Cohen guardou suas palavras duras para as pessoas que ele disse serem responsáveis pelo clima tóxico no país. 

“É hora de líderes liderarem”, disse ele. “E as palavras têm significados. E as palavras estão levando as pessoas a fazer coisas assim e eu acho isso terrível”.

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