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Aula de dança no Parque Gorki, em Moscou; economia do país melhorou sob Vladimir Putin, mas a mudança teve seu preço | Valeri Nistratov /The New York Times
Aula de dança no Parque Gorki, em Moscou; economia do país melhorou sob Vladimir Putin, mas a mudança teve seu preço| Foto: Valeri Nistratov /The New York Times

A capital da Rússia já usou muitas roupagens desde a queda da União Soviética.

Houve a indumentária esfarrapada, mas esperançosa, dos primeiros anos —desgastada, mas plena de possibilidades. Então foi a vez das peles de oncinha dos anos 1990, uma era de colapso econômico assustador, quando os ricos percorriam a cidade de Mercedes e todas as outras pessoas sofriam os efeitos do capitalismo descontrolado.

Recentemente, porém, a cidade trajou um lindo vestido de verão.

Moscou tem um programa de empréstimo de bicicletas, wi-fi no metrô e aulas gratuitas de tango no Parque Gorki. Trens expressos evitam o trânsito no trajeto até os aeroportos e motoristas do Uber tomaram o lugar dos táxis decadentes da era soviética.

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Entretanto, ao mesmo tempo em que a aparência de Moscou é cada vez mais como a de uma capital europeia elegante, sua vida política segue o rumo inverso. Em julho, o comitê público de investigações da Rússia propôs que os princípios dos direitos humanos internacionais sejam tirados da Constituição. O governo de Sverdlovsk proibiu as escolas de usar livros de um historiador britânico, devido ao retrato supostamente impreciso de soldados russos. Duas organizações beneficentes americanas anunciaram planos de fechar seus escritórios em Moscou, citando o ambiente hostil.

Para alguém de fora, a disparidade entre as aparências e esses fatos recentes é desconcertante. Qual lado representa a Rússia real? O lado assediado por agentes estrangeiros ou a Moscou dos jovens tatuados andando de skate? E quando é que esses dois mundos vão colidir, se é que isso vai acontecer algum dia?

Moscou parece estar renascendo em uma versão mais bela e autoconfiante. Os exageros bombásticos deram lugar à elegância casual. Numa tarde recente no Uilliam’s, com ravióli de pato ao molho de laranjas no cardápio, as pessoas estavam sentadas sobre almofadas ao lado de janelas abertas, batendo papo, tomando vinho e olhando as outras pessoas.

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No entanto, os ricos não são os únicos beneficiários. A situação econômica dos russos melhorou substancialmente desde que o presidente Vladimir Putin chegou ao poder, em 2000. O salário médio triplicou e a pobreza foi fortemente reduzida, possibilitando uma sensação de bem-estar que não estava presente na década de 1990.

“Hoje em dia a vida na cidade é muito mais cômoda”, comentou o operário de construção Denis Lebedev, 33. O trânsito está sob controle e os salários subiram. “Hoje há flores nos parques”, disse sua mulher, Anya Lebedeva.

Mesmo o que é velho parece novo. Numa noite recente nos bastidores do Teatro Bolshoi, dezenas de bailarinos conversavam com admiradores, membros da alta sociedade moscovita, após a première de um novo balé russo. Foi um espetáculo suntuoso que fundiu balé moderno e clássico com um romance russo do século 19, “Um Herói de Nosso Tempo”, nunca antes adaptado para a dança.

“Simplesmente magnífico”, disse um homem de terno azul que subiu ao palco, falando com Ilya Demutsky, o jovem compositor de São Petersburgo que criou a música.

Porém, a pompa também pode assinalar algo mais sombrio. Numa manhã recente de domingo, o patriarca Kirill, chefe da Igreja Ortodoxa Russa, benzeu a recém-restaurada Igreja de São Vladimir, na zona central de Moscou. Um dia depois, Putin chegou para uma visita particular à igreja. O sermão do patriarca incluiu comentários indignados sobre a Ucrânia.

“Quando nos dizem hoje que alguém de fora destruiu a unidade do povo ucraniano”, disse, aludindo às críticas à ação militar da Rússia na Ucrânia, “respondemos: ‘Calem-se!’.”

Outro divulgador do patriotismo russo é o cirurgião e entusiasta por motocicletas Alexander Zaldostanov. No ano passado, sua gangue de motoqueiros promoveu uma reconstrução bombástica da guerra na Ucrânia, com nazistas munidos de tochas representando nacionalistas ucranianos manipulados por um conjunto gigante de mãos americanas.

“Não sou promoter de espetáculos”, disse Zaldostanov no mês passado, ao anunciar planos para outro show. “Para mim, é uma guerra. Uma guerra pela pátria mãe.” Ele acusou os EUA de “bombardear a consciência” do mundo.

Entre os intelectuais, o clima é sombrio. Nas últimas semanas, artigos de jornal atacaram o departamento de jornalismo da Universidade Estatal de Moscou por ensinar ideias liberais. Vários professores da Universidade Estatal de São Petersburgo foram demitidos devido às suas posições políticas, segundo colegas.

Muitos estão deixando o país. O número de russos que emigram para Israel subiu dois terços nos cinco primeiros meses deste ano, comparado ao mesmo período do ano passado, revelou o Burô Central de Estatísticas de Israel. Cargos docentes temporários se tornam permanentes, e programas de pós-graduação se convertem em estadias prolongadas.

Mas há quem esteja otimista. O político oposicionista Vladimir Milov disse que os russos se preocupam muito mais com a economia do que com a política externa e que o discurso agressivo e nacionalista não é profundamente arraigado. “Há uma parcela de 5% a 10% da população que realmente se envolve com essa retórica imperialista”, disse, “mas mais de 90% não dá a mínima.”

Numa sexta recente, funcionários da prefeitura pintavam estandes de bicicletas em calçadas novas e amplas de pedra. Ivan Ilin voltava ao trabalho depois de tomar uma sopa de cebolas no café Jean-Jacques. Ilin, 33, natural do sul da Rússia, tem uma firma que atua no campo novo dos recursos humanos.

Ele geralmente viaja à Europa duas vezes por ano, para a Itália, Letônia e Lituânia e para Lisboa para treinar o português. Ele não gosta da imagem de uma Rússia assediada nem do fato de a imprensa não ser independente, mas acha que há pouco que ele possa fazer para mudar essas coisas.

Mesmo assim, ele não tem planos de partir.

Na semana passada, uma ativista dos direitos humanos que atua como a consciência do país, Lyudmila Alexeyeva, 88, estava afundada em um sofá azul. Sua organização, o Grupo Moscou Helsinque, tinha 17 funcionários em 2013, número que caiu para sete hoje. Para não ser rotulado de agente estrangeiro, o grupo parou de aceitar donativos do exterior.

Num programa de rádio em que o público pode participar fazendo perguntas, a primeira pergunta foi de um homem que quis saber a opinião de Alexeyeva sobre “o rugido predador do imperialismo americano”.

Ela explicou que os EUA ficavam longe e que ela está mais interessada na Rússia. “O que mais me surpreendeu e entristeceu foi que, depois destes 20 anos em que estamos conectados ao mundo, ligados com a mídia, com as liberdades, ainda não aprendemos a pensar por conta própria”, disse.

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