Aleksandrs Antonenko, que faz o papel-título em “Otello”. | Sara Krulwich/The New York Times
Aleksandrs Antonenko, que faz o papel-título em “Otello”.| Foto: Sara Krulwich/The New York Times

Algo havia mudado em um recente ensaio geral da Metropolitan Opera. O tenor letão Aleksandrs Antonenko cantava o papel-título de “Otello”, de Verdi, sem a maquiagem empregada pelas companhias há mais de um século para escurecer os cantores de pele branca que representam o papel.

“O Met está rompendo com a tradição, e eu serei branco”, disse Antonenko, dando de ombros, enquanto recebia uma aplicação de pó de arroz em seu camarim.

Foi uma maneira casual de descrever uma mudança profunda.

O fato de as maiores companhias mundiais de ópera terem continuado a usar o “blackface” (a aplicação de maquiagem negra em atores brancos para representar papéis de negros) pode surpreender muitas pessoas. Só agora a prática está sendo aposentada pelo Met, após 124 anos, com a nova produção de “Otello”.

A iniciativa se deu mais de uma geração depois de as maiores companhias de teatro terem deixado de “enegrecer” atores brancos para representarem Otello na peça de Shakespeare.

A maquiagem facial negra foi usada desde a première de “Otello” no Met, em 1891, até a produção mais recente da ópera pela companhia, em 2013, quando Otello foi representado por José Cura.

Aleksandrs Antonenko já cantou o papel de Otello (descrito na ópera e na peça como mouro) em toda a Europa, sempre com a maquiagem negra.

A mudança em relação ao “blackface” divide as opiniões dos amantes da ópera.

Quando o Met postou em sua página do Facebook um vídeo de um ensaio recente, um internauta escreveu: “Otelo deveria estar usando ‘blackface’”. Outro comentou que o primeiro internauta estava “vivendo no século 19”.

Bartlett Sher, o diretor da nova produção de “Otello” no Met, disse que não teve muitas dúvidas quanto à decisão de não pintar o rosto de Antonenko.

“Não passou por minha cabeça que hoje, em nossos tempos, pudéssemos cogitar em usar a maquiagem negra”, disse Sher.

“A ideia do ‘blackface’ tem toda uma conotação histórica negativa em nosso país. E é uma tradição teatral que já superamos.”

A ópera está apenas agora alcançando o teatro nesse quesito.

Um dos últimos grandes atores brancos a representar “Otello” usando maquiagem negra foi Michael Gambon, em 1990. Nas décadas recentes, o papel foi representado no palco quase exclusivamente por atores negros.

Mas é mais difícil fazer o casting da ópera. Poucos tenores dramáticos de qualquer raça ou origem são considerados capazes de cantar o papel de Otello na ópera de Verdi.

Francesca Zambello, a diretora artística da companhia Washington National Opera, disse que toda a discussão sobre “Otello” e maquiagem destaca a persistente falta de diversidade na ópera.

“As grandes histórias e os grandes personagens nos fascinam não devido à cor de sua pele, mas porque nos reconhecemos neles, em seus aspectos positivos e negativos.”

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