Cena de “Narcos”; Netflix pretende estar presente em 200 países até o final de 2016 | Daniel Daza/Netflix
Cena de “Narcos”; Netflix pretende estar presente em 200 países até o final de 2016| Foto: Daniel Daza/Netflix

“Diga sim à sua vida”, aconselha Nancy Reagan quase no final do primeiro episódio da série “Narcos”, que estreou no Netflix. Trata-se de parte do discurso “Just Say No” (“apenas diga não”), que ela e seu marido, o então presidente Ronald Reagan, proferiram em 1986. “E, quando se trata de drogas e álcool”, prossegue ela, “apenas diga não”.

Corta para um traficante de drogas ajoelhado. “Não, não, não, não, Pablo, não”, implora, antes de ser baleado na cabeça em um campo na Colômbia.

É uma sequência que revela ao mesmo tempo o estilo e a substância de “Narcos”, série que retrata a sangrenta ascensão do Cartel de Medellín, na Colômbia, nas décadas de 1970 e 1980.

Gravado na Colômbia e produzido pelo cineasta brasileiro José Padilha (“Tropa de Elite”), o programa mescla trechos de noticiários reais e cenas ficcionais para contar o nascimento do tráfico de cocaína e a ambiguidade moral das autoridades colombianas e americanas no combate a esse fenômeno. “Pablo”, obviamente, é Pablo Escobar, o barão da droga, contidamente ameaçador na interpretação de Wagner Moura.

Para o Netflix, “Narcos” representa mais uma empreitada internacional ambiciosa em sua busca por novos assinantes fora dos EUA. Hoje disponível em mais de 50 países, o serviço pretende estar presente em 200 até o final de 2016. No último ano, o serviço de exibição de conteúdos “on-demand” incorporou ao seu cardápio custosas produções internacionais, como “Sense8” (muito elogiada) e “Marco Polo” (nem tanto). “Club de Cuervos”, primeira produção do Netflix em espanhol, estreou em agosto, e “Marseille”, série em francês, começará a ser produzida em breve.

Padilha, produtor de “Narcos”, começou no documentário (“Ônibus 174”) e manteve seu tom didático ao passar para o cinema de ficção. Os dois “Tropa de Elite” fizeram enorme sucesso no Brasil ao apresentar Moura no papel do capitão Nascimento, um comandante policial de ética errática, que oferecia um olhar cínico e polêmico sobre a corrupção.

“Narcos” é igualmente afiado. A série ataca Escobar, mostrando-o como um contrabandista megalomaníaco e narcisista, mas também a política antidrogas dos EUA, que declarou “guerra” aos fornecedores sem se esforçar muito para coibir a demanda.

“Uma vez que você constrói a ideia de uma ‘guerra’ às drogas, você encara isso como uma questão de polícia, algo que você vai resolver com armas”, disse Padilha. “Você vai prender e matar um monte de gente.”

Os homens encarregados de conterem Escobar são Steve Murphy e Javier Peña, interpretados por Boyd Holbrook e Pedro Pascal. Os personagens são baseados em agentes reais da DEA (agência antidrogas dos EUA) que ajudaram a polícia colombiana a localizar Escobar, que acabou sendo morto em 1993.

Embora “Narcos” seja basicamente uma série de ficção, Padilha observou que, em linhas gerais, o enredo é historicamente verídico, com base em pesquisas e contribuições dos agentes.

O elenco inclui artistas de Brasil, Argentina, Chile e Colômbia, vários dos quais estiveram em Bogotá no auge da violência, entre o final dos anos 1980 e começo dos 1990.

Os atores latino-americanos de “Narcos” elogiaram, de forma geral, a oportunidade de contar a história do Cartel de Medellín por um prisma mais local. A série foi gravada majoritariamente em Bogotá, e grande parte dos diálogos é em espanhol, com legendas.

Para os agentes da DEA da vida real, “Narcos” representa outra fissura numa narrativa que eles consideram ter sido mal contada em relatos como o livro “Matando Pablo”, de 2001, que, segundo Murphy, conclui equivocadamente que ele e seus colegas colaboraram com justiceiros colombianos na caçada ao traficante.

Padilha espera que “Narcos” seja apenas a primeira etapa de uma série com várias temporadas que aborde o narcotráfico por meio dos sucessivos cartéis que controlaram o fornecimento de drogas para o mercado americano, chegando até a turbulenta atualidade no México. “Você apenas renova os bandidos e interpreta o mesmo drama”, disse ele.

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