
A porta da casa de Michael Keaton estava escancarada. Lá dentro, o ator que incorporou Batman duas vezes e Beetlejuice, uma só, saiu da cozinha para me cumprimentar. E fez questão de me mostrar a sala da casa que fica em Pacific Palisades. Na mesinha de centro, um livro sobre pesca com mosca escrito por Thomas McGuane, amigo e companheiro da prática em Montana, onde o ator também tem casa. Em um canto, o piano usado por seu filho, o compositor Sean Douglas. "Tenho uma vida bem agitada. Sou interessado por um monte de coisas", diz simplesmente. Muitos fãs também se perguntam o que foi feito desse artista tão versátil que fez fama na comédia, no drama e na ação dos anos 80 e 90 e que depois parece ter sumido completamente. Enquanto isso, Keaton, o ator conhecido por seus gostos volúveis e por recusar papéis irrecusáveis, estava todo feliz em Montana, se escondendo a olhos vistos. Agora seu talento está ressurgindo. Na comédia de humor negro "Birdman (The Unexpected Virtue of Ignorance)", que estreia nos EUA ainda este ano e no início de 2015 na Europa, ele interpreta um astro de ação fracassado que ensaia uma volta. Alguns paralelos com a vida do ator são intencionais: agarrando-se ao alter-ego do super-herói o Birdman do título seu personagem espera recuperar o prestígio artístico, ou pelo menos uma migalha daquilo que o fez se tornar ator.
Na tela, os resultados são irregulares; fora delas, porém, está tudo indo às mil maravilhas. Com Alejandro G. Iñárritu como diretor e um dos roteiristas, "Birdman" vem gerando o tipo de crítica feita a trabalhos com cacife para brigar pelo Oscar. O filme é um metacomentário sobre as armadilhas da fama, mas também oferece a Michael Keaton, de 63 anos, um papel que pode definir sua carreira. "O filme fica sombrio, esquisito e, depois, divertido", diz ele.
Na pele de Riggan Thomson, que já esteve em boa forma, mas hoje se vê barrigudinho e com o cabelo começando a rarear, Keaton adapta, dirige e protagoniza a adaptação para o palco da história seminal de Raymond Carver, "What We Talk About When We Talk About Love". E o filme acompanha todo o processo, geralmente em close-ups, do desenvolvimento da ideia, do ponto de vista de Riggan, de seus colegas da Broadway incluindo Edward Norton e Naomi Watts como o casal poderoso do teatro e da filha, transformada em ajudante, uma Emma Stone gloriosamente ácida.
E o tempo todo ele é atormentado pela voz e a visão do Birdman (também interpretado por Keaton, com direito a roupa de látex e plumagem) que, impiedosamente, não lhe deixa esquecer a celebridade que já foi. "Quando terminei o roteiro, sabia que Michael não era escolha, nem opção; ele era o cara", conta Iñárritu, cineasta que ficou conhecido por "Babel", "21 Gramas" e "Amores Brutos".
Disse também que Keaton, tinha o alcance emocional e o charme discreto para compensar Riggan, suas mudanças de humor e seu narcisismo. "É um dos poucos caras neste mundo que usaram aquela capa", continua, referindo-se aos filmes "Batman" de 1989 e 1992. "A autoridade e confiabilidade que traz consigo foram essenciais." "Mas quando nos encontramos para jantar e discutir a possibilidade de trabalharmos juntos, a primeiro coisa que ele disse para mim foi: Você está tentando tirar uma com a minha cara?, relembra.
Iñárritu diz que o filme pode até se encaixar com Keaton, mas foi inspirado em sua própria vida. "Quando estou trabalhando, o meu Birdman, o meu ego, se torna imenso; pode me levar às alturas e, meia hora depois, me destruir completamente". Para o ator, o projeto não chegou à sua vida agora por coincidência."Em parte foi sorte, mas em parte fui eu fazendo as coisas acontecerem", diz ele a respeito dos testes para o trabalho, e outros mais que vêm fazendo recentemente, já que os outros aspectos de sua vida como a família e a casa estão definidos. "Não gostei de Riggan, mas não posso mentir e dizer que não houve cenas nas quais me identifiquei totalmente", confessa ele.
Michael Keaton ficou famoso com a comédia de 1982, "Corretores do Amor", depois da qual começou a buscar papéis pouco ortodoxos, marca registrada que permeou toda sua carreira. Admite ter feito trabalhos de pouca ou nenhuma qualidade pelo dinheiro fácil, enquanto criava o filho, hoje com 31 anos. E enquanto esperava uma mudança nos gostos da indústria do entretenimento, acabou fazendo outras coisas, como um programa sobre pescaria para o Outdoor Channel.
Comparado a outros astros, "ele é outro tipo de gato", define McGuane, o companheiro de pesca cujo rol de amizades incluiu Marlon Brando e Steve McQueen. "Já fez um monte de coisas, por opção, que não têm nada a ver com o cinema."
Talvez assim tenha conseguido manter seu Birdman à distância. "Meu pai sempre me dizia: Quanto tiver sucesso ao seu alcance, prove seu gosto e cuspa fora porque ele é venenoso. Acho que foi exatamente isso o que o Michael fez", conclui Iñárritu.






