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Membro da equipe de salto com esqui do Cazaquistão treina no complexo esportivo internacional de Sunkar, em Almaty | James Hill/
 The New York Times
Membro da equipe de salto com esqui do Cazaquistão treina no complexo esportivo internacional de Sunkar, em Almaty| Foto: James Hill/ The New York Times

Alguns a consideram a pior disputa na história olímpica, depois que várias cidades desistiram, deixando apenas uma dupla especialmente bizarra de concorrentes.

As candidatas? Pequim, cidade não conhecida por sua história nos esportes de inverno, e Almaty.

“Queremos ganhar”, disse Akhmetzhan Yessimov, o prefeito de Almaty. A cidade montou uma proposta que é abrangente e original e se tornou uma candidata legítima conforme as demais desistiram, uma após outra.

No entanto, vencer a votação do Comitê Olímpico Internacional neste mês é outra questão. Almaty é inquestionavelmente o azarão.

Grande parte disso tem a ver com sua concorrente. Pequim organizou uma Olimpíada notável em 2008. Porém, eram os Jogos de Verão, indicam os defensores de Almaty, e Pequim estaria basicamente fabricando um esquema de Jogos de Inverno com muito dinheiro, um projeto extravagante e uma cultura de esportes de inverno que pode ser descrita generosamente como “em desenvolvimento”.

Infelizmente, para Almaty, as regras do COI —em consequência de um escândalo relacionado à concessão dos jogos de 2002 a Salt Lake City— proíbem que qualquer dos 101 membros que votarão na proposta visite as cidades candidatas de antemão.

No caso de Pequim, isso é provavelmente bom, já que a maioria das pessoas afiliadas ao movimento olímpico ainda tem sentimentos positivos sobre 2008.

Para Almaty, porém, as regras são prejudiciais. O país conquistou sua independência em 1991 e passou por um redemoinho de desenvolvimento que cobre tudo, desde sua economia baseada no petróleo à nascente estrutura governamental. Como disse Andrey Kryukov, vice-presidente da candidatura de Almaty: “Há muitos ex-Estados soviéticos, muitos ‘-stãos’. Mas nós somos o mais avançado. Somos o mais forte. Queremos poder mostrar isso aos eleitores, mas não nos permitem”.

Kryukov admitiu que isso é o maior obstáculo para Almaty. Antigas percepções sobre o que é a vida no Cazaquistão são difíceis de apagar, disse ele, especialmente sem a oportunidade de demonstrar, por exemplo, o centro compacto da cidade e a encantadora área comercial para pedestres, com um parque verdejante, perto da área conhecida como Arbat.

A imagem é crítica. É impossível saber quantas pessoas, por exemplo, poderiam ter ideias preconceituosas sobre o Cazaquistão com base no personagem e no filme extremamente ofensivo (e extremamente popular) “Borat”, de Sacha Baron Cohen.

A força da aposta de Almaty, segundo os organizadores, está em sua natureza compacta e sua autenticidade. Em Almaty, todos os locais esportivos se situam em um raio de 30 quilômetros. Uma arena de hóquei foi construída e outra será concluída para os Jogos Universitários em 2017. A pista de salto com esqui será visível das janelas dos escritórios no centro metropolitano da cidade.

Quando os inspetores do COI visitaram a cidade, alguns meses atrás, Kryukov afirmou que a reação foi quase totalmente positiva. Em junho, quando Almaty e Pequim fizeram apresentações aos membros do COI, a de Almaty, que incluiu várias fotografias de neve espessa, pareceram ter boa recepção.

Dick Pound, membro canadense do COI, disse mais tarde: “Parece-me que eles descobriram todas as fraquezas das concorrentes e superaram as diferenças: neve, água, ar, experiência”.

Preocupações sobre infraestrutura inútil, ruas lotadas e locais “elefantes-brancos” tornaram difícil vender aos eleitores as propostas de Olimpíadas de Inverno.

Munique, Estocolmo, a região do Tirol (na Áustria e na Itália) e Oslo caíram em sequência.

“A tendência que deve preocupar os amantes do esporte”, disse Minky Worden, diretor de iniciativas globais na Human Rights Watch, “é que, cada vez mais, os autocratas que não enfrentam críticas internas são os únicos que querem pagar por esses megaeventos esportivos.”

O presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev, lidera o país desde 1989. Ele ganhou mais um mandato em abril, com aproximadamente 98% dos votos.

“Em termos de direitos humanos, não é tão ruim quanto a China ou a Rússia”, disse Dina Baidildayeva, que trabalha como ativista em Almaty. “Mas isso não quer dizer que aqui seja bom.”

Outros grupos se preocupam com a poluição. O ar ruim de Pequim é bem conhecido, mas o de Almaty não é muito melhor, segundo Abay Yerekenov, ativista ambiental da cidade.

Há exemplos de países que sediam grandes eventos esportivos e progridem em termos políticos. O caso mais notável é o de Seul, que hospedou os Jogos de Verão em 1988 quando a Coreia do Sul ainda estava sob uma ditadura militar, disse Worden.

“O COI comunicou que eles não poderiam sediar a Olimpíada se houvesse um banho de sangue. Eleições foram realizadas seis meses antes, e desde então é uma democracia sólida.”

Em uma manhã fria de abril, Askar Valiyev, executivo da proposta de Almaty, parou perto do topo do complexo de salto com esqui e olhou para a cidade lá embaixo. Ele apontou para a reluzente torre do hotel Ritz-Carlton e um shopping center vizinho, então acenou com a mão para as áreas mais cinzentas nas bordas da cidade.

“Tudo está mudando em Almaty”, disse, “mas se ganharmos esses jogos vai mudar mais depressa. E melhor.”

Colaborou Ruslan Medelbek

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