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Ahmad Mahayni, um empresário de 38 anos de Damasco, é uma das cerca de 200 mil pessoas que, contando com a boa vontade da Alemanha, vão tentar pedir asilo ao país.

E ele parece mais que decidido a construir um futuro para a família: ajuda no centro de refugiados para onde foi enviado após chegar ao aeroporto de Berlim, dizendo à polícia que queria asilo, e já é bastante fluente em inglês, mas começou a fazer dez horas de aula de alemão por semana.

Três anos e meio de guerra na Síria resultaram na pior crise de refugiados do mundo, de acordo com a ONU. Na Alemanha, eles chegam aos milhares – e mesmo no país onde o passado nazista funciona como um lembrete do dever assistencial, muitos já duvidam se será possível ajudar tanta gente.

Em termos mais amplos, a relutância começa com a questão de onde abrigar os recém-chegados. Cidades como Hamburgo, Munique e Berlim apelaram, em vários níveis, para barracas, contêineres de carga modificados e até já se fala em aproveitar navios.

O problema se tornou tão sério que o vice-chanceler, o líder social democrata Sigmar Gabriel, pediu a alocação de mais um bilhão de euros, ou cerca de US$1,2 bilhão, para auxiliar as comunidades necessitadas.

Cidadãos – que juram não ter nada contra estrangeiros, mas dizem temer pelos filhos e o "Ruhe und Ordnung" (paz e ordem) tão valorizado pelos alemães – organizaram protestos nos diversos lugares onde se planeja montar novos centros de refugiados.

Um deles é uma parte privilegiada de Hamburgo, onde um antigo centro de recrutamento do Exército será transformado em casas para 220 refugiados. Por outro lado, dezenas de moradores se uniram para explicar aos recém-chegados como funcionam as coisas, distrair as crianças e integrá-las. Outros, como o dono de bar Mikko Gehlhaar, de 69 anos, duvida que os estrangeiros se sintam à vontade nas lojas exclusivas da região. "Realmente este não é o lugar certo; por aqui não há um único lugar em que vão poder comprar", sentencia.

De vez em quando os próprios refugiados protestam, principalmente em relação à agilização da saída de pessoas da Síria. Em novembro, a polícia desbaratou um grupo de trinta que ensaiavam uma greve de fome em Munique; dezenas de africanos ocuparam uma escola em Berlim. Em um centro na periferia de Hamburgo, em novembro, refugiados, a maioria homens da Síria e do Iraque, reclamavam do frio nas barracas e contêineres.

As autoridades alemãs estão dinamizando os pedidos dos exilados sírios – que, em média, estão levando sete meses para serem concluídos.

Os olhos de Ahmad se enchem de lágrimas quando fala da mulher e dos filhos – duas meninas, de nove e seis anos, e um garoto, de quatro – que não vê desde agosto, quando os deixou na Jordânia, onde a família passou três anos em exílio por causa da guerra.

O governo também reduziu de nove para três meses o tempo de espera antes que os refugiados possam procurar emprego. Há quase 160 mil pedidos pendentes no momento e os especialistas esperam que ainda este ano superem a marca das 200 mil.

Berlim está assumindo um papel crucial nessa crise: as autoridades informam que cerca de 340 milhões de euros já foram enviados em 2014 à região do confronto, para assistência aos desalojados; outra parcela será investida no próprio país.

Cada um dos 16 estados alemães recebe uma parte dos estrangeiros, previamente estabelecida, e deve definir a melhor forma de distribuí-los. Os da região ocidental, mais populosos, recebem mais que os que faziam parte da Alemanha Oriental – tanto quanto na Europa como um todo, onde são cada vez mais frequentes os apelos para que o fardo seja dividido entre os integrantes da União Europeia.

Em um antigo albergue, na periferia de Hamburgo, os alemães chegam trazendo roupas usadas, brinquedos e móveis; crianças de várias nacionalidades brincam em harmonia e os pais do Afeganistão, Irã, Síria e África Ocidental, se declaram entusiasmados com as perspectivas.

Mohammad Salaho, de 23 anos, chef que mostrou o que alega serem cicatrizes dos tempos que passou na prisão e foi torturado na Síria, disse que quer contar às pessoas tudo o que passou; Siyamend Hassan, que estudou Engenharia na Síria, quer aprender a língua e começar uma vida nova.

Enquanto Ahmad seguia para o ponto de ônibus, perto de Berlim, um repórter perguntava a um pedestre o que ele achava da presença dos refugiados. "Com certeza devemos ajudar todos a fugir da guerra", afirmou o homem, que se identificou apenas como Steffen. "Eu mesmo sou da Alemanha Oriental e passei 3,5 anos na cadeia lá por uma tentativa de fuga frustrada. Sabemos bem como funcionam as ditaduras", concluiu, dizendo-se pronto a auxiliar os sírios a fugir dela.

Ahmad também aprendeu muita coisa a respeito do passado da Alemanha. "Depois de 1945, eles se reergueram das cinzas. Quero fazer o mesmo para depender só de mim. É a melhor coisa", concluiu.

Contribuiu Katarina Johannsen

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