A verdade nunca é bem-vinda em certos ambientes da vida social. No espaço de poder público os fatos sempre são pintados em tons pastéis: que artífices! Não por um desejo atávico daqueles que por opção encontram no público seu lócus de sobrevivência, seu abrigo contra as intempéries da vida privada, mas por uma razão simples: as opções adotadas pelos políticos são sempre tão pouco republicanas e tão desligadas de um compromisso com o coletivo que seria impossível garantir uma vida comunitária sem arte do discurso.
Descrever um fato na plenitude de seus contornos, agregando valores transparentes é uma obrigação perigosa para aqueles que têm por designação popular a obrigação de atuar em nome de um grupo. Se a mentira é um instrumento da política, nos vínculos internacionais a mentira é a própria metodologia do ferramental do poder. As rápidas e precisas declarações que tornam catástrofes em desastres e desastres em acidentes são de uma utilidade ímpar nas guerras.
Uma das mentiras atuais mais importante é aquela que tende a negar que os EUA têm problemas na sua incursão no Iraque. Não dá para contar a verdade sobre as vantagens de um conflito sob pena do julgamento ácido dos hipócritas das universalidades particulares. Mesmo assim as dificuldades existem e se sobrepõem.
Contudo, os EUA têm três dilemas profundos no Iraque: a falta de delimitação de objetivos em longo prazo, os custos monstruosos da operação e a perda de homens em combate. Em relação ao primeiro há uma percepção maniqueísta de que o Oriente Médio tem pouco a oferecer ao ocidente em termos extra-econômico-geopolíticos. Os custos são um problema aparente já que um eventual Iraque estável e, economicamente faminto, seria a fonte de escoamento de um petróleo capaz de equilibrar a política energética internacional abalada pelas riquezas geológicas das periferias geopolíticas. Em relação ao último um grande problema é apresentado, na guerra moderna o sangue ocidental é incolor. A legitimidade do conflito moderno foi construída com base num ideal da guerra limpa e de precisão. Assim, a máscula agressão bélica é sempre tolerada, já que redentora de um mundo niilista, sem externalidades humanas-ocidentais.
Qualquer estrategista pode descrever os melhores mecanismos para, com a tecnologia militar norte-americana, subjugar insurgentes ou libertários e em pouco tempo garantir uma vitória. Contudo, essa estratégia é custosa e envolve recursos superiores aos bélicos, utilizados até agora. As forças armadas, igualmente, sem o apoio da opinião pública doméstica, não entendem seu papel no Iraque e a ausência do pratrioteiro, convencional nas ações norte-americanas, exige uma coesão ético-político superior e não um juízo moral de duvidoso gosto e de credibilidade acéfala.
Os estadunidenses seguem errando na sua estratégia para o Iraque. Não pelo ferramental mitomaníaco mal empregado, mas pela falta de clareza política sobre seus objetivos políticos extra-econômico-geopolíticos. Não há nenhuma opção viável para os EUA no Iraque. Contudo, todos os resultados serão redentores de estratégias militares menos explicitas, mais contundentes, mais inteligentes, mais tecnológicas e fortemente apoiadas por mecanismos planificados de poder.
Leonardo Arquimimo de Carvalho, Pesquisador da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas



