O ator Josh Brolin é o homem que busca vingança no novo filme de Spike Lee, “Oldboy - Dias de Vingança” | Hilary Bronwyn Gayle/FilmDistrict
O ator Josh Brolin é o homem que busca vingança no novo filme de Spike Lee, “Oldboy - Dias de Vingança”| Foto: Hilary Bronwyn Gayle/FilmDistrict

"A raiva não precisa fermentar por muitos anos, mas a vingança é um negócio que leva tempo. Ela inspira filmes, livros. Está até na Bíblia", afirma Spike Lee.

No novo filme do cineasta, "Oldboy - Dias de Vingança", que começa a ser lançado ao redor do mundo a partir de janeiro, Josh Brolin é Joe Doucett, um pai negligente e alcoólatra que se vê preso num quarto misterioso durante vinte anos sem nenhum motivo aparente. Acreditando ter sido punido pelo assassinato da ex-mulher e sem saber se a filha foi sequestrada ou não, vai remoendo sua fúria até que ela explode num banho de sangue.

Quando finalmente se vê livre, está tão determinado a se vingar que até a própria cidade se molda ao seu desejo. Uma das cenas mostra Joe, de terno preto e expressão carrancuda, literalmente deslizando pelas ruas, que rolam sob seus pés como se tivessem vida própria. Ele parece seguir o impulso da vingança, movido por uma força invisível.

Os fãs do diretor reconhecem a técnica como a famosa e polêmica tomada "double dolly" que virou sua marca registrada e não pode ser utilizada por nenhum outro profissional sem que seja acusado de plágio. Em vez de montar a câmera num carrinho de rodas que se movimenta nos trilhos, Lee coloca o ator e o equipamento numa plataforma móvel. Assim, eles deslizam juntos, unindo o artista à câmera, mas isolando-o do ambiente que o cerca.

Quando o cineasta e o diretor de fotografia Ernest Dickerson usaram o recurso pela primeira vez no set de "Mais e Melhores Blues", de 1992, era só "para se exibir, coisa de estudante de cinema", admitiu. Desde então, foi utilizado para registrar o fascínio inexorável das drogas ("O Verão de Sam", "A Última Noite"), sexo ("Garota 6", "Febre da Selva"), fúria ("O Plano Perfeito") e fatos históricos ("Malcolm X"). Seu movimento cria um clima de inevitabilidade real: personagens como Joe são literalmente dirigidos nas cenas, sem poderem voltar atrás.

Não foi à toa que o primeiro ator que Lee registrou assim tenha sido ele mesmo. A técnica não só é característica sua por ser ousada, direta, polêmica e inovadora, mas por refletir a coragem e a determinação inabalável de uma carreira prolífica. "Eu sabia que ia ser bom antes mesmo de estudar cinema", gaba-se ele.

"Oldboy" é o filme de vingança clichê, no qual as dificuldades de um homem o levam a buscar a grandeza sem temor. Perguntei se é o mesmo sentimento que o motiva.

"De certa forma, os críticos cumprem esse papel. Michael Jordan foi eliminado do time de basquete da escola. Se você despreza alguém, a pessoa não esquece, passe o tempo que for."

Como de costume, Lee comentou o fato de a Universidade do Sul da Califórnia e o Instituto Norte-Americano de Cinema terem rejeitado sua matrícula no curso de cinema. E contou a história de como quase foi expulso da Faculdade de Cinema da Universidade de Nova York por causa da péssima avaliação do curta "The Answer", resposta furiosa ao racismo de "O Nascimento de uma Nação", que D. W. Griffith fez em 1915. Depois de repensar a pergunta, porém, diz: "Há alguns paralelos, mas não muitos. Para falar a verdade, eu já tinha embarcado numa missão; só precisava do equipamento."

Nos 31 anos que se passaram desde a formatura, ele se tornou um dos cineastas mais prolíficos do cinema independente, alternando projetos idiossincráticos ("Verão em Red Hook") com sucessos comerciais ("O Plano Perfeito"). Apesar dos protestos, fracassos, e críticas, Lee fez vinte longas e sete documentários, clipes musicais, programas para a TV e comerciais, vendeu milhões de pares de Air Jordan, adotou a tecnologia digital e foi professor da Universidade de Nova York durante quinze anos — mas nunca tinha feito um remake até assumir "Oldboy", um clássico ultraviolento feito em 2003 pelo sul-coreano Park Chan-wook (ele prefere dizer que é "releitura").

"Não me propus a superar o original; estou mostrando apenas a minha interpretação", explica ele.

E prossegue dizendo que o fator motivador do filme é a vingança, apesar das várias reviravoltas do roteiro, pois ela é universal. "Os filmes desse gênero são muito populares porque as pessoas não têm coragem de fazer nada, mas transferem seu desejo para o personagem", define.

Seu novo projeto, "O Sangue de Jesus", estrelado por dois novatos, Zaraah Abrahams e Stephen Tyrone Williams, que fala sobre pessoas viciadas em sangue, acabou de ser rodado.

Para realizá-lo, o diretor levantou US$ 1,25 milhão através do site de "crowdfunding" Kickstarter.

"Fizemos tudo em 16 dias. Acabamos um dia antes do prazo!", gaba-se ele.

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